Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
PALAVRAS SOLTAS - Nini
Hoje – com desejos de Boas Festas para todos – quase um conto de Natal.
(Registo - trabalho de Maria José Rijo)
Nos Açores, na Ilha Terceira apelidavam de “marau” as mulheres que viviam da exploração do sexo.
A mãe do garoto era marau.
Às vezes saia, deixava o pequenino ao Deus dará e voltava dois ou três dias depois, sem cuidados ou remorsos.
A vizinhança condoía-se, acarinhava-o, olhava por ele, alimentava-o.
Um dia, uma santa mulher, mãe de filhos já criados, até já casados – emigrados no Canadá – não resistiu: - levou consigo o menino e, no segredo do seu coração de acordo com o seu homem – chamou-lhe de filho.
Marcou-lhe um lugar à mesa que não consentia trocas mesmo frente a lágrimas e caprichos de netos. Destinou-lhe cama e quarto e assim corajosamente se dispôs a cria-lo.
O tempo foi correndo. O casal trabalhava duro e feio.
Levantavam-se de madrugada e saíam cada um ao seu destino.
Em certa época, já o pequeno frequentava a escola, pensou que gostava de ajudar os “pais” na luta pela vida.
Só não sabia como proceder.
Um dia, porém, quando pelas cinco da manhã o padeiro que, como sempre, àquela hora empurrava a porta para deixar o pão ofereceu-lhe a oportunidade sonhada.
-- “Quer-se sentir homem” – assentiram os “Pais”.
Passou a estar preparado e pronto em cada madrugada e, com a sacola dos livros à tiracolo, lá ia ajudar na distribuição do pão percorrendo ruas e canadas, dando volta à freguesia até à hora de entrar para a escola a que não faltava.
Ganhava assim uns trocados e o pão de cada dia que começou a ser sobre a mesa o seu contributo de amor filial.
Durante três anos convivi com esta nobre gente.
Ajudei a criar os pássaros que as tempestades faziam cair dos ninhos e o garoto que recolhia das enxurradas nas madrugadas frias, antes que os gatos tivessem acordado…
Ainda vejo mesmo de olhos fechados o seu vulto ligeiro a percorrer os “cerrados” em procura de alimento para um pequeno mocho, fofo como um peluche, com os olhos amarelos, luminosos e profundos como os algares da sua ilha natal, que ele salvou.

Acolhemos um pardalzinho que respondia por “Nini” – e esvoaçava pela casa como se toda ela fora o seu grande ninho.

Depois… foi o terramoto.
A mãe do pequeno, perdida a casa de habitação, condicionou a sua ida para o Canadá para junto dos filhos à possibilidade de levar o adoptivo.
Com imensas dificuldades conseguiu legalizar o seu sonho.
Lá foram.
O rapaz estudou, cresceu.
Naturalizou-se cidadão do Canadá.
Pertence à polícia montada.
Mandam notícias
Já casou, tem três filhos.
Conta coisas novas mas recorda os Açores e os amigos desses tempos idos.
Esta é a história verdadeira de uma criança caída do seu ninho e criada em ninho alheio, que colhia todos os bichos estropiados e passarinhos implumes que achava pelos caminhos.
Um menino que só faltou à escola no dia em que o padeiro, já velhote, porque a gota o obrigava a deixar a profissão, vendeu a carroça e o burro a que o rapazinho muito se afeiçoara também.
O Luís – que assim se chamava – foi então a pé, ao outro lado da ilha, até à casa do novo dono para se despedir e ver onde ficava o seu companheiro de trabalho – o burro.
É também a história de uma criança que trabalhou porque o coração lho pediu.
Trabalhou como sempre viu fazer aos pais que o adoptaram e souberam aceitar e respeitar o seu desejo de trazer para a mesa o pão-nosso de cada dia.
É uma história de vida.
É uma história de partilha.
É uma história de amor que vi viver e guardo na minha lembrança como um BELO CONTO DE NATAL.
Maria José Rijo
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Jornal linhas de Elvas
Nº 2.831 – 20- Dezembro-1996
Conversas Soltas
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Natal

Mesmo sobre a saudade, a
doçura do Natal, embala cada
coração como uma
música de esperança.
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Maria José Rijo
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Postal
Fotografia de
João Carpinteiro
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SOPA DE BATATA

Azeite; Cebola e um dentinho de alho; Pimentão flor (umas pitadinhas para dar cor); Um bom ramo de hortelã; Um nadinha de salsa; Batatas às rodas grossas.
Tape para estufar em lume brando. Junte água a pouco e pouco até a batata cozer.
Faça-o lentamente para o caldo engrossar. Acrescente o caldo à conta que precisar. Escalfe ovos (se as galinhas andam a pôr).
Deite tudo a ferver sobre a sopa de pão acamada na “tigela” em que há-de ir á mesa.
Veja se a louça é curtida (isto é uma velha recomendação popular, daí o senão), caso contrário sabe a barro.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Pão


