Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
O DIVINO NETO – Á Laia de conto de Natal
Tristes ou alegres, doces ou amargos – aqui está a época certa em que “elas” chegam e se instalam sem pedir licença ocupando tudo.
“Elas” estão mesmo presas a tudo – rendemo-nos e deixamo-las fazer de nós “gato-sapato” – que sendo Natal a festa da família, tem forçosamente que ser a festa da saudade e, o reino “delas” – das recordações…
Pois que floresçam!

-- No quarto da minha Avó havia um oratório, tinha muitos quadrinhos e lembranças (chaves de urnas, madeixinhas de cabelos baços) e alguns santos. No centro, ao fundo, “O senhor” – pregado na cruz – à frente, um belo menino Jesus, sobre uma peanha e, a seus pés um pequeno presépio (um ex-voto aí, do século XVII, não havia dúvidas)!
Num dos lados uma bonita imagem de Nossa Senhora do Rosário e, do outro, antiquíssima também, outra escultura: - Santo António com o menino Jesus pequenino, nu, sentado sobre o missal, tendo na outra mão o rosário. Enfiada nesse braço, ainda a “coroinha”.
Este era o mundo das orações, das preces, da angústia e dos devotos agradecimentos.
Era o altar das reverências.
-- “Vai-te benzer ao oratório! – que são horas de deitar”
-- “Vai pedir a Jesus! – Vai agradecer a Jesus”.
-- “Vai rezar aos santinhos”
--“És capaz de repetir isso ao pé de Jesus?”
-- “Vai acender a luz do oratório! – que isto – que aquilo! … “
--“Alumia Santa Barbara, que vem aí a trovoada!...”
-- “Muda as flores aos santinhos…”
Era assim o ano inteiro.

Ah! – Mas no Natal!
a vermelho, tinha a marca “M.J.” (Menino Jesus) bordada em ponto de cruz miúdo – ponto de marca – assim se dizia – já tinha água morna (provada com as costas da mão) na bacia enorme do “lavatório grande” – onde diariamente mergulhava e ensaboava as suas duas netas – e estava interdito a mais, quem quer que fosse – e seguia com carinho o mesmo ritual da cerimónia das abluções. Depois de “O” lavar, voltando a envolve-l”O” na toalhinha bendita, aconchegava-“O” ao peito como se faz às crianças e, dizendo palavrinhas de amor e conforto: - “coitadinho”! – “Está muito frio!” – “Eu visto-“O” já” – “pronto!” – “pronto!”—dava-lhe palmadinhas nas costas e, a seguir compunha-“O “ para ficar durante as “festas” culminando o monte de pedras com musgos, areia e laguinhos de espelhos onde se exibiam – rodeando o Presépio – figuras de barro e celulóide de tamanhos tão distintos , como distintas foram as gerações de que provinham e as acumularam.
Talvez, na tímida e infantil adoração, com que há meio século, minha irmã e eu, olhávamos o “Novo Menino Jesus” – houvesse a ingénua convicção de que “Ele” era também neto da nossa Avó.
Ainda hoje, afogada na saudade desse tempo, dou comigo a sorrir, pensando que é a “Ele” agora, que a nossa Avó, lá no céu, aconchega as roupas da cama, falando-lhe de nós com o humaníssimo amor que usava a falar-nos d’Ele.
Natal de 1984
Maria José Rijo
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À
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.765 – 21 de Dezembro de 1984
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SOPA DE POEJO

Poejos pisados com alho e sal e colorau.
Deita-se a mistura sobre o azeite quente.
Acrescenta-se o caldo que se engrossa com farinha.
Leva umas gotas de vinagre.
Escalfam-se ovos no caldo fervente que, depois, deita sobre a sopa de pão.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Pão


