Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Em Cabinda um soldado menino…
A manhã estava húmida e fria.
Não nevara durante a noite mas as temperaturas muito baixas conservavam intacto o gelo que revestia as árvores tornando-as tão irreais como se fossem de vidro.
Arrepiava vê-las assim, hirtas, sem movimentos, ostentando a pesada beleza do gelo que as fixava em poses de serenas estátuas.
Não se ouviam passos e nas ruas não havia gente. As janelas fechadas dos prédios faziam a fronteira por onde os dois mundos se espreitavam através das vidraças.
Dentro de casa, provindo da cozinha espalhavam-se cheiros conhecidos. Referências culinárias passadas de geração em geração desde tempos já perdidos na memória.
O peru assado no forno, lentamente, protegido por grossas folhas de couve lombarda. A canela que desenhava grafismos sobre o arroz-doce. O azeite fervente onde as filhós empolavam em bolhinhas fritando até doirar. A calda de açúcar baunilhada, para as fatias de ovos – tudo – tudo junto, mandava com os seus condimentos fluidos a mensagem da mesa de consoada, farta de pitéus gostosos, que se ofereciam à gula da família e amigos no regresso da missa tradicional – sobre a toalha de linho branca sobre a mesa com o peso das rendas antigas engomadas a preceito.

= Então tocou o telefone.
Imperativo, estridente e desajustado som naquela época de cânticos e sinos.
E, a notícia, breve e cruel, ficou ali pespegada com a inoportunidade do indesejável. Com o peso do que é irremediável e opressor.
Lá em Cabinda… longe, longe, daquela cidade da Guarda – morrera – numa emboscada - um soldado menino, por erro de secretaria, fora parar à guerra no mesmo barco que levara seu irmão gémeo.
A cozinheira eficiente, cheia de orgulho e brio do seu currículo de serviço por embaixadas e casas fidalgas – ignorando a tragédia ia e vinha por entre tabuleiros, tachos e tigelas, atenta e afadigada.
Em grandes alguidares de água boiavam merugens, alfaces e agriões. Era a promessa das frescas saladas.
Quando eu apareci no cenário dois olhos amigos me fixaram pontuando com ternura a recomendação:
= Não venha para aqui encher o seu cabelo de cheiros de gordura que não é preciso.
Eu dou conta de tudo. Vá-se entretendo com as flores e o fruteiro. Ainda não arrumou o azevinho e já aqui tem as camélias que encomendou.
Na véspera andáramos, felizes, lá para os lados do Seixo Amarelo, pisando tapetes de folhagem macias por entre soutos e matos cheirosos, catando verdes com bagas vermelhas.
= Afinal – disse eu – séria e firme: = Já não fazemos festa
Depois, fria como o “cinzelo”, expliquei:
= Dois sobrinhos em Angola, um irmão que vai para a Guiné antes do fim do ano, os seus rapazes por lá também – sabe Deus como…
= Vamos festejar o quê?
Chamo os nossos amigos para levarem tudo isto, e nós vamos serra a baixo até à nossa gente. Depois de alguma troca de razões, lá acedeu rezingando, contrariada de verdade.
No entanto, vestiu para estrear pelo caminho, um casaquinho novo e ofereceu-me um xaile de malha (que eu vira tricotar diligentemente aos serões) para abafar os meus joelhos nas viagens. E, lá fomos noite dentro.
Quando se desce ou sobe a serra avistam-se vales profundos com luzinhas dispersas que quase parecem pequenas estrelas, A observação fê-la, certa vez, uma criança, dizendo deslumbrada:
-- Olha! Olha! O céu vem até cá abaixo!
Por altura do Soito do bispo uma raposa atravessou a estrada a coxear.
A mulher riu porque eu, em voz alta, rezei:
== Boas-festas, Bicho! Que chegues em paz à tua toca para criares as tuas ninhadas.
Tirando aquela minha coraçonada, ninguém falara. O rádio do carro, baixinho, envolvia-nos com cânticos de Natal e breves noticiários.
Corriam as horas consumindo estrada e cada qual fechado nos seus pensamentos.
Começávamos a ficar perto do nosso destino – Caldas da Rainha.
A minha perturbação crescia. Como dizer a uma Mãe que lhe morrera um filho?
Ensaiava mentalmente mil jeitos. Nenhum me parecia certo. Viéramos, piedosamente, traze-la para junto das irmãs. Viéramos, mas eu teria que falar. Teria que contar.
Quando parámos o carro, antes que ela tocasse a campainha da porta, aconcheguei-a a mim e, num grande abraço, solucei ao seu ouvido a triste novidade.
O afecto da família envolveu-a. Ao seu cuidado a deixámos.
Na noite calma, cumprida a missão, ficámos sós, longe de casa.
Sós.
Sem coragem para procurar companhia, não querendo levar a ninguém tristeza como presente de Natal.
Fomos até à Foz do Arelho ver-o-mar à luz das estrelas e escutá-lo, indiferente, como o céu às nossas mágoas.
Andámos um pouco a pé, de mãos dadas, depois apertámo-nos num abraço e chorei. Não era pieguice. Era um sentimento transbordante de ternura. Era talvez a doce consciência desta fragilidade de ser gente – de ser nada.
Nada, frente à grandeza da vida ou ao silêncio inviolável e imenso da morte. Nada. E, mesmo assim sentir como em qualquer de nós cabe a ternura que nos verga, dum Presépio, a dor do luto, a medida desmedida do Amor.
Maria José Rijo
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Á Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.247 – 6 de Maio de 1995

