Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Requiem por uma bela árvore
O barulho dos dentes da serra acordou-me. Eram mais ou menos oito horas da manhã. Acordar cedo num dia bonito é reconfortante. Mas acordar ao som da serra mecânica que esfrangalha a árvore mais pujante que embeleza a nossa rua é uma dor de alma.
E é, também, o acordar para uma realidade impensável nos nossos tempos em que tanto se apregoa a defesa do ambiente e da natureza.
Como é possível que o comodismo de cada qual triunfe sobre o bem-estar duma comunidade e o respeito que se deve à vida nem que ela seja apenas a de uma árvore que cresce e floresce para bem de todos! – Interrogo-me!
Então lembrei-me de uma casa onde morei, na cidade de Tomar.
A porta da rua ficava numa praceta chamada de: Olivença. Era singela, sem enfeites, calcetada à portuguesa e, como único embelezamento dispunha de uma árvore, tão esguia e alta que a sua ramaria me batia nas vidraças do primeiro andar e aventurava-se casa a dentro mal eu abria a janela.

Meu Pai havia morrido, e, essa mágoa apertava o meu coração.
Acabava de deixar uma cidade, a Guarda, onde criara bons amigos e onde tinha gostado de viver. Sofria daquele desconforto de quem de repente, se vê desenraizado e privado para sempre de pessoas queridas. Pois foi com todas estas emoções tumultuando o meu espírito que entrei na minha nova habitação. Aquela bela casa que tinha para me oferecer uma copa de árvore roçando as minhas vidraças, marcando a sua presença, não me deixando mais sentir tão só, nem tão triste.
Ela era um veículo de ligação privilegiado da natureza entre mim e o meio. Ela era um presente de Deus para aliviar a minha solidão. Era o meu aceno de esperança para os céus. Pelo menos foi assim que a entendi, e aceitei com alegria o meu encargo de limpar as folhas que soltava para dentro da minha sala de jantar. Nela pousava, nidificava e se acoitava a passarada para dormir. E eram tantas as horas que eu passava imóvel encostada à ombreira da janela compartilhando aquela generosa vizinhança, que, a certa altura algumas das aves já nem fugiam de mim, tão acostumadas estavam à minha presença.
Vi um parzinho, delas construir o ninho. Vi chocar pacientemente os pequenos ovos de casca salpicadinha, vi nascer moles e feios três pequenos seres de bicos famintos debruados de amarelo vivo. Quase podia dizer que lhes vi nascer as penas uma. Vi-os ensaiar os primeiros voos. Faziam parte da minha alegria.
Era uma presente que eu agradecia aos céus em cada dia.
Por esse tempo, havia uns meninos, o Zé Manuel e o Tó Luis, que pela mão de sua mãe frequentavam muito a nossa casa. Com eles dividia aquela minha “riqueza” e quando mum dia de temporal, o vento e a chuva tudo fustigaram, abri a janela, indiferente ao desconforto e recolhi dois dos passaritos que com a ajuda do Tó Luis enxuguei, secando-lhe as penas. Depois do temporal acalmar, o menino, palpitante de emoção, devolveu-os à liberdade.
Não se trata aqui de alguém ser pior, nem melhor do que outrem. Todos somos diferentes. Apenas, diferentes. Como tal, também são diferentes os nossos valores!
Evoco estes factos quase como quem conta uma história para crianças, porque ás vezes, endurecemos a nossa sensibilidade no turbilhão dos nossos afazeres e preocupações, e esquecemos o valor divino das pequenas coisas que passam à nossa beira! E, em nome do pó, do brilho das vidraças e outras coisas de somenos importância, perdemos muitos momentos felizes que o dia a dia nos dá de presente se para eles abrirmos o coração.
Adeus jovem e bela árvore.
Dia a dia deitarei em redor do teu tronco mutilado, ainda erecto, como uma cruz de martírio, uma pouca de água.
Faço-o como quem reza um requiem pela privação da tua sombra, pelo encanto perdido, da tua vida, tão cruel e inutilmente sacrificada.
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.664 – 28/Junho/02
Conversas Soltas

