Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Ano Novo
Todos temos as nossas pequenas manias.
Por vezes nem temos delas consciência, de tal modo estão arreigadas nos nossos hábitos.

São gestos, frases, reacções, atitudes, que nos são tão próprias, que nos estão tão grudadas como a própria pele e, de que só por acaso ou por reparo de alguém próximo identificamos.
Eu tinha, e ainda conservo, o jeito de apressar qualquer trabalho dizendo: então, vamos! – E, só disso, me apercebi, quando um amigo me perguntou, inocentemente: - em meio do trabalho- aonde queres ir?
Consciencializei-me então de que não seria aquele o meu único estribilho, e reconheci que também tinha por hábito repetir versos soltos de alguns poemas que me ficaram, como música, no ouvido, ou, mais do que isso – presos na minha sensibilidade.
Assim, sempre que me sentia prisioneira de convenções ou compromissos que me incomodavam, lá estava eu a repetir – de Manuel Bandeira –: - Vou-me embora para Pasárgada, lá sou amig(a) do rei!...
E, quando “acordava” para qualquer desilusão que me doía ter sido possível, lá vinha – de Garrett – Eu tinha umas asas brancas – asas que um anjo me deu!...adaptando, assim o poema, à minha realidade.
E, no dia em que no mercado, ao escutar do vendedor a informação de que as maçãs eram do norte, (o que inconscientemente, com um verso da lenda das amendoeiras, comentei) – do país da neve fria! – Tive que sufocar uma gargalhada quando, com um ar, sincero, de piedosa comiseração ele me “elucidou” – o norte é no nosso país, lá para cima, senhora! E, eu agradeci, muito séria, enquanto pagava a compra.
Vem esta conversa a propósito de que, ao ter escrito: Ano Novo, como epíteto desta crónica, me ocorreu que, cada
ano novo, por contraste, nos torna menos novos... e pensa-lo acordou na minha memória uns belos poemas, também de Manuel Bandeira que desde sempre me encantam:
“Preparação Para a Morte”
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
Tudo é milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo, menos a morte.
- Bendita a morte, que é o fim de todos
os milagres.
O Último Poema
Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos
intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes
mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Apetece-me acrescentar:
Assim eu quereria o meu último dia; – assim eu quereria todos os dias da minha Vida – como um poema perfeito que sempre rimasse com amor à Vida, e graças a Deus.
BOM ANO NOVO!
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.846 – 29 / Dez./ 2005
Conversas Soltas
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ENXOVALHADA

No dia das amassadura deixa-se um pouco de massa de pão no fundo do alguidar, coisa de 1 quilo.
Picam-se e aquecem-se uns torresmos, dos que ainda restam da matança – cerca de 250g.
Sovam-se na massa. Junta-se o açúcar, mais ou menos 250g e meia chávena de leite.
Deita-se a massa num tabuleiro untado com banha beliscando-a por cima para ficar aos bicos.
Polvilha-se generosamente com açúcar e canela, e coze em forno quente.
Com o calor, o açúcar cristaliza e fica a brilhar sobre a massa como a geada, nos campos, nas manhãs frias de Inverno…
Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Doces


