Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
As Roncas do Natal de Elvas



Em Estudos e notas elvenses por A. Thomaz Pires, consta:
“ Das nove horas até à meia noite de Natal percorrem as ruas da cidade differentes grupos de homens do povo, cantando em altas vozes, em coro, e n’um rhytmo e entoação especial, trovas ao Menino Jesus, acompanhadas pelo som áspero da ronca: alcatruz de nora, ou panella de Barro, a cujo bocal se adapta uma membrana, ou pelle de bexiga, atravessada por um e pau encerado, pelo qual se corre a mão com força para produzir um som rouco.
Somente pelo Natal é este instrumento ouvido”
(António Tomás Pires, “A noite de Natal, o Anno Bom e os Santos Reis” – in Estudos e notas elvenses. Elvas António Torres de Carvalho, 1923, 2ª ed.p.9.)
Ainda hoje em noites de Natal, é frequente escutar no silêncio das ruas, o som das roncas, como memória dos tempos, ressoando cavas e roucas, a acompanhar o compasso lento, dos cantes dos homens, que embuçados nos seus capotes, arrostam o frio da invernia para reverenciar o Menino Deus. Solenes, vão cuspindo na mão, para lubrificar a pele, como também fazem para empunhar a enxada e cantam coisas belas e ingénuas que o coração lhes dita:
Ó meu Menino Jesus
Encostadinho ó madêro
Aqui tens a minha alma
Fazei dela travesseiro
Maria José Rijo
(Elvas, Dezembro 2002)
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“Pisem o chão devagarinho”
Há muitos anos uns amigos meus, hoje já com bisnetos, esperavam o primeiro filho. Quis o destino que uma queda da mãe, precipitasse o nascimento dessa criança, que não sobreviveu.
Passou-se então ante os meus olhos qualquer coisa que não esquecerei jamais.
Como sempre, em tais circunstâncias, surgiram os amigos e familiares mais próximos. Todos, mais ou menos, compungidos se esforçavam por explicar o inexplicável tentando fazer aceitar o que todos nós tão mal aceitamos – a morte.
Foi então que chegou a avó do nado morto. Era uma idosa e linda senhora que idolatrava os netos, e, tinha muitos. Cumprimentou os circunstantes com um baixar de cabeça, e dirigindo-se para a cama onde o menino repousava disse com o maior carinho:
- Meu menino, tem que adormecer ao colo da sua avó como adormecem os outros netos. E debruçando-se sobre o pequeno vulto envolveu-o no xalinho branco que o cobria e começou a embalá-lo apertando-o junto ao peito e cantando, ou rezando baixinho; nem sei...
Decorreram uns minutos – ou horas, - quem saberia contar tal tempo a não ser pelas batidas do coração ...
Depois, deitando o pequenito de novo no berço que lhe havia sido destinado, e o esperava para viver e crescer, saiu do aposento, pé ante pé ,encostando com suavidade a janela e a porta como se receasse que algo o acordasse .
Assistindo em silêncio (como todos os demais) a esta estranha manifestação de mágoa e amor, o pai do menino sussurrou a frase que havia de lhe servir de epitáfio: “pisem o chão devagarinho que o nosso filho adormeceu.”
Os anos passam, as coisas, boas e más, tristes e alegres, arrumam-se na memória indisciplinadamente, esquecem-se, e, um dia ,por um pequeno indício, um quase nada , aí estão de volta impondo-se como uma dor ou um remorso , uma alegria que se recorda. Vivas, latentes, insuperáveis.
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A criança nasceu com problemas de saúde graves.
Tem convulsões atrás de convulsões. Cai, fere-se sangra. Perde os sentidos. Fica como se fora de cera. Configura a morte.
O amor dos pais por ela não se cansa, nem cansa, mas o sofrimento, esgota mesmo quando o amor é a sua raiz.
Então a tragédia irremediável duma criança, torna-se quase intolerável para a nossa compreensão.
Ser santo, não é profissão.
É caminho, longo e difícil.
Nas jornadas penosas, é natural que se caía mais vezes.
Divergir, procurar atalhos, tentar de qualquer forma iludir a fatalidade que oprime – que viver, – como disse Rilke em” Cartas a um Poeta” – é bom, porque é difícil – tem a lógica da nossa fragilidade de sermos gente, tem toda a carga da ansiedade de ser feliz que todos afagamos com esperança.
”Ajoelhada no chão, ao lado da criança, que despertava, lentamente, de mais um acidente, a mãe, com suavidade limpava o sangue que da boca lhe escorria manchando o rosto pálido e sereno na imobilidade do transe.
As lágrimas corriam-lhe. Mas cantava com voz doce a canção preferida da criança para que o seu despertar fosse confiante.
Foi aí, nesse momento, que a outra história reapareceu.
A outra velha história de um outro sono, esse, sem despertar, que outro coração de mãe-avó embalou a cantar assim, pateticamente.
Foi aí que me surgiu a necessidade de, nesta época, como quem conta um conto de Natal, contar estas duas histórias verdadeiras
Nem sei explicar porquê.
Talvez porque a intensidade do sofrimento às vezes nos deixa perplexos.
Talvez pela consciência de que há dores de que não se acorda ou que não adormecem jamais.
Talvez porque seja bom que “pisemos o chão devagarinho” sempre que nos escape o entendimento de qualquer situação.
Em boa verdade, o que sabemos nós do sofrimento que se esconde e vive em cada coração e dos caminhos a que impele o desespero no humaníssimo desejo que todos temos de ser felizes...
Isso, só Deus sabe!
Volto a citar Rilke, nas cartas a um poeta – “ quem sabe se, para poder começar em si (em nós) Deus não teria necessidade da sua angústia perante a vida? “
Estamos à beira do Natal.
Celebramos de novo o nascimento de Jesus.
“ O menos que podemos fazer é não LHE resistir mais do que a Terra resiste à Primavera quando esta chega...”
Tenhamos confiança.
Estas são também palavras de Rilke que foi considerado o poeta, por excelência, do Amor e da Morte
Boas Festas para todos
Um Santo Natal de Paz e Alegria.
Maria José Rijo
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Nº 2.484 – 25/ Dez. / 98
Conversas Soltas
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Assembleia da República
Em continuação da sua colecção de gastronomia, iniciada com
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Excelente iniciativa esta do Município elvense, que bem podia ser seguida por todas as Câmaras que não queiram ver perder-se a tradição gastronómica dos seus Concelhos.
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Noticias sobre estas colecções - podem ser consultadas em:
# - Jornal Linhas de Elvas . nº 1979 - 24/2/1989
# - Diário Noticias - 25/3/1989
# - Jornal de Turismo
# - 1º de Janeiro - Os Sabores
# - Jornal Expresso - Agenda da Assembleia da Republica
# -
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CASPACHO, GASPACHO OU VINAGRADA

Azeite, alho pisado com sal; água fresca do cantarinho (infusa ou quarta, conforme a região); Vinagre, pão migado à mão, oregãos para perfumar (o uso dos orégãos não é obrigatório).
Esta é a base da sopa fria que se come como alimento e refresco, durante o duro Verão alentejano.
Foi depois enriquecendo com a adição de pepino, tomate e pimentos verdes picados em bocados pequenos.
É prato turístico em hotéis, batido com um puré frio a que se adiciona, por vezes, ovo cozido e a que subtrai quase por completo – ou completamente – o pão.
O seu acompanhento mais próprio são as azeitonas.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Pão

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Boas Festas















Encontrei, por acaso, num livro que um Amigo me emprestou um pensamento de Horácio, que é, para mim, dos poemas mais belos que já li.


Vou transcrevê-lo e, deixá-lo aqui como presente de Natal para todos os Amigos- assim os considero- que com os seus comentários me têm feito sentir que, de algum modo, todos somos muito mais irmãos na forma de olhar a Vida, do que por vezes queremos admitir.

Para
Dolores e seu Marido, Gustavo Frederich, Flor do Cardo e Dina com quem privo dia a dia e, para todos os demais a quem devo a atenção do sinal de presença

um abraço grande de Boas-Festas e um beijo agradecido
"Como el almendro florido
has de ser en los rigores
Si un fuerte golpe recibe,
suelta una lluvia de flores"
Maria José Rijo



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Um Santo Homem
Jornal Linhas de Elvas –
Nº 2.338 – de 16 de Fevereiro de 2000
CONVERSAS SOLTAS
Propus-me escrever homenageando a memória do Senhor Padre Lapão, que há poucos dias partiu – para o céu – certamente.
É curioso que só me ocorre falar de regatos a correr, manhãs de sol, crianças felizes, gatos a brincar, aves em liberdade e outras coisas bonitas de se ver.
Não me parecendo essa a forma clássica de tratar estes assuntos – pensei dever encontrar outra maneira mais convencional de o fazer.
Pensei: - mas não é fácil para mim referir com o rigor dum retrato aquele Homem maravilhoso pois que, ligadas a ele só saberei evocar.
A casa acolhedora.
A grande cozinha com o lume sempre aceso quer de Verão, quer de Inverno...
A mesa posta; a comida simples, apetitosa, oferecida com franqueza fidalga.
O pão alvo, a açorda ou a sopa da panela (solicitada pelos amigos como ex-libris da amizade).
O rasto, quase provocante do perfume de hortelã, colhida de fresco, que tudo incensava.
Escrevi: - perfume de hortelã – e estou a pensar se não seria mais ajustado escrever: - perfume de paz, harmonia e santidade.
Eu não sei se essas abençoadas virtudes têm cheiro.
Se calhar, até, tudo provinha daquela figura miúda irradiante de humanidade.
Se calhar era esse o segredo de toda a mística que o rodeava.
Aquele ar de menino.
Aquele passinho pulado. Aquele olhar directo, limpo, que se deixava devassar até à alma.
As alegrias por nada.
Por nada – não! Não está certo dizê-lo.
As alegrias dos nadas da vida, talvez!
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Ou, as alegrias da vida, por coisas que para muitos são nada.
Talvez, seja melhor dizer assim.
Parece-me injusto. Muito, muito injusto não referir a doce companhia da Irmã que ternamente o chamava de: - Padre João e que como S. José ou Stº. António faziam ao Menino Jesus – trazia também, aquele “menino antigo” ao colo do seu afecto.
No pátio da entrada da casa da sua residência, há uma árvore grande.
As galinhas e os gatos passeiam-se por ali sem medos.
Água corre a rumorejar devagarinho pelas velhas cadeiras dos muros onde a avenca viceja em fartos tufos.
Como presença do passado algumas mós enormes que falam dum moinho a que se liga toda a história da família.
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Agora só labora o forno de pão.
Um pão que se come com o gozo do próprio perfume que o impregna.
Coisas boas – sãs – que se não contam e nos deslumbram por ainda existirem fora dos sonhos.
Tanta coisa já escrevi sem dizer o que queria.
Talvez o consiga contando alguns factos.
Sendo factos – aconteceram e por si, algumas coisas ficarão evidentes – creio.
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Uma vez, fomos de visita ao Padre Lapão. Ele sonhava construir Igreja (que está em meio) e transformar o lugar da “Nora” numa freguesia para facilitar a vida das centenas de almas – que pastoreava – e que dependem de S. Tiago de Rio de Moinhos que lhes fica a quilómetros de distância
Foi então que almoçámos juntos pela primeira vez e falámos desse e de outros assuntos.
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Terminada a refeição, visitámos o quintal da casa.
“A horta do Paçal” – pensei.
O Padre à nossa frente apontava isto, aquilo, a salsa, os coentros, o feijão verde... a fartura da casa. Dizia o nome das árvores.
Deliciada, seguia – o.
A certo passo, parou como quem recomenda silêncio e seguiu cauteloso como que em bicos de pés.
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Venha cá!
Venha ver!
Fui, esgueirando-me entre arbustos; e eis que na sombra densa dos loureiros aponta um ninho vazio.
É de rouxinol – anunciou. Criaram-se ali.
Não sei o que os meus olhos lhe contaram.
Sei que vi o menino e retribui o sorriso cúmplice daquele momento de encanto em que comigo repartiu o segredo do seu tesouro.
Fora aquele mesmo Homem que apontando uma nascente me esclarecera:
Nunca se tirou daqui, água a motor – Foi sempre “tirada a sangue”.
Entre estas duas surpresas – como entre dois pólos distintos – situo a sua recordação.
Conhecedor da dureza da vida, mas sempre com a alma pairando extasiada nas belezas e milagres que nos oferece o Criador.
Tinha oitenta anos.
Mais de cinquenta de sacerdócio.
Quem o conheceu, há-de lembrá-lo como vivia, era e se mostrava com a simplicidade de:
Um Santo Homem.
Maria José Rijo
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Uma visita mais
Mais uma visita, mais um pouco de conversa, aliás, outra coisa não é de esperar, quando tal acontece.
Alguém que aparece, sempre tem hipótese de contar algo de novo.
Ora, não é que fui informada – e, tendo sido publica a apreciação, era fatal que ela correspondesse ao desejo de quem a fez, de que chegasse ao conhecimento dos visados – duma precipitada e infeliz apreciação feita por quem deveria ter o cuidado de não falar do que desconhece...
Assim, como o recado, era para chegar...chegou.
Falemos dele, então:
Foi muito, muito feio, que um convidado na mesa de honra de uma festa de aniversário, ou, outra que fosse, começasse a sua intervenção apostrofando pejorativamente, uma discreta saída de três pessoas que por imperiosa necessidade deixaram o recinto, esgueirando-se – para não incomodar – enquanto soavam as palmas entre a actuação de um orador e a de outro.
Foi feio, muito, muito feio e intempestivo.
Mas...
Como dizia Bocage, quando mandou flores a quem lhe mandara lixo – “cada qual dá do que tem!”
- Eu, se rosas tivera, na circunstância dá-las-ia, ao Senhor da Piedade, (que tão invocado é por tão devoto crente) não para que lhe perdoasse por metade, mas, por inteiro. Metade já nem por artes de magia... seria suficiente, até, porque uma coisa, não dá nada com a outra.
Só venho lembrar que estando eu, na idade – talvez já “de diamante” – mereceria algum cuidado a quem protege “a idade de ouro.”
Jóias, são sempre jóias, e, por vezes, quanto mais antigas mais preciosas, talvez mesmo de maior fragilidade.
Porque não preocupar-se com essa possibilidade? – E fazer o raciocínio expontâneo – das pessoas, ditas normais:
- O que teria acontecido para que pessoas amigas que sempre estiveram ao lado do promotor da festa se ausentassem?
Porquê – sem hesitação atribuir grosseria e falta de educação quando não se conhecem as causas de algumas atitudes?!
Será que foi por comparação com comportamentos próprios?
Porquê sentir-se alguém, tão dono do mundo, que nem pensa – nem vê – que “a ofensa”, se existisse (o que na circunstância, era impensável) era para quem tinha feito o convite!
- Nunca, para um qualquer outro convidado fosse qual fosse o seu lugar político.
Será que por distracção minha, ou cegueira, não identifiquei o centro do universo!
Convenhamos que em Elvas os poços de petróleo não são de “Hugo da Venezuela”.
São outros os poços e, têm outro dono...
Porém, quem respira tantos vapores “do incenso da adulação”, não admira que a cabeça, por vezes, lhe ande à roda e nada mais vislumbre que o seu próprio ego.
No dia em que, terminada a representação, a divindade, tiver que se despedir do palco – embora esteja na vida bem acomodada – verá que é capaz de contar em seu redor, mais avestruzes do que admiradores...
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Lembrei-me deste bicho, porque dele se conta, que mete a cabeça na areia para não ver o que lhe desagrada.
Não sei se é verdade.
Razão porque não o afirmo.
Não espalho boatos.
Maria José Rijo
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Jornal O Despertador
28 de Novembro de 2007
Nº 221
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Requiem por uma bela árvore
O barulho dos dentes da serra acordou-me. Eram mais ou menos oito horas da manhã. Acordar cedo num dia bonito é reconfortante. Mas acordar ao som da serra mecânica que esfrangalha a árvore mais pujante que embeleza a nossa rua é uma dor de alma.
E é, também, o acordar para uma realidade impensável nos nossos tempos em que tanto se apregoa a defesa do ambiente e da natureza.
Como é possível que o comodismo de cada qual triunfe sobre o bem-estar duma comunidade e o respeito que se deve à vida nem que ela seja apenas a de uma árvore que cresce e floresce para bem de todos! – Interrogo-me!
Então lembrei-me de uma casa onde morei, na cidade de Tomar.
A porta da rua ficava numa praceta chamada de: Olivença. Era singela, sem enfeites, calcetada à portuguesa e, como único embelezamento dispunha de uma árvore, tão esguia e alta que a sua ramaria me batia nas vidraças do primeiro andar e aventurava-se casa a dentro mal eu abria a janela.

Meu Pai havia morrido, e, essa mágoa apertava o meu coração.
Acabava de deixar uma cidade, a Guarda, onde criara bons amigos e onde tinha gostado de viver. Sofria daquele desconforto de quem de repente, se vê desenraizado e privado para sempre de pessoas queridas. Pois foi com todas estas emoções tumultuando o meu espírito que entrei na minha nova habitação. Aquela bela casa que tinha para me oferecer uma copa de árvore roçando as minhas vidraças, marcando a sua presença, não me deixando mais sentir tão só, nem tão triste.
Ela era um veículo de ligação privilegiado da natureza entre mim e o meio. Ela era um presente de Deus para aliviar a minha solidão. Era o meu aceno de esperança para os céus. Pelo menos foi assim que a entendi, e aceitei com alegria o meu encargo de limpar as folhas que soltava para dentro da minha sala de jantar. Nela pousava, nidificava e se acoitava a passarada para dormir. E eram tantas as horas que eu passava imóvel encostada à ombreira da janela compartilhando aquela generosa vizinhança, que, a certa altura algumas das aves já nem fugiam de mim, tão acostumadas estavam à minha presença.
Vi um parzinho, delas construir o ninho. Vi chocar pacientemente os pequenos ovos de casca salpicadinha, vi nascer moles e feios três pequenos seres de bicos famintos debruados de amarelo vivo. Quase podia dizer que lhes vi nascer as penas uma. Vi-os ensaiar os primeiros voos. Faziam parte da minha alegria.
Era uma presente que eu agradecia aos céus em cada dia.
Por esse tempo, havia uns meninos, o Zé Manuel e o Tó Luis, que pela mão de sua mãe frequentavam muito a nossa casa. Com eles dividia aquela minha “riqueza” e quando mum dia de temporal, o vento e a chuva tudo fustigaram, abri a janela, indiferente ao desconforto e recolhi dois dos passaritos que com a ajuda do Tó Luis enxuguei, secando-lhe as penas. Depois do temporal acalmar, o menino, palpitante de emoção, devolveu-os à liberdade.
Não se trata aqui de alguém ser pior, nem melhor do que outrem. Todos somos diferentes. Apenas, diferentes. Como tal, também são diferentes os nossos valores!
Evoco estes factos quase como quem conta uma história para crianças, porque ás vezes, endurecemos a nossa sensibilidade no turbilhão dos nossos afazeres e preocupações, e esquecemos o valor divino das pequenas coisas que passam à nossa beira! E, em nome do pó, do brilho das vidraças e outras coisas de somenos importância, perdemos muitos momentos felizes que o dia a dia nos dá de presente se para eles abrirmos o coração.
Adeus jovem e bela árvore.
Dia a dia deitarei em redor do teu tronco mutilado, ainda erecto, como uma cruz de martírio, uma pouca de água.
Faço-o como quem reza um requiem pela privação da tua sombra, pelo encanto perdido, da tua vida, tão cruel e inutilmente sacrificada.
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.664 – 28/Junho/02
Conversas Soltas
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ENSOPADO DA BODA

Numa mistura de banha de porco e azeite, deixa-se papinhar cebola picada, alho e louro. Antes que a cebola frite, leva a carne de borrego partida em bocados e colorau.
Tempera-se, então, com sal, pimenta em grão e cravo (pode ou não levar salsa).
Cozinhar tapada em lume brando.
Deita-se-lhe água em golinhos, para cozer devagar sem afogar. Depois de cozida, junta-se-lhe as batatas cortadas às rodelas que também se deixam cozer com pouco caldo.
Acrescenta-se então uma golada de vinagre ou de vinho branco e volta a abrir fervura antes de se acrescentar o caldo à conta desejada. Serve-se sobre sopa de pão.
(O vinagre ou o vinho não são essenciais.)

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Pão

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EU HEI-DE IR AO PRESÉPIO
Há sensivelmente cinco anos, um frágil rapazinho, muito aprumado e impante de satisfacção,veio bater à nossa porta para anunciar a chegada do irmão.
Fê-lo de forma tão linda que a frase que proferiu, fez circuito entre a nossa família e amigos: - “Venho dizer que já tive um menino”.
Agora, esse que então chegara à vida e assim fora anunciado de forma tão luminosa como se fora a estrelinha de Belém…
Esse, veio até mim, com a graça própria dos seus escassos anos e, o também próprio, encanto de qualquer criança fazer-me um convite:
== Venha ver-me na festa de Natal da minha escola! – Escola que identificou como sendo a da Fafita, da Celeste e da Isabel.
Fiquei também a saber que os meninos todos faziam “coisas” e as famílias e amigos eram convidados para assistir e para o convívio no final.
Deliciada aceitei e fiquei a aguardar o acontecimento com o coração flutuando em ternura.
Da forma mais inesperada, mas, talvez, mais doce possível – o Natal – tão arredio da minha vida, agora, viera bater-me à porta pela mão de uma figura do Presépio.
Quem me lembrara era justamente alguém, que me disse ser – na dramatização do Nascimento de Jesus – uma ovelhinha.
Perante tanto encanto e inocência senti que o Presépio por inteiro voltava a encher os meus dias tão cheios de lembranças e saudades.
E, tive consciência de que no mais fundo da minha alma me nascia um sorriso tão bom como se eu fosse terra e me nascesse uma flor.
É verdade que continuam os mesmos noticiários…
Guerras, guerras, guerras e mais guerras, flagelam a humanidade e não se lhes vislumbra o fim.
Problemas de secas e chuvas e águas de rios indevidamente represadas, tornam vizinhos em potenciais inimigos…
Injustiças, geram greves…
Ganâncias, geram falcratuas…
Falcatruas geram revoltas…
Revoltas, geram violência...

E, como o cão, que com a boca, morde a ponta da própria cauda, presa de si própria, roda a vida, e roda, e roda, roda…
Numa Europa onde os governantes, coroados de tantos louros que lhes ofuscam a visão, passeiam as suas ambições pessoais, na procura de sucessos de carreira, olimpicamente indiferentes a tudo que não seja o próprio êxito… quando já não se vislumbra, sequer a solução para os humaníssimos anseios de quantos, pelas suas mãos, dia a dia construindo o bem estar de todos, sustentam o sistema e calam o sonho…
Quando até nas aldeias mais remotas do nosso País – o Natal – vai sendo gradualmente transformado num arraial folclórico, esvaziado de sentido…
Quando as televisões oferecem ao domicílio – por atacado – a fúria de comprar, o luxo e a ostentação, que encobre a ternura sublime – da maior Festa de Amor do Mundo – que tentem reduzir à dimensão e valor de prendas…
Quando um quotidiano rotineiro e difícil, empobrecido de valores verdadeiros quase nos rouba o gosto de pensar e nos vai privando do encanto de viver…
Na luz deslumbrada de uns olhos de criança, ávidos de descobertas, surge a alegria de se anunciar – cordeirinho, ou pastor, ou rei, ou s. José, ou Nossa Senhora – não importa o quê!...
Importa apenas – e, daí, as estrelas nos seus olhos – fazer parte – entrar na representação.
Encaixar no todo.
Como pedra ou estrela completar o quadro.
Sem nos darmos conta a esperança renasce.
Sem nos darmos conta a esperança renasce.
Renasce com a força do Natal.
Lá fui.
Fomos – a família e eu também.
Agora, no rescaldo, não resisto ao gosto de contar.
Foi uma maravilha.
Ajeitamos os nossos “tamanhões” às cadeiras feitas à medida das crianças.
Assim começamos a descer do nosso poleiro de “adultos”, de “grandes”, para a dimensão sem medida da infância que nos lembra como é bom ser feliz com simplicidade.
Comecei a observar em redor.
Eram todos lindos.
Ás vezes, um qualquer pormenor prendia-me a atenção. Dei comigo a “recordar” agora vestida de saias e com laços uma figurinha loira que eu vira (ontem?) parecia-me que sim – mas vão 3 dezenas de anos – igual, mas vestindo de menino, golinha branca, calção azul e a cabeça assim, tal e qual cheínha de caracóis.
Procurei com o olhar resposta para a “confusão” e o Pai que eu reencontrara na filha – estava lá.
Na espontaneidade de outros, nos olhos, nos risos, na alegria – surpreendi-me a reencontrar, esta, aquela, a outra… que lá estava também.
Não admira.
Era a festa do futuro da nossa terra.
E, as Lauras, os Eduardos, os Ricardos, as Andreias, as Rutes, as Margaridas, as Anãs e os Pedros – nascidos das raízes desta cidade são parte do Natal do futuro deste País.
Era uma festa do futuro cantada pelo Presente.
Não era espectáculo pago.
Não exigia fatiotas arrebicadas.
Era “apenas” – o que era…
E, se é verdade que ninguém precisa equipar-se especialmente para ver o mar, o céu, o nascer do sol ou o pôr-do-sol, um rio a correr, uma árvore em flor ou derreada ao peso dos frutos, pássaros a voar – e, tudo o que mais que não é pago porque não tem preço…
Se para estas “pequeninas” grandes coisas, é apenas necessário sentir a vida de que fazemos parte…
Apetecia-me ter voz para fazer chegar aos “grandes” do mundo aquela modesta quadrinha de Natal que o Sr. Padre Ramiro incluiu no repertório do Coral da nossa cidade:
Eu hei-de ir ao Presépio
Assentar-me num cantinho
Para ver como Jesus
Nasceu lá – tão pobrezinho
Maria José Rijo
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Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.330 – 22-Dezembro – 1995












