Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Por decalque – “ Os meus votos”
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Nº 2.332 – de 5 de Janeiro de 1996 Conversas SoltasJornal Linhas de Elvas
Na madrugada silenciosa, o rádio baixinho, encostado ao meu ouvido, parecia segredar, apenas para mim, a música e palavras num programa que – sabia-o bem – muita gente, como eu, escutaria naquelas horas baças do fim da noite.
Embora goste de televisão e lhe reconheça os fartos méritos – continuo a apreciar a rádio.
Talvez porque – não impondo imagens – deixe a quem a escuta completamente liberta a capacidade de imaginar acrescentando o sonho.
Na minha opinião, o som, abre horizontes mais vastos.
A imagem aprisiona a nossa atenção de forma diferente. Obriga-nos a aceitar sem pudor e sem mistério o que a objectiva fixa para nós.
É muito importante que o faça, mas, não para todas as circunstâncias.
Jamais esquecerei a Sé da Guarda envolta
Os limites excessivamente explícitos – são limites explícitos – como é lógico.
Já em criança achava muito mais encanto na mancha misteriosa da grafia que, emocionada, gostava de decifrar, do que na história contada por “bonecos” que se abrangia com uma rápida olhadela.
Bastava-me uma bela ilustração na capa e mais uma outra sobre qualquer situação mais importante – o resto era comigo.
Veio esta conversa a propósito de um programa de rádio que, numa destas manhãzinhas, inesperadamente cativou por inteiro a minha atenção.
Num patamar entre o sono e a vigília identifiquei uma voz – que – por bem conhecida – despertou os meus sentidos.
Falava – como ele muito bem sabe – o senhor Padre Feytor Pinto.
Falava, com a serenidade de quem pensa alto, conduzindo-nos para uma reflexão sobre a dinâmica da relação humana.
Enumerava os valores verdadeiros que se escamoteiam aos falsos valores que aparentemente os substituem.
Falava do fácil, do ilusório, do que esvazia de sentido as nossas vidas e lhes rouba o encanto...
Falava da luta desenfreada pelo sucesso, que faz esquecer a humana solidariedade... Falava da ganância pelo dinheiro que ofusca a ternura da partilha... Falava da corrida despudorada pelo prazer que faz esquecer a virtude... Falava do mau uso do poder, que, tantas vezes, não deixa lembrar sequer o nobre significado de: serviço... Escutei tudo com a maior atenção. O dia ia lentamente vencendo com a luz clara o cinzento da escura madrugada. Amanhecia. E, o que fora insónia tornou-se uma feliz oportunidade de acordar de forma diferente. A oportunidade de ouvir, aprender e pensar. Isto passou-se há semanas. Hoje, neste primeiro número, deste “nosso Linhas” sentindo a necessidade de a todos fazer um presente de boas-festas e, nada tendo de meu para repartir – ousei este atrevimento; Com os desejos de um feliz 1996 deixo convosco as palavras certas que me acordaram plenamente, aí, numa manhã, cedinho, proferidas pelo senhor Padre Feytor Pinto Dinheiro – partilha Prazer – virtude Poder – Serviço Que a solidariedade – a partilha – a virtude – o serviço – nos conservem acordados e atentos para que, para os outros e para nós próprios, possa ser “Um Bom Ano” – o novo Ano. Maria José Rijo Sucesso – solidariedade

