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POEMA- Gosto do Alentejo

Sábado, 05.01.08

                                           Gosto menos dos campos felizes,

Exuberantes, sempre vestidos

De verdes macios…

Não recebo deles aquela inquietação

Que os campos mais tristes

Por vezes me dão!

Gosto mais do Alentejo,

(Desenhos de Maria José Rijo)

.....

Do meu!...

De Moura onde nasci,

A Beja, Santa Victória,

Onde nasceu o meu amor por ele!

Gosto do meu Alentejo – Tragédia!

Imenso, quente e nu!

Gosto da sua terra de barro

Da cor da carne viva!

Gosto de ouvir dizer

Chaparro, tarro, seara,

Almeara, restolho,

Palavras musicais

Fortes, gostosas,

Que o alentejano diz arrastando

 

Como se arrasta a saudade,

E a ansiedade da sua alma

De homem solitário,

Que tem pudor do riso

E orgulho no canto,

- Esse estranho pranto

Dos sonhos que tem sem se aperceber!...

Gosto do meu Alentejo

De Inverno frio, arrepiante,

Onde só um ventinho cante!

Gosto das suas tardes de Verão,

De calma sufocante,

Onde nem pássaros cantem

E só a cigarra cante!

Gosto da terra!

Da terra que se oferece

Ali, à luz do dia!

Dessa terra fecunda,

Como um ventre macio

Que por amor de Deus

 

Concebe o Pão – o nosso Pão,

Em toda a imensidão

Duma nudez sem pecado!

Gosto do meu Alentejo só,

Tragicamente mudo

Sob o olhar azul do céu!

Gosto de ver bailar

O silêncio mais a escuridão

Nas noites sem Luar!

E, de dia…

O que impõe o Alentejo,

O que nele me seduz,

É ver o silêncio

Mais a solidão,

A gerar o pão

Em bebedeiras de luz!...

 

 

Maria José Travelho Rijo

Primavera de 1955

 

@@@@

Livro Paisagem

Pag. 33-34-35

 DESENHOS DA AUTORA

 

Livro de Poemas - Paisagem

... E vim cantar (poemas)

Composição e impressão das oficinas

da "Coimbra Editora, Limitada"

Publicado em 1956

@@

Pode ler a critica deste livro

no Jornal Linhas de Elvas

nº 327 -- de 2- Novembro de 1957

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publicado por Maria José Rijo às 15:02

“Alentejo da minh’alma”

Sábado, 05.01.08

 Deteve-me a curiosidade, quando ouvi a mulher afirmar que era natural de Ourique e não mudei de canal.

Não sou parte interessada em programas como “ponto de encontro”. Apoio calorosamente o seu préstimo, porém, a forma como é apresentado o resultado final, confrange-me.

Há um pudor intrínseco de certas misérias, de certas alegrias e tristezas tanto do foro íntimo de cada um… que, aquela câmara, como um olho espião, espiolhando os sinais de emoção de tanta vítima das crueldades da vida só me doe e ofende.

Aliás, o apresentador muito comportadinho de gestos e palavras, permanece a abissais distâncias das “vítimas”, o que, ainda mais acentua o meu desencantamento.

Penso, às vezes, que se fora alguém como um Raul Solnado, com um humanismo quente à flor da pele, a orientar o programa seria diferente porque tudo se poderia passar entre iguais. Quero dizer: entre gente semelhante a quem as mesmas coisas podem acontecer.

Assim, será sempre um “Senhor” muito bem arrumadinho e comedido a falar de desgraças alheias – sem perigo de contágio.

E, quer queiramos, quer não – aquelas desgraças são nossas.

São a nossa desgraça.

São o fruto da incapacidade que temos de criar um mundo melhor, onde as crianças não se soltem dos braços dos pais e dos irmãos para fugir à fome e à miséria que as aperta mais ou tão fortemente como os laços de sangue e amor. Onde as guerras não devastem o espaço que cabe à alegria de viver etc. etc.etc.

Mas… adiante.

Contava eu que a mulher, toda desempoeirada, e ainda nova, se disse natural de “Ourique”.

Eu, que cresci, estudei e casai lá por esses lados de Beja, pensei interessada: aquilo é gente minha – quero ver.

E, vi.

Tão frontal, tão franca e aberta como um trigal a perder de vista.

Repisando a “paxão” que sentia por nunca mais ter visto um parente da sua idade com quem brincara e crescera.

E, foi essa palavra “paixão” que me ocorreu escrever estas notas.

É que o entrevistador – ao que me pareceu – não captou que paixão, lá na nossa linguagem, também significa desgosto – profunda mágoa e insistiu em repeti-la com um toque de ambiguidade de quem jamais terá escutado o desabafo de qualquer mãe dizendo:

“Trago uma paixão cá dentro des’qu’a nha mocinha se casou! – xi! – qu’é cá um vazio de morte que já nem sê tar em casa”!

Enfim! – Terminada a entrevista fechei a televisão e quedei-me a recordar os grupos de homens que, noite dentro, saindo das tabernas onde confraternizavam, recolhiam a casa de braço dado, em passo lento, cadenciado, cantando.

Por vezes paravam, mesmo frente à nossa porta e janelas e eu ouvi e fixava.

Vila Nova de Ferreira

tem uma fonte à entrada

para não morrer à sede

bebem água enxovalhada

II Encontro de Música Tradicional de Mozelos - Grupo Coral de Ourique 

bebem água enxovalhada

para não morrer à sede

não há terra que eu mais goste

que é Ourique e Castro Verde

 

Que é Ourique e Castro Verde

Cabeça Gorda e Salvador

para não morrer à sede

bebem água enxovalhada

 

Eram os mesmos – o mesmo povo – que em cortejo acompanhavam os noivos a casa findo o banquete que encerrava a cerimónia e, de chapéu na mão entoavam comovidos.

 

Oh Senhor noivo eu lhe peço

que não trate a noiva mal

Ela sabe o que deixou

Não sabe o que vai buscar

 

Os noivos agradeciam. Entravam em casa fechavam a porta e o grupo voltava a pôr o chapéu na cabeça e afastava-se enchendo as ruas com a musicalidade das suas vozes.

 

Mas que linda vai a noiva

no seu dia de noivado

também eu queria ser – também eu queria

também queria ser casado

 

Ser casado e ser feliz

deve ser um lindo estado

também eu queria ser – também eu queria

também queria ser casado

@

Ai “Alentejo da minha alma!” – que “paxão” por ti, e que “paxão” por te ver arrancar tão sem dó as generosas e fundas raízes que brotam do teu coração como brota o pão da tua terra imensa e fértil.

 

                            Maria José Rijo

 

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.386 – 24 /Janeiro/1997

Conversas Soltas

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:34





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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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