Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
POEMA- Gosto do Alentejo
Gosto menos dos campos felizes,
Exuberantes, sempre vestidos
De verdes macios…
Não recebo deles aquela inquietação
Que os campos mais tristes
Por vezes me dão!
Gosto mais do Alentejo,

(Desenhos de Maria José Rijo)
.....
Do meu!...
De Moura onde nasci,
A Beja, Santa Victória,
Onde nasceu o meu amor por ele!
Gosto do meu Alentejo – Tragédia!
Imenso, quente e nu!
Gosto da sua terra de barro
Da cor da carne viva!
Gosto de ouvir dizer
Chaparro, tarro, seara,
Almeara, restolho,
Palavras musicais
Fortes, gostosas,
Que o alentejano diz arrastando
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Como se arrasta a saudade,
E a ansiedade da sua alma
De homem solitário,
Que tem pudor do riso
E orgulho no canto,
- Esse estranho pranto
Dos sonhos que tem sem se aperceber!...
Gosto do meu Alentejo
De Inverno frio, arrepiante,
Onde só um ventinho cante!
Gosto das suas tardes de Verão,
De calma sufocante,
Onde nem pássaros cantem
E só a cigarra cante!
Gosto da terra!
Da terra que se oferece
Ali, à luz do dia!
Dessa terra fecunda,
Como um ventre macio
Que por amor de Deus
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Concebe o Pão – o nosso Pão,
Em toda a imensidão
Duma nudez sem pecado!
Gosto do meu Alentejo só,
Tragicamente mudo
Sob o olhar azul do céu!
Gosto de ver bailar
O silêncio mais a escuridão
Nas noites sem Luar!
E, de dia…
O que impõe o Alentejo,
O que nele me seduz,
É ver o silêncio
Mais a solidão,
A gerar o pão
Em bebedeiras de luz!...
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Maria José Travelho Rijo
Primavera de 1955
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Livro Paisagem
Pag. 33-34-35
DESENHOS DA AUTORA


Livro de Poemas - Paisagem
... E vim cantar (poemas)
Composição e impressão das oficinas
da "Coimbra Editora, Limitada"
Publicado em 1956
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Pode ler a critica deste livro
no Jornal Linhas de Elvas
nº 327 -- de 2- Novembro de 1957
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“Alentejo da minh’alma”
Deteve-me a curiosidade, quando ouvi a mulher afirmar que era natural de Ourique e não mudei de canal.

Não sou parte interessada em programas como “ponto de encontro”. Apoio calorosamente o seu préstimo, porém, a forma como é apresentado o resultado final, confrange-me.
Há um pudor intrínseco de certas misérias, de certas alegrias e tristezas tanto do foro íntimo de cada um… que, aquela câmara, como um olho espião, espiolhando os sinais de emoção de tanta vítima das crueldades da vida só me doe e ofende.
Aliás, o apresentador muito comportadinho de gestos e palavras, permanece a abissais distâncias das “vítimas”, o que, ainda mais acentua o meu desencantamento.
Penso, às vezes, que se fora alguém como um Raul Solnado, com um humanismo quente à flor da pele, a orientar o programa seria diferente porque tudo se poderia passar entre iguais. Quero dizer: entre gente semelhante a quem as mesmas coisas podem acontecer.
Assim, será sempre um “Senhor” muito bem arrumadinho e comedido a falar de desgraças alheias – sem perigo de contágio.
E, quer queiramos, quer não – aquelas desgraças são nossas.
São a nossa desgraça.
São o fruto da incapacidade que temos de criar um mundo melhor, onde as crianças não se soltem dos braços dos pais e dos irmãos para fugir à fome e à miséria que as aperta mais ou tão fortemente como os laços de sangue e amor. Onde as guerras não devastem o espaço que cabe à alegria de viver etc. etc.etc.
Mas… adiante.
Contava eu que a mulher, toda desempoeirada, e ainda nova, se disse natural de “Ourique”.

Eu, que cresci, estudei e casai lá por esses lados de Beja, pensei interessada: aquilo é gente minha – quero ver.
E, vi.
Tão frontal, tão franca e aberta como um trigal a perder de vista.
Repisando a “paxão” que sentia por nunca mais ter visto um parente da sua idade com quem brincara e crescera.

E, foi essa palavra “paixão” que me ocorreu escrever estas notas.
É que o entrevistador – ao que me pareceu – não captou que paixão, lá na nossa linguagem, também significa desgosto – profunda mágoa e insistiu em repeti-la com um toque de ambiguidade de quem jamais terá escutado o desabafo de qualquer mãe dizendo:
“Trago uma paixão cá dentro des’qu’a nha mocinha se casou! – xi! – qu’é cá um vazio de morte que já nem sê tar em casa”!
Enfim! – Terminada a entrevista fechei a televisão e quedei-me a recordar os grupos de homens que, noite dentro, saindo das tabernas onde confraternizavam, recolhiam a casa de braço dado, em passo lento, cadenciado, cantando.
Por vezes paravam, mesmo frente à nossa porta e janelas e eu ouvi e fixava.
Vila Nova de Ferreira
tem uma fonte à entrada
para não morrer à sede
bebem água enxovalhada
bebem água enxovalhada
para não morrer à sede
não há terra que eu mais goste
que é Ourique e Castro Verde
Que é Ourique e Castro Verde
Cabeça Gorda e Salvador
para não morrer à sede
bebem água enxovalhada
Eram os mesmos – o mesmo povo – que em cortejo acompanhavam os noivos a casa findo o banquete que encerrava a cerimónia e, de chapéu na mão entoavam comovidos.
Oh Senhor noivo eu lhe peço
que não trate a noiva mal
Ela sabe o que deixou
Não sabe o que vai buscar
Os noivos agradeciam. Entravam em casa fechavam a porta e o grupo voltava a pôr o chapéu na cabeça e afastava-se enchendo as ruas com a musicalidade das suas vozes.
Mas que linda vai a noiva
no seu dia de noivado
também eu queria ser – também eu queria
também queria ser casado
Ser casado e ser feliz
deve ser um lindo estado
também eu queria ser – também eu queria
também queria ser casado
Ai “Alentejo da minha alma!” – que “paxão” por ti, e que “paxão” por te ver arrancar tão sem dó as generosas e fundas raízes que brotam do teu coração como brota o pão da tua terra imensa e fértil.
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.386 – 24 /Janeiro/1997
Conversas Soltas

