Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
A Carta
Por muito engraçado me passaram para as mãos um documento significativo de uma pobreza de espírito flagrante que pretende ser uma carta dirigida por uma mulher alentejana, a um filho seu, algures, na Bósnia.
Segue a transcrição:
“Mê crido filho
Escrevo-te algumas linhas p´ra saberis questou viva. Estou-te a escrever devagari pois ê sei que nã sabes ler depressa
Nã vais reconhecer a nossa casa quando voltares, pois nós mudámo-nos.
Temos uma maquina de lavar rõpa mas nã trabalha muito bêin; a semana passada
pus lá 14 camisas, puxe a correti e nunca mais as vi!
Acerca do tê pai, ele arranjou um emprego, tem 1500 homens debaixo dele pois está cortando relva no cemitério.
A magana da tua irmã Maria teve bebei esta semana, mas sabes, é nã consegui saberi sé menino ó menina, portanto nã sei se és tio ou tia.
O té tio Patricio afogou-se a semana passada num depósito de vinho lá na adega cuprativa. Alguns compadris tentaram salva-lo, mas sabis, ele lutou bravamente contra elis, porra! O corpo foi cremado mas levou 3 dias para apagar o incendio.
Na Quinta feira fui ao médico e o té pai foi comigo. O médico pos-me um tubona boca e disse-me p´ra nã falari durante 10 minutos. Atão nã sabis que o té pai ofereceu-si p´ra comprar o tubo ao médico?
Esta semana só chuveu duas vezes, na primera vez chuveu durante 3dias, na 2ª durante 4.
Na Segunda feira teve tanto vento, que uma das galinhas pos o mesmo ovo 4 vezes!
Recebemos uma carta do cangalhêro que dizia que se o ultimo pagamento do enterro da tua avó nã for fêto no prazo de 7 dias, devolvem-na.
Olha mê filho........ cuida-ti !
Nã te esqueças de beber o lêti todas as nôtes, antes de enterrares os cornos na frônha.
Um bêjo
Joaquina Chaparra.
P.S. Era p´ra te mandari 5 contos, mas já tinha fechado o envelopi, nã tos mandei. Fica p´ra próxima, porra! “
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Pasmo com a falta de imaginação que permite a meia dúzia de Xicos espertos rir sem se darem conta que da sua própria ignorância, (e de mais alguma coisa...) se estão a rir.
Penso que é preciso desconhecer por completo o Alentejo e as suas gentes para enfiar um chorrilho de estúpidas asneiras e pretender que do léxico alentejano se trata.
Explico: o Alentejano (e escrevo a palavra com maiúscula) não diz – pois nós mudamo-nos – diria. - A gente mudou-se...etc. etc, etc,...
Não é, porém, por aí que quero ir...
É que, penso, que já era tempo, de nos preocuparmos um pouquinho mais que fosse, em compreender os outros e tentar aprender a rir do que é realmente engraçado e, não de ridículas anedotas saídas da tacanhez de alguns pobres de espírito que não sendo capazes de apreender o pitoresco dum dialecto ou duma situação se atrevem, (ultrapassando os limites do respeito que devem aos sentimentos do próximo), a meter o nariz onde não são chamados.
Nem todos podem ser, ou ter, o talento – de um Raúl Solnado - para fazer rir falando duma guerra, com o pudor de não ferir o coração de ninguém.
Fique-se cada qual nos seus limites. E pense que para se rir dum assunto como este; quem o escolheu, teria que inventar a carta como escrita pela sua própria mãe, e dirigida para si próprio! Porque, nesse caso, era opção, só sua, rir ou não rir...
E, deixem em paz as Mães Alentejanas, tão iguais no Amor e cuidados a todas as Mães e que – ainda que analfabetas, por vezes – não deixam de dar a Vida dos seus filhos para todas as Bósnias deste mundo, enquanto muitos “destes engraçados heróis” pagam para fugir aos seus deveres.
Maria José Rijo
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Revista – Norte Alentejo
Nº 6 – Novembro/Dezembro - 2000
Crónica
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Postal nº 2 - Colecção de Gastronomia - Ameixas

Entrelaçam-se a história e a lenda que contam, como certo, que o preparo das frutas doces de Elvas e as artísticas rendas de papel, nasceram na Santa Paz desses conventos, onde freirinhas, entre trabalho, penitência e oração, viviam procurando na Terra os caminhos para as Celestes Bem-aventuranças.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Ameixas


