Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
“PRANTO por uma menina de outros tempos”
Voltou como desejava o poeta: para “dormir o sono eterno abrindo junto ao berço a sepultura”.
Retornou quem com outras meninas da sua geração fez a Primavera viva da nossa cidade, no seu tempo.
Talvez ela até gostasse assim!
-- Morrer antes de envelhecer de corpo e espírito.
-- Morrer como gostava de ser, e foi até ao fim: esbelta, bonita, cativante.
-- Talvez… para que dela fique, como de sua Mãe já ficara, um rasto de saudade inconformada, um magoado recordar que a faz ser evocada, por quantos a conheceram, com o jeito sonhador de quem conta uma lenda: …
-- Era tão bonita!...
E… também canta outro poeta: “por morrer uma andorinha não acaba a Primavera…”
Mas…
Quando na vida se perde
Um amigo ou um parente,
P’ra que serve a Primavera?
- Se o frio está dentro da gente.
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
A
Nº 1724 – 2 Março de 1984
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A Cada um a sua Dignidade
Tenho a certeza de que ninguém pensou, desejou, ou quis que os membros do governo viajassem levando a sopa quentinha na garrafa térmica e os torresmos, as azeitonas e o resto do conduto no taleigo de retalhos, como fez a “velha fofa” lá da minha terra quando foi a Fátima.
Até porque eles já correram tanto mundo que, se calhar, já nem sonham, e não tiveram 70 anos para amadurecer a aventura de sair da sua vila, como a ela aconteceu.
Porém, quando enviuvou, decidiu-se: vendeu os “bicos”, comprou um bilhete de excursão e foi ver Nossa Senhora a quem encomendou a alma do marido!
Não! Isso não cabe na cabeça de ninguém – e se 10.000$00 por dia for pouco para quem tem obrigações, levem à nossa conta, a conta certa. Mas…
-- Deixe-se ao minhoto o caldo verde, a broa com cebola crua, o seu naco de presunto, a sua pinga gostosa…
-- Não se negue a todo o norte o “serrabulho”, o cabrito assado, pingando tempero e perfume sobre o arroz que abre no forno, a falar de festas de família e romarias… o verde verdinho… as alheiras… os rojões…
-- Deixem-se às Beiras, morcelas de ossos, de sangue, as farinheiras, o pão de centeio, que “chama” o queijo da Serra feito pelas mãos frias das mulheres já velhas, no segredo das cozinhas escuras e fumacentas…
Deixe-se-lhes a batata da terra – assada, a murro, ou cozida e suada com o pano dobrado na boca da panela – para comer com molhinho de azeite, alhos socados, vinagre e pimentão flor…
-- Deixe-se pelos Alentejanos a açorda, o gaspacho, as migas, a febra da matança grelhada na brasa do cepo de azinho que “cura a parreira” e aquece… o ensopado das bodas… um trago branco de Borba ou tinto da Vidigueira…
-- Deixe-se ao Algarvio o “o peixe frite”, as papas de xarém, o “charrinho limade”, uma golada de Lagoa ou de aguardente de “figue” no petisco de polvo seco batido e assado na brasa…
-- Deixe-se ao Açoriano a “massa sovada”, a alcatra, o vinho de cheiro, o feijão com funcho, a manteiga, o leite, o queijo…
-- Deixe-se ao Madeirense o inhame, a espetada e milho cozido, o bolo de caco…
-- E nos grandes centros onde desaguam os sonhos vindos de todos os cantos, o pão de cada dia a gosto das origens, como fruto do trabalho de cada qual…
Pois que:
A cada um seu direito
A cada terra seu uso
A cada boca um quinhão
A cada roca seu fuso
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
A
Nº 1.725 – 9 – Março – 1984

