Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Postal nº 6 - Colecção de Gastronomia - Ameixas

Só as ameixas, até agora, têm continuado a ser preparadas segundo o velho ritual:
Escolhem-se frutos são e rijos antes de atingirem a perfeita maturação.
Espera-os ao lume, em grandes tachos amarelos, a água ainda fria.
Logo que levante fervura, as ameixas começam a flutuar.
Verifica-se, apertando entre os dedos se o caroço está solto.
Retiram-se imediatamente da breve cozedura com uma espumadeira e mergulham-se na calda de açúcar (quase sem ponto – peso por peso), que também já fria as aguarda nos alguidares de barro.
Descansam assim 24 horas.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Ameixas

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Falas tristes de Outono para a Carmita
Estes fins de Verão...
Estes primeiros indícios de Outono...
Estes verdes das folhagens resistindo já timidamente à efusão dos amarelos que a estação impõe...
Estes ares lavados pelas chuvas violentas e breves...
Esta humidade latente que da terra emana...
Esta luz doce, clara e limpa. Linda e triste como um adeus sem retorno...
Tudo somado chama a velha lembrança do recomeço das aulas. O reencontro aconchegante com roupas mais grossinhas e confortáveis...
Evoca as tardinhas mansas que as castanhas assadas perfumavam estalando nos fogareiros crepitantes das vendedeiras alapardadas em barraquinhas pelas esquinas das ruas onde o vai-vem da estudantada era mais do que certo...
Denunciava-as o cheiro e um fumozinho azul, ondeando sob a batuta do abanico que lá ía espevitando o lume.
O cartucho de papel pardo, o passar de mão em mão com gritinhos de prazer – que – do assador, quentinhas e boas, saiam escaldando como brasas.
Estes fins de Verão.
Estes fins de Verão são como fins de sonhos.
Despojam-se as árvores. Recolhe-se toda a sua força e vitalidade aos labores misteriosos das raízes.
Começa a apetecer o lume, a sopa quente, o canto da casa, o serão tranquilo, o nosso canto.
Mesmo sem o desejar, qualquer de nós evoca, pensa, sofre, sonha.
Como as árvores – interioriza – e sente-se perturbado com o vigor das recordações que teimosamente permanecem vivas e nos alimentam como o ar que se respira.
Como a seiva das árvores as vai alimentando em secretos silêncios.
Toda a madrugada a chuva bateu nas vidraças e foi molhando o asfalto até espelhar o casario e as luzes da rua.
Perturba os sonos leves e faz música de fundo para a insónia de quem recorda e resiste a sucumbir à saudade e ao sofrimento que sempre se guarda no segredo da alma.
Mas, a chuva cessa. A manhã nasce. Como que um espreguiçar de vontade nos sacode, arrepia e acorda em cada dia como as árvores hão-de acordar
E, como se nos segredasse ao ouvido uma voz que a memória fixou para sempre apreende-se a mensagem que herdamos como despedida: Não esqueças.
- A vida continua!
- Vai em frente!
Afinal, assim terá que ser até que Deus queira.
Os foguetes enchem os ares. Fazem nuvens pequeninas que o vento afasta.
Nuvenzinhas de brincar.
As bandas ao sol tocam o hino que comove a cidade que o sabe de cor e o repete e reza.
A procissão passa.
São filas imensas. Cada um vale por um passado, marca o seu presente e carrega anseios de futuro, de esperança.
A noite destaca as luzes do arraial, que os Pendões já recolheram e a festa soberana marca o compasso da vida da Cidade – da tua Cidade – a nossa Cidade.
“Guarda a tua dor e faze dela um poema” – disse Goethe.
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.369 – 27 / Set./ 1996

