Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Poema - Paisagem
CHOVE!
O céu está cinzento!...
E as velhas casas caiadas,
Da paisagem que eu conheço,
Estão lavadas, repassadas,
Da água que já escorre
Das goteiras dos telhados!
-- Eu não espreito!
-- Ouço somente!

(Desenhos de Maria José Rijo)
...
E vou revendo, na mente,
Velhas imagens de sempre,
Quando a chuva que faz música
Nas coisas que o mundo tem,
Toca as baladas, que eu sei
Já de cor e salteadas,
Nas coisas que me estão perto,
Fazendo: ping! ping! ping!
-- Procuro!
-- E vou encontrando
As imagens aprendidas
Nas paisagens conhecidas
Onde caiu a chuva e eu vi…
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……………………………
-- Uma vez…
(Como eu me lembro!)
Foi depois da estiagem
Que ela chegou, na friagem
Das suas gotas redondas,
Anafadas, espaçadas,
(Fazendo círculos no pó
Em que a terra se tornara)
Uma aqui, outra acolá,
Como lágrimas contidas,
Muito tempo reprimidas
E choradas quase a medo,
Por um céu triste de chumbo
Numa tarde de Setembro!
Ah!... Então vibrei contente
Ouvindo como estalavam
Em sonoras gargalhadas
As folhas, já ressequidas,
Quando a chuva lhes batia,
Essa chuva que caía
E sem cessar, engrossava
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Como convulsões dum pranto,
E que a paisagem bebia,
Suspirando seus perfumes
Quentes, quase sufocantes,
Como a arfar de alegria…
Vendo que tudo aceitava
A sua gotinha de água
Eu, que de sede abrazava,
Também quis ser da paisagem!
-- E p’ra ali à chuva
Como terra a estremecer
Num frémito de prazer,
Como árvore sequiosa
Aceitando a gota de água,
Por que vivia, gulosa…
Fui um pouco, um quase nada,
Nessa paisagem de sempre
Onde a chuva cairá
E que paisagem será
Quando eu não for da paisagem!
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E a chuva caiu… Caiu…
E sempre chuva caía…
E a terra já não bebia…
E quando o dia nasceu
No mar que a paisagem era
Quem tinha sede era eu!
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Agora, chove outra vez!...
Eu sei que o céu está cinzento…
Eu sei de cor a paisagem
Onde a água já escorre,
Onde tudo já bebeu!...
Já foi tanto o que choveu!...
Ping! Ping! Ping! Ping!...
Só a sede, em que eu me afogo,
Nem afogada morreu!...
Maria José Travelho Rijo
Inverno de 1955
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Poema --- PAISAGEM
CHOVE
Desenhos de Maria José Rijo
Poema nº 2
Pág- 13-14-15-16
Publicado em 1956
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Postal nº 7 - Colecção de Gastronomia - Ameixas

Voltam ao suplício do fogo no outro dia de molho na calda
Doce, que a água de as cozer não se utiliza, deita-se fora.
Fervem alguns minutos, após o que se retiram de novo para o
alguidar onde aguardam que a calda tome um pouco mais de
ponto, para depois as cobrir e nela ficarem mergulhadas.

Maria José Rijo
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Colecção de Gastronomia - Ameixas

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Não resisto!
Não resisto à tentação de me imaginar treinadora de futebol!
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Não, logicamente, treinadora mixoruca, dessas que não conseguiriam jamais ganhar trinta e cinco mil contos por mês!...
Falo em contos porque o euro é a moeda actual que escasseia nos bolsos do comum dos mortais e, que, por conseguinte, não tem o poder de alimentar a imaginação como a palavra “conto.”
Por acaso, pensei, agorinha mesmo que nós os portugueses temos uma capacidade imaginativa fora do comum.
Senão vejamos: - onde teríamos nós ido desencantar a designação de conto para a defunta nota de mil escudos?
Se a moeda padrão era o escudo, e as notas, ao longo dos tempos que a nossa tradicional moeda circulou, eram referenciadas em escudos; vinte, cinquenta, cem, quinhentos, mil, porque cargas de água, as milenas, (como aos trabalhadores do campo, também lhes ouvi chamar), ganharam a referência de contos?
Juro que não sei, nem jamais ouvi quem quer que fosse explicar o porquê dessa designação.
Pessoalmente, acredito que por serem as mais poderosas antes do aparecimento das de cinco mil e dez mil - e porque o seu “ reinado” de mais poderosas, foi longo - teriam entrado no reino da fantasia, como uma miragem ou um sonho: - um conto...
Também, coitadas, quando partiram para o reino das lembranças, como recordação do povo que somos, já iam tão desvalorizadas, tão sem importância, tão sem poder de compra que me conforta pensar que elas próprias ficaram gratas por sair da circulação antes de serem apodadas de “conto do vigário” por já não prestarem para quase nada...
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Penso isto porque sempre traziam gravadas em si, figuras de relevo da nossa história de aventura pelos mares, de reis e de rainhas, da nossa veia literária e poética, da política, da ciência, etc...etc...
E, ninguém pensa em gente desta, célebre por seus feitos, a fazer a triste figura de não ser capaz de pagar o que deseja e precisa comprar...
Isso era desacreditar injuriosamente o seu prestígio...
Mas adiante, que hoje, o que me surpreende e me leva ao mais desvairado espanto, também tem um símbolo redondo como o mundo, mas – é uma bola!
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Quem diria que daí, desse mundo, me viria a ponta da meada que nos abre às vezes inesperadamente as portas da fantasia.
Mas, foi.
Saber que uma soma vultosa como um prémio de totoloto pode ser a verba acordada para pagar – mensalmente - um treinador de futebol, provoca em mim, um espanto de tal ordem que temo faça explodir a minha capacidade de encaixe de suportar emoções violentas.
Pensando bem, depois de reler o que escrevi, não é razoável que eu tema assim pelo receio de ver o meu queixo caído!
Não, não é justo!
Se o meu queixo ainda não desencaixou, tendo eu conhecimento de tudo o que por aí vai em todos os sentidos... e se também não me matou o espanto de saber quanto é um salário mínimo, ou, do número de pessoas que não têm salário algum, porque me havia de acontecer agora algum mal com os trinta e cinco mil contos por mês que vai receber um treinador de futebol!
Somos indiscutivelmente, gente forte!
Gente que aguenta muito!
Gente que aguenta tudo...
Ou, então, rezemos como me ensinou um saudoso Amigo: - Livrai-nos Senhor daquilo que nós somos capazes de aguentar!...
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Revista Norte Alentejo-
Crónica
Nº 23 -- Nov./ Dez. - 2002



