Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
O TEMPORA! O MORES!
Assim clamava Cícero contra a perversidade dos homens do seu tempo!
Olho as árvores plantadas outro dia e já morrendo quebradas, e apetece-me clamar como Cícero:![]()
Oh! Tempos! Oh! Costumes!
Mas, tenho fé. Tenho fé que hão-de vir tempos que se hão-de prolongar até ao fim dos tempos em que deixará de haver motivos para tal exclamação. Tenho fé que hão-de vir tempos que cada ser humano ao rezar o Padre-nosso há-de pronunciar cada palavra como se a estivesse a descobrir.
Há-de formular cada palavra como se estivesse inventado uma maneira sua de contar o que sente, há-de tomar-lhe o gosto como se a provasse. Há-de sentir na sua alma o seu significado como se a estivesse a dar à luz, e sentirá na pele o arrepio maravilhado da surpresa.
Tenho fé que ao dizer: o pão-nosso de cada dia nos dai hoje…
Ao pronunciar o que às vezes se diz em repetições sem sentido, há-de saber que espécie de pão, é esse pão que pede.
Há-de saber que se Deus criou ao homem corpo e alma – esse pão – é o alimento do todo.

Há-de saber que o alimento da alma, do deleite de viver faz parte o gosto de usufruir com todos os sentidos tudo quanto Deus criou.
Então os homens hão-de saber o Amor que devem ao rio, ao mar, ao respeito por todas as manifestações de vida.
Tenho fé que então não haverá mais flores pisadas, árvores arrancadas, animais maltratados por puro jogo, ignorante malvadez.
E será como filhos de Deus – à Sua imagem criadas – conscientes e agradecidos que havemos de viver a esperança de merecer o direito a esse grito de amor: Pai-nosso!
Seja cada dia um fruto
Cada fruto uma semente
Cada semente o produto
Dos passos dados em frente.
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.729 – 6 de Abril de 1984

