Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
A sério e a brincar...
Para aprender o valor da pontuação e para desenferrujar a língua, agilizando a fala era costume convidar as crianças a escreverem e dizerem em voz alta, frases e histórias engraçadas, que desafiassem a sua atenção e perspicácia.
Uma que agora me ocorreu fazia uma brincadeira com o advérbio interrogativo – como - e alguns tempos do verbo comer.
Era assim o diálogo:
- Como come?
- Como, como?
-Como, como como!
- Come, como come?
- Como.
- Não é que agora me ocorreu que se perguntássemos a alguém: - como és? E nos respondessem. – Como sou? – Sou, como sou!
E à admiração da nossa resposta de: - és, como és? – Escutássemos um singelo – sou! – Ficaríamos a saber tanto como no princípio da brincadeira; isto é – nada.
Na verdade o que sabemos nós uns dos outros? O que sabemos, mesmo depois de convivermos anos e anos a fio? – Nada.
Quantas vezes em reportagens de televisão nos mostram vizinhos de vidas inteiras confessando o espanto de descobrir que o homem cortês e simpático que afável cumprimentava toda a gente, matara a mulher e a enterrara na cave. Ou, ao contrário, que o feito fora da autoria da pacata senhora que saía para a missa todos os dias com passinho miúdo, vestes largas e os olhos pudicamente varejando o chão?
Ou, que aquele personagem, bicho de mato, que parecia quase rosnar um simples – bom dia! - Quando se cruzava com alguém do mesmo prédio – e, todos detestavam por isso - gastava os seus dias ao serviço de leprosos e toda a espécie de desgraçados?
Na realidade como poderíamos saber tanto dos outros se de nós próprios às vezes tão pouco conhecemos!
Mais curioso ainda é quando descobrimos quantas certezas têm sobre nós as pessoas com quem contactamos com mais intimidade. Pessoas que trazemos tão aconchegadas no nosso coração que as tratamos como parte nossa, com o displicente à-vontade que usamos para nós próprios, e que portanto, seriamos incapazes, jamais, de ferir, e que nos surpreendem com acusações impensáveis!
Também, por via de regra, esses “sabem” como nós somos, e como deveríamos ser, juram as nossas intenções, os nossos propósitos, deixando-nos perplexos por verificar como são incapazes de perceber o afecto que se lhes dispensa.
E, deles próprios, o que saberão se de nós tanto sabem? Será que é mais fácil ver o argueiro nos olhos dos outros do que nos próprios?
E, quando somos nós a acusar? Que bitola usamos? Será a do amor-próprio ferido, da vaidade beliscada – que gera a ira – ou será a do coração magoado que predispõe ao entendimento?
Será que somos todos tão seguros das nossas inexcedíveis virtudes, que nem nos passa pela cabeça que pelo menos nalgum pormenor possamos estar equivocados e que possa ter sobrado à misericórdia Divina quaisquer migalhas para alindar a alma dos outros mortais que avaliamos com impiedade?
Afinal, como somos? Ser como somos! – Não é resposta. Certo seria sermos mais duros para nós do que para os outros, talvez... Ou, talvez não! Que em matéria de certezas só tenho uma: - de mim é que darei contas. Portanto prefiro que me agravem, a agravar, eu, seja quem for.
Só reconheço – como alguém já afirmou – duas forças incontroláveis: o amor e a morte. Todo o mais se pode alterar por força de vontade.
Peço a Deus que nunca me retire o Seu espírito de paz. - Como disse o santo padre Pio – Ele faz-nos sentir uma dor tranquila, humilde e confiante, que depende e nos advém da Sua misericórdia.
Poderemos assim dormir descansados, e guardar na alma um sorriso para responder a quem faça conjecturas amargas a nosso respeito:
- Sou, como sou!
- Somos como somos, só que às vezes muito distantes do que julgamos ser.
Maria José Rijo
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Conversas Soltas
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.692 – 10 /Janeiro/2003

