Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
“Reminiscências”---- Pontos de vista
Considero que há uma certa ligeireza, uma certa insensatez, na forma como por vezes, se definem escolhas e comportamentos.
O que está na moda é bom e belo, o que não estiver, tenha a qualidade que tiver nem merece apreciação.
Objectos vários, em bom estado, vão parar ao lixo porque são de cor verde e saiu em qualquer “maria” ou “anúncio” de rádio ou jornal que a moda é o amarelo ou o azul ou a cor de burro quando foge...
Ora, cá no meu conceito, como aprendi com o
Ti Carrapiço que era o maioral das vacas lá naquela aldeia igual a todas as aldeias do Alentejo, que, como ilhas, perdidas no mar das searas estavam longe das rotas das modas –“ bom é sempre bom, menina! – acredite”
“E, mau é sempre mau, nunca se deixe enganar...”
E, destas e de outras tais reminiscências se sustenta de verdade o meu coração.
Ele era um tanto filósofo.
De Inverno vestia pelico e safões sobre a jaqueta e as calças de serrobeco. No Verão as calças eram de cotim, mas não dispensava o pelico sobre a camisa de riscado.
Curtia os dias sozinho com os seus cães, acompanhando a manada pelos pastos que conhecia como a palma das próprias mãos.
Encostava-se ao cajado, olhava os longes, seguia o voo das abetardas. Sabia à distância onde havia gado morto “por via da chusma de corvos que se ajuntam! “
Conhecia os pássaros pelo canto, sabia-lhes os hábitos, identificava cada ninho, convivia com toda a natureza envolvente, pensava nas “coisas desta vida” e reflectia.
Para o seu tempo e para o seu mister de pastor, era “letrado”. Desenhava o nome com alguns suspiros no peito a acompanhar o sacrifício dos lentos movimentos da mão calejada e fartos suores a escorrerem-lhe pelo rosto que ia limpando com um lenço que fechava enrodilhado na outra mão.
Mas, lia razoavelmente as letras gordas dos jornais e os rótulos das garrafas na taberna que, mais para ler não tinha nas redondezas, a não ser
o “Borda d’Água” que se consultava o ano inteiro com a atenção que mereceria um Breviário.
Aprendera a juntar as letras só, assim se gabava, e era cheio de sabedoria.
“ Há coisas que nunca mudam!
Daqui p´ra Lisboa são as léguas que são. S´a menina for de trem, ou no camboio leva menos tempo ca mim, s’ê for a péi. Mas as léguas são nas mesmas, a questão são-nos stramportes...
Nã emporta vestir o mal de bonito! – é sempre mal, mesmo desfarçado!
Olhe, ê cá dou-me bem com ricos e pobres.
Só nã m’entendo com a corja dos polintras que querem pracer o que nã são.”
E, assim, com lucidez e convicção, defendia os seus pontos de vista bem amadurecidos no silêncio dos seus dias.
Vou andando, dizia às vezes no meio duma conversa, vou que o tempo vai piorar, o vento mudou, olhe os bezerros a farejar a chuva!
E lá ia, prevendo o tempo por sinais que pressentia como se para além dos sentidos dispusesse de códigos secretos que lhe desvendassem os ocultos mistérios da vida.
Muitas vezes me quedava a vê-lo afastar-se, no seu passo vagaroso que a idade também já condicionava e sentia que dele irradiava uma paz, uma tranquilidade como se fosse uma árvore frondosa que fizesse parte da harmonia da paisagem.
Era autêntico e verdadeiro como a terra que pisava e o céu que lhe servia de dossel.
Não o enganavam as modas, que entre o ser e o parecer, havia a raça dos pelintras que ele, por instinto, esconjurava.
Maria José Rijo
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Jornal Linhas de Elvas
28-Abril-05 – Nº 2.811
Conversas Soltas

