Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
“Promessa é dívida – daqui não há que fugir”
Frente à profusão de papelada que me vou esforçando por compulsar…
Frente a tantas pequenas empreitadas que se adiam, nos pesam, por essa razão, na consciência e nos acrescem a desconfortável sensação de que o tempo nos falta para o que sonhamos empreender…
Lembrei-me hoje, mais uma vez, de uma frase de Eurico Gama.
Aliás, já na nota de abertura que escrevi para a sua “Monografia Resumida” – Elvas Rainha da Fronteira – publicada aquando da inauguração da Sala da Biblioteca a que foi dado o seu nome em 1986 – tive a ocasião de a referir:
“A Vida é tão curta e eu tenho ainda tanto que fazer…”
Confidenciou-me então, sua mulher a saudosa Senhora Dona Maria Amélia Pires Antunes Gama, que este desabafo que lhe escutara em Portalegre – para onde fora tratar-se e de onde – depois, já foi trazido para esta sua muito amada terra – abrangia, também um desejo em que ele se empenhava havia anos; - Fazer entrar na Biblioteca Municipal os manuscritos (9 grossos volumes) que narram a história genealógica dos Vasconcelos de Elvas…
Foi assim, pelos custos da amizade e confiança em mim depositadas, que herdei o sonho de Eurico Gama para que eu continuasse o que prometi.
-Promessa é dívida. Daqui não há que fugir.
Eis porque, de 86 para cá, tenho vindo a esforçar-me para honrar o meu compromisso.
Cessação de responsabilidades políticas, não invalida a responsabilidade que advém da palavra empenhada.
Assim, que, consegui que me fosse reafirmada a oferta, já antes, prometida a Eurico Gama, pela possuidora dos documentos.
Foi-me também afiançado ter sido o Senhor Doutor Silvestre incumbido da sua entrega logo que localizados.
Até que um dia, tive conhecimento pelo meu muito respeitado amigo – Senhor Semedo – do achamento da dita documentação entre o enorme espólio da benemérita Senhora, que, entretanto falecera.
Averiguei do atraso no cumprimento do estabelecido e acatei, não muito a gosto, a demora da sua entrega à Biblioteca, sua legítima herdeira, pois que, sendo tão altamente interessantes eles haviam despertado a curiosidade de os ler ao ilustre interveniente no processo.
Por capricho do acaso, esta mesma informação me foi confirmada pelo próprio Dr. Silvestre à porta da Igreja do Senhor Jesus da Piedade, onde tive o gosto de o cumprimentar.
Ora, não é que hoje, pensando naquele conhecidíssimo: poema: “O passeio de Santo António” dei comigo a sorrir pensando que eu fora o Santo, se calhar, a minha queixa a Nossa Senhora não seria pela curiosidade do Menino Jesus…
Só que, não tendo eu, assim acesso ao céu, não admirará – julgo – que se nalguma das minhas voltas encontrar por aí, o Senhor Dr. Silvestre, como, até, já aconteceu – para além da alegria de o rever, eu comente:
-- Valha-nos Deus, Padre!
Que devagar que o Senhor lê!
Maria José Rijo
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Jornal linhas de Elvas
Nº 2.257 – 15 de Julho de 1994
Conversas Soltas
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Por decalque – “ Os meus votos”
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Nº 2.332 – de 5 de Janeiro de 1996 Conversas SoltasJornal Linhas de Elvas
Na madrugada silenciosa, o rádio baixinho, encostado ao meu ouvido, parecia segredar, apenas para mim, a música e palavras num programa que – sabia-o bem – muita gente, como eu, escutaria naquelas horas baças do fim da noite.
Embora goste de televisão e lhe reconheça os fartos méritos – continuo a apreciar a rádio.
Talvez porque – não impondo imagens – deixe a quem a escuta completamente liberta a capacidade de imaginar acrescentando o sonho.
Na minha opinião, o som, abre horizontes mais vastos.
A imagem aprisiona a nossa atenção de forma diferente. Obriga-nos a aceitar sem pudor e sem mistério o que a objectiva fixa para nós.
É muito importante que o faça, mas, não para todas as circunstâncias.
Jamais esquecerei a Sé da Guarda envolta
Os limites excessivamente explícitos – são limites explícitos – como é lógico.
Já em criança achava muito mais encanto na mancha misteriosa da grafia que, emocionada, gostava de decifrar, do que na história contada por “bonecos” que se abrangia com uma rápida olhadela.
Bastava-me uma bela ilustração na capa e mais uma outra sobre qualquer situação mais importante – o resto era comigo.
Veio esta conversa a propósito de um programa de rádio que, numa destas manhãzinhas, inesperadamente cativou por inteiro a minha atenção.
Num patamar entre o sono e a vigília identifiquei uma voz – que – por bem conhecida – despertou os meus sentidos.
Falava – como ele muito bem sabe – o senhor Padre Feytor Pinto.
Falava, com a serenidade de quem pensa alto, conduzindo-nos para uma reflexão sobre a dinâmica da relação humana.
Enumerava os valores verdadeiros que se escamoteiam aos falsos valores que aparentemente os substituem.
Falava do fácil, do ilusório, do que esvazia de sentido as nossas vidas e lhes rouba o encanto...
Falava da luta desenfreada pelo sucesso, que faz esquecer a humana solidariedade... Falava da ganância pelo dinheiro que ofusca a ternura da partilha... Falava da corrida despudorada pelo prazer que faz esquecer a virtude... Falava do mau uso do poder, que, tantas vezes, não deixa lembrar sequer o nobre significado de: serviço... Escutei tudo com a maior atenção. O dia ia lentamente vencendo com a luz clara o cinzento da escura madrugada. Amanhecia. E, o que fora insónia tornou-se uma feliz oportunidade de acordar de forma diferente. A oportunidade de ouvir, aprender e pensar. Isto passou-se há semanas. Hoje, neste primeiro número, deste “nosso Linhas” sentindo a necessidade de a todos fazer um presente de boas-festas e, nada tendo de meu para repartir – ousei este atrevimento; Com os desejos de um feliz 1996 deixo convosco as palavras certas que me acordaram plenamente, aí, numa manhã, cedinho, proferidas pelo senhor Padre Feytor Pinto Dinheiro – partilha Prazer – virtude Poder – Serviço Que a solidariedade – a partilha – a virtude – o serviço – nos conservem acordados e atentos para que, para os outros e para nós próprios, possa ser “Um Bom Ano” – o novo Ano. Maria José Rijo Sucesso – solidariedade

