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Relação difícil

Quarta-feira, 12.03.08

Nasce-se, cresce-se, vive-se num determinado meio, onde pessoas paisagens e coisas se tornam referências familiares.

Repetem-se gestos, frases, sem que de tal nos apercebamos.

Aprendem-se, e tornam-se nossos como se os houvéramos inventado, costumes que herdamos no convívio com quem nos cerca, tão naturalmente, que nos seria praticamente impossível identificar-lhes a origem.

Absorvem-se empiricamente conhecimentos de que nem damos conta.

Com o somatório dessas pequenas coisas que repetimos como reflexos, desenhamos a nossa imagem, a nossa maneira de ser.  

               em equilibrio...

Cria-se o nosso espaço, o nosso ambiente. São as nossas manias, os nossos pequenos rituais.

Criam-se os nossos mitos...

É a nossa rua, é a nossa casa, são os nossos conhecidos e os nossos amigos os nossos vizinhos, e, nesse pequeno mundo nos mexemos como o peixe na água. Percorremo-lo até de olhos fechados, seguros e tranquilos.

Ás vezes, muitas vezes, talvez, de tudo isso nos queixamos.

Que a Vida é ronceira, monótona, repetitiva, chata!

Mas, para qualquer lado para onde a sorte nos empurre aí vamos nós, carregando a memória do nosso passado e prontos a reinventa-lo recriando à nossa volta, melhor ou pior tudo quanto tínhamos e nos assegurava confiança.

      Duelo

Damo-nos então conta, de que aqueles dias vulgares, sem história que mereciam a nossa crítica, pela paz e tranquilidade que nos ofereciam, tinham sido, dias sem sobressaltos, calmos e felizes.

Não há como a distancia para se ganhar objectividade...

O contacto com meios diferentes, pode enriquecer o nosso conhecimento. É um acréscimo.

Soma-se ao lastro das lembranças que já constituem as nossas referências. Os termos de comparação.

Qualquer decisão, por mais simples que seja, sai sempre do somatório da experiência, da sabedoria armazenada, da maneira de ser e estar da pessoa em que nos vamos transformando.

Não é só a nossa aparência física que o tempo vai moldando.

Com ela, alteram-se também, as nossas reacções e intuições, a nossa própria psicologia.

Uma rocha é sempre uma rocha, quer o tempo a avolume acrescentando-a com novos sedimentos, quer a desgaste por força da erosão.

Uma pessoa, será sempre uma pessoa quer a sua vivência a enriqueça, quer a empobreça como ser humano.

               simples..e belo

Emigra-se, corre-se o mundo, se for caso disso, mas o anseio de voltar a casa, rever gentes e lugares torna-se como um sentimento pungente, uma saudade que, habitando-nos, nos comanda.

Todos e cada um, criamos com o decorrer dos tempos, como que um tesouro de memórias, onde armazenamos, como lembranças, resíduos do percurso das nossas existências.

A ele recorremos, continuamente, instintivamente, para o nosso procedimento imediato.

Nada nas nossas Vidas acontece em vão. Até mesmo o sofrimento, que, aos nossos olhos sempre se afigura inexplicável e injusto.

Mas se é fácil e agradável, recordar o que nos deu prazer, nos afagou o amor-próprio, nos alegrou, nos orgulhou; já será sempre difícil o relacionamento com o sofrimento, ou a sua memória, seja ele moral ou físico.

Ninguém entende a dor.

Aceita-se como inevitável, como se aceita a morte, porém, será sempre essa uma relação difícil.

 

                              Maria José Rijo

 

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.720 – 25/ Julho / 2003

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 21:42

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Quarta-feira, 12.03.08

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