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ESTEVA

Quarta-feira, 19.03.08

Mais intensa do que a cor

de uma giesta em flor

mais vibrante que a giesta

que veste amarelo em festa

É o perfume do mato

Quando o sol passando a pino

lhe aviva mais o destino

de fazer cheirosa a serra

E ... se é a esteva que a habita

com suas folhas escuras

(com folhinhas verde-escura )

e aquela flor bonita

recortada em seda mole

Quem há que não se console

de inspirar à saciedade

aquele ar de céu aberto

que sempre falta à cidade ?

e ... pode até relembrar

dos tempos da sua infância

a tal famosa  advinha

que tanto mistério tinha:

“Verde foi meu nascimento

e de branco me visto

as cinco chagas de Cristo

Representaram-se em mim !”

Depois, colhendo a flor

Verá como cada pétala

tem uma pinta de cor

uma dedada vermelha

que no branco alvo se espelha

como sangue num sudário

E... se pensar que essa flor

dá fruto: - “ as pióguinhas”

que nas mãos da garotada

jogadas como ao pião

bailam... bailam pelo chão

como sua mãe flor

que a cria lá pela serra

baila ao vento e canta a terra.

quando o sol quente de lume

a faz suar em delírio

o tal viscoso perfume!...

 

 Maria José Rijo

(13-4 – 85)

LIVRO DAS FLORES

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:43

Falando de Centenários

Quarta-feira, 19.03.08

Ele já era um homem quando entrei na sua vida. Ele foi meu Pai e eu a sua terceira filha.

As conversas sobre ele pareciam padre-nossos rezados de enfiada, tão semelhantes se afiguravam aos meus ouvidos de criança.

O Pai dá. O Pai ensina. O Pai disse. O Pai leva. O Pai trouxe. O Pai ganha o pão. O Pai contou à Mãe. O jornal do Pai. Os livros do Pai. Não se faz barulho que o Pai está a descansar – a ler. O Pai saiu. O Pai voltou. Dá a mão ao Pai. O Pai gosta – não gosta – fez – aconteceu…

Havia o Pai do Céu, que é Deus distante e havia o Pai dentro da nossa casa, que era o deus próximo, que tudo resolvia – directamente – e era o centro do nosso universo doméstico.

Se, porém era o Pai a falar, o eixo do mundo deslocava-se para a Mãe – que ficava então no centro de tudo.

Havia a família envolvente – Avós, tias – e a minha irmã, em cuja sombra eu me deslocava. Havia também “a filha que Deus tem” e estava connosco – principalmente – num quadro pendurado na parede à cabeceira da cama de meus Pais.

Era pequenina, vestida de rendas. Tinha um sorriso de estampa e, embora parecesse, na sua quietude, uma boneca, não era. Todos se comoviam só de olha-la. Estava no céu. Longe, portanto, embora exposta, noite e dia, na parede.

Mas, os adultos são tão grandes que, mesmo perto, estão sempre distantes e acima das crianças.

São precisos anos para os filhos descobrirem (e os pais consentirem em confessar) que os adultos também foram crianças. E isso é tão surpreendente que, na altura têm que ver fotografias e pedir a comprovação dos Avós para crerem na descoberta. A partir daí os Pais ficam menos distantes e quando vamos à escola já não são deuses, é ainda com a figura deles que se esgrime. São então os nossos heróis.

O meu Pai disse. Já lá esteve. Já viu. Hei-de contar ao meu Pai o que o disse o professor, porque o meu Pai sabe melhor…

Pai e Mãe são ainda as rodas dentadas que, encaixando-se, fazem girar o Mundo. São o relógio onde os filhos são os segundos, dos minutos, das horas, dos dias, dos anos da vida dessas figuras bíblicas de – Pai e Mãe.

Corre veloz o tempo. Um dia, formados, casados, solteiros, fardados, empregados, certinhos, desvairados – cada qual, parte à procura dum caminho à medida do seu pé – pé de filho – difere, de pé de Pai. “A procura do futuro” – é a frase usada na circunstância.

Como se o futuro fosse flor de corte ou, simplesmente, estivesse, ali, sentado à esquina, à nossa espera, para ser colhido. Só, se colhido de surpresa por ver gente, a passar, à procura “do amanhã” sem reparar que a existência é a soma de “hojes”.

Meu Pai teria feito 100 anos neste mês de Julho.

Há vinte que não o encontro senão em mim, onde permanece. Em mim o canto, o louvo, o conto, o choro, porque em mim vive consubstancialmente e em mim o preservo de ser esquecido.

Pensei, por isso, que era justo falar daqueles que, abaixo de Deus, estão no começo das nossas existências, estão lá com as mais nobre humildade porque nos aceitam antes de nos conhecer, e se propuseram receber-nos, amar-nos e proteger-nos até para além da esperança que porventura possam ter tido, de que lhes enchêssemos a vida de alegrias.

Mesmo desencantados, não se demitem da esforçada afeição que nos devotam até ao fim das suas, ou das nossas, vidas.

Comemoram-se centenários de Poetas, Artistas, Sábios e Santos.

Comemoram-se os centenários de todos quantos marcaram, pela poesia, pela arte, pela sabedoria, pela santidade os caminhos das nossas vidas.

Lembre-se também, cada um de nós, daqueles que nos receberam quando nascemos, nos embalaram, cuidaram e deram a mão enquanto crescíamos com o sonho de que descobríssemos, pela força do seu amor, que o Bem é um limite, tão possível quanto outro, e desejaram que fossemos capazes de dar testemunho honrado das vidas que nos transmitiram.

 

                                    Maria José Rijo

@@@@@@@@@

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.054 – 3 - Agosto – 1990

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:05





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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

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