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POEMA - Balada da infância

Quarta-feira, 26.03.08

Ai, mundo da infância,

         Como cabes neste mundo?

Ai, promessas,

         Desejos que é bom não cumprir !

Aí, anseios vagos de raro sabor...

Como a vida a cumprir-vos,

Vos rouba o valor!...

 

… Eu lembro-me ainda!

E como esquecer o mundo das gavetas,

          Proibido de mexer?

As malas da Avòzinha e das Tias,

Que só elas abriam… e em certos dias!...

                           

Ai, encantos meus!

Retalhos de seus encantos…

Que punham cobiça em meus olhos

E nos seus névoas de prantos!...

Bocadinhos de tecidos,

Recordações de bordados

De vestidos e arrebiques

De bodas e batizados!...

 

Ai, tremuras dessas mãos,

Tão velhinhas e tão queridas!...

Ao abrirem as caixinhas,

Onde dormiam as chaves,

Dos caixões das falecidas!...

 

Ai, poemas de saudade,

Em palavras tão singelas!...

 

-- “ Vês isto aqui, minha filha?

“Este caracol tão loirinho?

“Era de teu tio avô, meu irmão,

“O que está neste retrato...

“Morreu muito pequenino…

“Coitadinho!...

“Coitadinho!...

 

(Dizia a avó bondosa

A repor o medalhão,

Entre as dobras de d’algum fato.).

Grande mundo das caixinhas,

Sempre fechadas!...

 

Algumas que se abriam a meu pedido,

Tinham missangas, continhas,

Flores secas e plumas,

Restos de sonhos vividos

Que tinham sempre uma história,

Que eu escutava toda ouvidos!

 

-- “Isto aqui...  

 

(Quanta saudade

          Havia em seu recordar!...)

 

 

“… É um pouco de cambraia

“Que sobrou das camisinhas

“Do enxoval de teu Pai,

“E foram feitas da saia

“Do vestido que eu levei

“Na primeira Comunhão!

“Recordo tanto esse dia!...

“Quando voltámos para casa,

“Vinha eu entre os meus Pais,

“E a ambos dava a mão!

 

-- E esta fita tão linda?

 

--“ Não lhe toques deixa estar!

 

            (E uma nova emoção assomava ao seu olhar!..)

 

             

--“ Foi a última que usou

“Antes de ir para noviça

“A minha amiga de infância,

“Minha prima, a Clarinha,

“Que chegou a superiora

“No convento onde morreu

“E do qual era Padroeira

“A Virgem Nossa Senhora!

        

-- E isto aqui, o que tem?

 

 

           (Logo a Avó, com carinho,

            Desmanchava para eu ver

            Um embrulho feito em linho,

            Não fosse a traça comê-lo!)

 

  

--“ É a trança do seu cabelo!...

  “Vês, querida, como era belo?!...

 

………………………………………………

 

E enquanto febril, extasiadas,

E me quedava a sonhar…

A avó fechava a mala,

Com religioso carinho;

E às vezes, no outro dia,

Inda no ar se sentia

Um cheiro muito suave

De alfazema e rosmaninho!...

 

Foi essa mala tesoiro,

Foram caixas e retalhos,

Foram pontinhas de rendas,

Foram retratos e prendas

Dos noivos de minhas Tias

(De minhas Tias solteiras)

Foram leques, pedrarias,

Restos de sonhos sonhados,

Que a morte fez em bocados,

Que geraram, bem o sei,

Os primeiros sonhos que tive,

Os mais lindos que sonhei!...

 

…………………………………………………

 

Minha avozinha morreu…

Não mais mexe em suas malas.

Agora… mexo-lhes eu!...

 

 

Maria José Rijo

19- Março – 1954

 

I Livro de Poemas

Poema nº 11

Pág. 61

Desenhos da Autora

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publicado por Maria José Rijo às 21:26

SE UMA COISA MERECE SER FEITA...

Quarta-feira, 26.03.08

Vinha serenamente.

Regressava lá das bandas onde o Guadiana fingindo-se parado espelha melhor o céu, e fica mais azul.

Perto das “Casas Novas”, detive-me porque um homem que assara sardinhas na berma da estrada e acocorado as aconchegava numa travessa de esmalte tinha a seu lado um companheiro que zurzindo o resto das brasas com um ramo de ervas molhadas espalhava cinza e fumo de tal modo que parecia rescaldar um incêndio.

Identificada a situação segui o meu rumo, lentamente, porque aquela nesga de caminho, à direita, até apanhar a estrada de “Forte de Botas” conserva

ainda aquele cunho de paisagem castiça do fundo dos tempos, que é a raiz do Alentejo e, muito me encanta. Deveria, penso, ser considerada paisagem protegida pela presença da autentica vegetação indígena da nossa zona que ainda evidencia - mato de sobro, azinho, oliveira, zambujeiro...

Seguem-se uma ou outra Quinta beirando a estrada. Logo depois, as habitações pululam pela beira do caminho até há bem pouco desnudo. Penso de imediato se haverá população para o surto desenfreado de construção que nos rodeia. As pequenas quintas naquela zona nada descaracterizam. Antes embelezam. Já o mesmo não sucede com os prédios altos, engaiolados, que cortam o horizonte desta cidade, atalaia, traçada com requintes de sábia engenharia de onde um “forte” avistava outro “forte” e onde a nobre traça mandava que nada empanasse a vigilância cortando o alcance do olhar sempre atento aos horizontes.

Nesses outros tempos, havia vagar para sentir melhor que uma cidade não é apenas o conjunto volumétrico das suas construções.

Uma cidade tem, também, a sua feição histórica, religiosa, romântica, laboriosa, gastronómica, tradicional, típica que lhe confere alma própria e cunho particular e que sendo indizível se capta com a sensibilidade do coração e se interioriza.

Uma cidade tem cor – tem cheiro – tem alma.

Elvas é ocre. Ganhou esse tom, quase dourado, do reflexo do céu nas suas velhas muralhas.

Elvas tem cheiro de terra seca e de restolho no Verão. Guarda em cada parede, com o travo da cal, o perfume das eiras desde tempos imemoriais, e de olivais em flor, e da terra húmida e fértil onde o suor dos ganhões, e o sangue dos soldados que deram em definitivo a independência a Portugal se mistura com a promessa das sementes novas que em misterioso silêncio germinam no mesmo chão.

Elvas resplandece em cada pedra das suas fortalezas num halo luminoso e mítico de perfume de história como flores de saudade.

 

Elvas em Setembro Resende a incenso, foguetes, rastos da festa das almas que louvam ao Senhor da Piedade; e aos petiscos gulosos que satisfazem o paladar, e deixam a flutuar no aconchego dos lares um persistente cheirinho de tradição que se renova cumprindo-se...

Assim pensando, passei com a saudação do costume: - Bendito seja o Senhor Jesus da Piedade! - Pela igreja que para as festas já se começa a engalanar, e dei com as obras de alargamento da estrada que corre entre a Tapada da

Saúde e, a saudosa Quinta do Bispo, de cujo desbarato o futuro ainda há-de falar. (a nova lei de classificação dos solos para Elvas já vem tarde. Guterres acordou só agora! E, é pena...)

Das olaias, amoreiras, conteiras, etc. etc... que durante quase um século, seguramente, fizeram alas para quem passava - nem o rasto. Vim então pensando se, também ali, em seu lugar, iriam surgir palmeiras...como agora parece ser moda em Elvas.

Deus queira que não! Senhor, tende piedade!...

Na nossa zona dão-se bem as sebes de giesta que, quando em flor, fazem a festa do amarelo, as sebes de romãzeira, de loendros, de piricanta, espinheiro,...Dão-se bem olaias, jacarandás, conteiras, e tantas mais, para quê, e porquê a palmeira guarda sol, de imagem tão exótica, como separador de estradas?

Porque não amoreiras, que, como nenhumas mais, fazem parte do historial de Elvas?

É que:  “datam  dos fins do século 15º, (estou a citar Vitorino de Almada) as notícias que aparecem no Arquivo municipal de Elvas sobre a cultura obrigatória da Amoreira, para o desenvolvimento da industria da sêda,...

Mandou el Rei D. Manuel por carta sua, escrita ao concelho em 1498,que cada pessôa que possuísse quintas e heranças puzesse em cada uma d´ellas, nos primeiros quatro anos seguintes, 50 árvores novas entre pereiras, maceiras, e cerejeiras, e só fixava o número d´amoreiras, que seriam 10”

Mais tarde, segundo a mesma fonte, o Príncipe D. Pedro em 1678, por carta, à vereação, volta a insistir no cultivo da amoreira.

O tempo passa, a história prossegue, a obrigação do cultivo é destinada por derrama a cada fazenda segundo a sua extensão e importância.

E, assim “Ao todo sommam as amoreiras que n´este termo se devem plantar, segundo enumeração acima, (refere os nomes de todas as quintas e hortas) na quantia de 1598 amoreiras.

 

Concluindo: a árvore histórica de Elvas é a amoreira.

Ela baptiza não só o Aqueduto, como muitas quintas, hortas, e lugares.

Não se trata, aqui de criticar por criticar, trata-se de apresentar alternativas, justificadas pela história e pelas obrigações que ela nos impõe.

Trata-se de história. História de Elvas.

Sejamos, então, coerentes e reconheçamos que a presença de palmeiras na rotunda do aqueduto, além de despropositada e feia é quase ofensiva...

Deixemos a profusão de palmeiras para onde elas são naturais e são tão cartão de visita como a azinheira é entre nós... deixemos os passeios sem calçada à portuguesa para as ruas da vizinha Espanha...

Sejamos portugueses de brio.

Respeitemos no possível o que é genuinamente nosso, que fala da nossa história e tradição, o que tem a ver com a nossa cultura ancestral.

É o mínimo que podemos fazer por respeito ao passado e ao futuro.

Até porque: - se uma coisa merece ser feita, merece ainda mais ser bem feita.

                             Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.622 – 7 /Setembro/ 2001

Conversas Soltas

 

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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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