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Mágoa

Quarta-feira, 30.04.08

As palavras estão cansadas

De tanta vez empregadas

Sem dizer nada sincero!

 

Como direi lamento,

Tortura, ou mesmo alegria,

Transmitindo o sentimento?

Não sei! Não sei!

Isso doe-me…

 

Se ao menos as minhas mãos

Pudessem mexer nas cores,

Que minha alma não tem,

Para pintar suas dores!

 

Se ao menos isso pudessem!

 

Se agarrasse na vida

E com fúria lhe mordesse,

Talvez a vida chorasse,

E a sua queixa pintasse

Uma dor igual à minha!

 

Mas se eu não prendo a vida

E ela me prende a mim…

Serei eu mesmo sem cores

Que riscarei sem pintar

As minhas mágoas sem fim!

 .

Maria José Rijo

Junho 1956

.

II Livro de Poemas

Poema nº 13

Pág. 61

Desenhos da Autora

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publicado por Maria José Rijo às 00:18

Reminiscência -Quem é vocemecê?

Segunda-feira, 28.04.08

Durante as exéquias da Irmã Lúcia, recordou o Senhor Cardeal Patriarca, a ingénua pergunta da privilegiada vidente de Fátima - quando  Nossa Senhora lhe apareceu: – quem é Vocemecê?

Na verdade, em pleno campo -  três crianças que pastoreavam o seu gado - perante a radiosa mas surpreendente aparição, só podiam revelar espanto e estranheza, logo, a necessidade de entender tão impensável acontecimento, impunha a interrogação: - - Quem é Vocemecê ?    

Frente a esta evocação, quase sem me dar conta, recuei no tempo e revivi cenas da minha infância, no campo, lá onde as pessoas, também, eram simples, naturais e expontâneas na manifestação dos seus sentimentos como as crianças são.

Por lá, também, quando algum forasteiro surgia no meio, logo alguém do lugar se abeirava, formulando a pergunta inevitável:

-            é que m’emporte mas vocemeceia quem éi?

Ora é esta reminiscência, acordada pela frase semelhante que

Lúcia proferiu interpelando Nossa Senhora, que nesta hora me ocorre – frente à estranheza do que ouvi pela rádio e pela televisão - para inquirir  também com simplicidade e apenas e tão só pelo desejo de entender - de me situar - como pessoas de alto gabarito intelectual que todos nos habituamos a  admirar e respeitar, fizeram duro julgamento público de outros, por decisões não ofensivas para quem quer que fosse, só porque  lhes pareceu estarem imbuídas de intenções escusas.

  Refiro o Senhor Bispo de Setúbal e o Senhor Padre Milícias.

Pegando no arumento de que se serviu o Senhor Padre Milícias -“ à mulher de César , não basta ser séria é preciso, também, que o pareça”- poderia retorquir:

-          Padre! - É também preciso que assuma que procedendo assim como procedeu, deu sem margem para dúvidas a impressão de estar a fazer campanha partidária.

-          Porque não o fez então abertamente? – Se não era esse o seu desígnio porque deixou que o tivesse parecido?

-          Também ouvi, com a maior atenção, comentário idêntico proferido pelo Senhor Bispo Dom Manuel Martins, que é das figuras mais polémicas da Igreja, mas também mais esclarecidas e corajosas do nosso tempo de cujas entrevistas guardo recortes que são fontes de ensinamentos (até este desabafo, está em consciência, para mim, na linha do seu exemplo), reprovar, também por suspeição o mesmo facto.

-          Fui então reler uma entrevista publicada, salvo erro, no Natal de 97, quando do lançamento da sua biografia escrita por António de Sousa Duarte, prefaciada por Almeida Santos e apresentada por Adriano Moreira.

-          Talvez a consciência dos diferentes quadrantes políticos e o alto gabarito intelectual e moral das pessoas envolvidas nessa cerimónia, me tenha, entre outras demais razões, feito recortar as folhas da revista e arquivar esta memória na minha pasta de “guardados”.

-          Transcrevo algumas frases:-“ pregamos valores, mas não passam de palavras, somos como aqueles que fazem campanhas eleitorais. Por isso o que devemos fazer neste Natal é pedir perdão.”

-          “ Sinceramente acho interessante que o livro de um bispo tenha o prefácio de um socialista e seja apresentado por um homem que dizem de direita. Este é o primeiro sinal da mensagem que o livro quer transmitir. Porque é que havemos de levantar muros entre nós? As diferenças são acidentais e subjectivas. Espero que o livro mostre o retrato de um homem que quis fazer da sua vida o exemplo da aceitação plural da existência.”

Será que criticar quem quer que seja por intenções que lhe atribuímos – ajuda a derrubar muros entre nós?

Concordando-se ou não com o teor de algumas atitudes que, porque são públicas, são postas à nossa consideração, é na linha de coragem e frontalidade que delas emana que ousei este desabafo.

Na verdade, às pessoas comuns, como eu sou, às vezes sucede, frente aos mais responsáveis deste mundo, quer políticos, quer religiosos, desejar também perguntar, por querer entender, a cada um de per si:

- Quem é vocemecê?

                                          

 

                                    Maria José Rijo

 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.802 – 24-2-2005

Conversas Soltas

Reminiscência – 14

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publicado por Maria José Rijo às 23:31

Entrevista a Maria José Rijo- 19-1-1967

Domingo, 27.04.08

Uma dona de casa

que não se considera  escrava nem vítima

40 anos de idade

A Leitora cujo depoimento em resposta ao questionário que publicamos hoje justifica-se da seguinte maneira:

  “” Notar pela maioria das respostas que a mulher portuguesa que responde a inquéritos sente, como aquela que ainda não sabe ler, que o homem deve ser o chefe, e não reconhece tal como consequência duma promoção que para ela própria já tarda, faz-me juntar a minha humilde achega ao monte das respostas.

            Tenho 40 anos, sou casada há quase 20 – não tenho profissão – sou oficial de todos os ofícios como dona de casa competente, que procuro ser. Recuso-me a escrever domestica porque não há homens domésticos e as origens da civilização da mulher remontam certamente dos mesmos primitivos tempo…

            Nos intervalos dos meus afazeres leio, estudo, ouço música, escrevo histórias para crianças ou faço bonecos de madeira ou gozo a vida simplesmente como um gato ao sol.

            Digo-lhe isto para que me possa apresentar como uma dona de casa que não se sente escrava nem vítima – mas que vive com consciência a alegria de ter uma casa, um marido companheiro e não entrega a ninguém aquelas pequenas coisas que fazem duma casa um “Lar” como não pede á mulher a dias que ajeite a gravata do marido ou coisa semelhante.

            Tenho a paixão das crianças e procuro transformar em ternura para todas quantas vejo a mágoa de nenhuma ser minha “”

 

P: - Qual a sua maior aspiração?

R: - Num mundo de Paz assistir a uma reforma social que equilibrasse direitos e deveres de cada ser humano de forma a não serem possíveis noticias como uma que sempre recordarei: -- a de uma menina que morreu de comoção ao estrear para fazer exame o seu primeiro par de sapatos. Enfim! Pelo menos se coisas destas acontecerem e forem contadas, que se lhes não chamem “bonitas histórias” pessoalmente gostaria de cumprir – cumprindo-me.

A todos se deve exigir consciência e responsabilidade.

 

P:- Como encara o seu trabalho fora do lar? E se não trabalha, gostaria de o fazer?

R:- Fora e dentro do lar encaro o trabalho como um dever de dignidade de quem o executa e, ainda, uma felicidade se esse trabalho coincidir com o que cada um deseja fazer; ou for a dádiva por inteiro, em arte, de cada instante de vida dividida.

 

P:- Preferia ser dirigida por um homem ou por uma mulher? Porquê?

R:- Não preferia ser dirigida nem dirigir no sentido que a pergunta me parece implicar. Considero um chefe como um representante das necessidades, direitos e deveres de um grupo e não como um “mandão”. Não vejo que na generalidade se possam distinguir homem ou mulheres para esses fins porque a todos os seres humanos se deve exigir consciência e responsabilidade – como pessoas que são – independentemente do sexo que representam. Dirigir como executar são encargos ao alcance de gente valida.

 

P:- Como concilia o seu trabalho fora de casa com a sua vida familiar? A quem deixa os seus filhos? Se não os tem ainda, como pensa organizar a sua vida quando os tiver?

R:- Trabalho em casa. Nunca poderei ter filhos. Gostaria de viver a experiência de trabalhar fora e estou á beira de o tentar.

 

P:- Acha que a mulher deve ter uma preparação profissional? Ou deve viver só para a sua casa?

R:- Já é tempo de se formar uma mentalidade que não suscite a necessidade de perguntas destas. Para além duma consciente preparação como dona de casa que todas as mulheres devem possuir - como elemento social – toda a gente deve ser apetrechada dentro das suas possibilidades intelectuais e capacidades físicas para ganhar a sua vida e saborear o gosto da sua independência e liberdade “responsáveis” – e gente, que se saiba, são mulheres e homens.

A mulher que casa e tem ou não filhos pode, se em consciência o entender, como deve ou vocação viver só para a casa. Aliás, reportando-me á resposta que dou á primeira parte da pergunta surge como conclusão lógica que o sim ou o não será problema individual, resultante dessa tal formação, decisão consciente e independente do “parece bem” ou “parece mal” que ainda inibe e anula grande parte da mulher portuguesa.

 

P:- Que entende por promoção feminina?

R:- Entendo que é a conquista do lugar de dignidade que lhe é devido e que a mulher exigirá sempre que por consciência dos seus deveres e direitos tenha a noção da sua responsabilidade como ser humano.

 

P:- Acha que a mulher deve possuir cultura? Porquê e para quê?

R:- Coro quando leio estas perguntas ! Homem ou Mulher são acaso sinónimos de presença e ausência de massa cinzenta?

 

P:- Interessa-se por politica? Porquê?

R:- Interessa-me embora não entenda a “Razões politicas”. Interesso-me pelas consequências que brotam dessas razões. Leio, comparo, ouço e formo juízos. Sei que exércitos, povos, aliados, amigos, inimigos – são gente – seres humanos como eu, cheios de anseios e frustrações. Gente que interroga e se interroga. Gente – e sempre gente – como estes meninos que passam todos os dias aqui á minha porta e saem agora, mais uma vez, do colégio, em corridas e risos sob a chuva miúda. Meninos e meninas com idades que cabem na minha idade, uma, duas, três, quatro vezes…

            Não! Não gosto de políticos – mas não me alheio dos seus perigosos movimentos.

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Entrevista

Do Jornal Diário de Lisboa

19 de Janeiro de 1967

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publicado por Maria José Rijo às 23:53

Ciência de Almanaque I

Domingo, 27.04.08

In illo tempore, era tão vulgar comprar ano após ano os famosos almanaques, como hoje se compram semana após semana as revistas das telenovelas ou de modas.

Ninguém os dispensava. Eram encadernados, com capas duras, tinham apresentação gráfica muito cuidada eram profusamente ilustrados.

Eram indiscutivelmente cativantes à vista e estavam sempre à mão porque desde as crianças que se deliciavam com os bonecos e a solução dos labirintos, até aos mais idosos que procuravam outros interesses, tinham assunto para entreter toda a gente.

Eles forneciam receitas de culinária, sugestões sobre moda, informações sobre o tempo, anedotas, adivinhas, uma série infindável de passatempos, conselhos sobre jardinagem, de higiene e saúde, de como tirar nódoas, truques de ilusionismo, enfim, uma infinidade de coisas que nem lembrariam ao demónio, mas que não escapavam aos especialistas em entretenimento que os elaboravam.

Divulgavam a anedota elegante, que se podia repetir diante de velhos e novos e que não deixava por isso de fazer nascer um saudável sorriso.

O senhor Bule com altivez: - A sua voz não seria tão má, senhora Dona Chaleira, se não cantasse pelo nariz...

Havia então um, o Almanaque Bertrand, que era o que eu conhecia melhor, e que fazia as minhas delícias.

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É que para além da variedade de assuntos, e das imensas histórias, contos e curiosidades para ler, tinha em rodapé de cada página um ditado popular, pensamentos que sempre me encantam e surpreendem pela sabedoria empírica que encerram.

Eram na verdade uma fonte quase inesgotável de interesse para os longos serões em que se bordava, jogava às cartas, se fazia música se conversava ou estudava.

Como hoje também ainda se faz em moldes da nossa época, claro!

Quem ameaça, sua ira gasta.

Maio come o trigo, Agosto bebe o vinho.

Quando chupa a abelha, mel torna; e quando a aranha peçonha.

O gosto danado, julga o doce por agro.

Uma água de Maio e três de Abril, valem por mil.

Amigo de bom tempo, muda com o vento.

A adversidade é pedra de toque da amizade.

...E mais um sem número deles que seria agora fastidioso enumerar.

 

 

Mas...vem isto a talho de foice porque encontrei ao arrumar papelada um espécimen desses com data de 1908.

Claro que este é anterior a mim mas encerra o mesmo encanto daqueles outros que eu recordo e, tem ainda o sortilégio de eu não saber quem a guardou e porquê o que desafiou a minha curiosidade.

Pus-me então a folhea-lo na esperança de encontrar alguma pista,uma assinatura, um comentário...mas nada, nada mesmo que me leve a concluir se foi minha mãe, ou minha avó quem o preservou de modo a chegar até mim quase um século depois consegui descobrir. Foram baldados os meus esforços.

Mas, folheando-o encontrei uma série de curiosidades que li com interesse e me pareceram engraçadas para divulgar.

Por exemplo: quem saberá exactamente como apareceram as cartas de jogar! – Pois o velho almanaque conta assim:

 Há muita gente persuadida que as cartas de jogar foram inventadas para distrair um certo rei de França, mas o que parece provado é que este jogo foi importado do Egipto para a Europa. A significação simbólica e astronómica das cartas parece confirmar esta origem.

O baralho de cartas primitivo tinha duas cores, branco e preto, como ainda hoje têm os baralhos franceses e ingleses.

Estas duas cores correspondem aos equinócios. O número de cartas dum baralho é de 52, como as semanas do ano. São quatro naipes, como as estações.

O desenho de cada naipe corresponde a cada uma delas. O que chamamos ouros são em verdade rosas arquitectónicas: correspondem à Primavera; as espadas, simile de Verão, à época da ceifa; as copas representam o Outono, tempo em que se faz a vindima, e os paus simbolizam o Inverno.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

Será verdade? Será fantasia?

Confesso que não sei, porém tem sua graça pensar que era assim que se acreditava há quase cem anos.

 

                   Maria José Rijo

 

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Revista Norte Alentejo

Nº 24 – Janeiro/Fevereiro - 2003

Crónica

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publicado por Maria José Rijo às 00:31

Aguarela Triste

Sábado, 26.04.08

O Luar ?

Lambendo a rua devagar…

A aragem ?

Mexendo de mansinho na folhagem…

A cidade ?

A dormir ao fresco e claridade !

 

Ela ?...

Parada e só na calçada

Desenhada a negro p’la luz

Na parede caiada.

 

Não dormia !

Não sonhava !

Era ofício – esperava.

Não já amor – nem vício,

Pão e Dor…

 

Conheci-a, tão menina,

Como o filho que ela teve

Quando deixou de ser menina !...

Porque ficou parada – só na calçada,

Desenho a negro

Em qualquer esquina !

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Maria José Rijo

5 de Maio de 1956

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II Livro de Poemas

Paisagem

Desenhos da Autora

Poema Nº  8

Pág - 41

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:33

Minha casa, minha brasa...

Sexta-feira, 25.04.08

Não sei que espécie de influência os contos, as tradicionais histórias de fadas, bruxas, gnomos e duendes, tiveram (ou não tiveram) na formação da personalidade de quem, na infância as escutou.

Pessoalmente tenho consciência que foram um elemento enriquecedor na minha vida.

Lembro-me de não perceber, às vezes, perfeitamente o que me contavam, mas, mesmo assim, e talvez por isso – pelo mistério que algumas situações envolviam -  por me emocionarem sem bem compreender - gostar  e pedir para que me repetissem o que , tantas vezes, até, já conhecia de cor.

Todos procuramos um sentido para a nossa vida.

Mas o sentido da vida não se adquire de repente. Toda a caminhada do crescimento, desde a compreensão de nós próprios, e dos outros é também feita passo a passo, como o próprio crescimento do corpo que também não é repentino.

Qualquer trabalho que nos propúnhamos executar, cresce pouco a pouco. Qualquer página que se pretenda escrever, cresce letra a letra, linha a linha, como crescem os ninhos que as aves constroem – também, pouco a pouco

 Tudo tem o seu tempo, e eu, continuo a pensar que os contos de fadas são um apoio necessário para alimentar o crescimento saudável da maturidade psicológica das crianças.

Se para os adultos é difícil lidar e conviver com a injustiça, a mentira, a ofensa, e, por aí fora, não custa imaginar, como nas mesmas situações se avolumará o sofrimento e a confusão de qualquer criança, sem maturidade ainda para ajuizar as emoções que de tais situações lhe advêm, e que tem que suportar no seu confronto com a vida real.

Nos contos de fadas as crianças entram em sintonia com as angústias, as alegrias, os medos, terrores até, mas também esperanças e coragem dos seus heróis. Vivem-nas com intensidade e aprendem o valor da luta para a procura de soluções sem que, por forma directa, sofram as humilhações, frustrações e peripécias porque passam os seus heróis, que não perdendo a esperança, no final de cada história, são sempre, de qualquer forma compensados.

                   Mas toda esta conversa vem a propósito de uma lenda muito antiga que gosto de contar às crianças embora pense que isto de contos e lendas vêm a calhar em todas as idades. Nela se conta que um casal de velhos lenhadores que vivia numa cabana no meio de uma imensa floresta, deu abrigo ao rei e à sua comitiva que surpreendidos por enorme temporal, lhes pediram abrigo contra o frio, chuvas, raios e trovões.

Tendo o rei verificado as condições de pobreza do casal, resolveu como forma de gratidão levá-los para habitar uma dependência do palácio real onde nada lhes faltaria.

Partiu contente o casal para a aventura de viver sem trabalhar, vestir com conforto e comer e beber sem cuidados.

As primeiras impressões foram de deslumbramento. Tudo era novo e bonito. Porém com o passar do tempo começaram a ficar tristes, e já não respondiam à família real com o mesmo entusiasmo.

Estranhando a mudança foi a rainha espreitá-los.

Então, ouviu que a pobre mulher nem tendo sequer provado a lauta refeição que lhe fora servida nesse dia desafiava o marido a voltar para a sua cabana, dizendo: anda marido!

Vamos embora!

Nossa casa, nossa brasa, nosso lar, nossa panelinha!

Vamos dizer adeus ao rei, mais à rainha.

E, assim voltaram felizes para o sua choupana, com seu lume de lenha a arder na lareira, sua sopa de couves na panelinha de barro rente às brasas a fumegar, seu reino de gente pobre com gosto de liberdade, e por lá se quedaram felizes.

E, ainda devem estar vivos a estas horas porque os personagens dos contos, são eternos...

 

                        Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.854 – 23/ Fev./ 2006

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 23:34

Cravo

Sexta-feira, 25.04.08

 

Do Cravo – diria assim:

Veste vermelho – espanhola

Que são rubros - cor de sangue

os cravos de que mais gosto!

- Põe “peinetas” nos cabelos

e a prender a mantilha

que em sombras te borda o rosto

que sejam ainda os cravos

cor do poente em Agosto!

Que são os que melhor casam

com o som das castanholas

e falam de sol e toiros

e de tacões batendo o chão

de palmas, sapateado

e ... olés! Bem compassados

com ciganas “salerosas”

e  guitarras dedilhadas

por homens esguios - “mui machos”

cingidos de roupas negras

com voz rouca e nervos tensos

como galos bem treinados

antes de entrar em combate !

... era esta a voz dos cravos

mesmo pintados em leques

em brumas de S. João

lá nos Junhos da memória!...

mas... um dia

Quando em 25 de Abril

se fez “ 31” na história

dum povo ordeiro e pacato

a evocação dos cravos

mudou de mão e cenário

e em todos os continentes

por gentes de qualquer raça

Pode o cravo ser contado

como a flor que encontrara

um novo significado!

- Se ainda falava de dança

se falava de alegria

mais falava em liberdade

que semeara a esperança

dum povo reencontrado

“à sombra duma azinheira

que já nem sabia a idade ! “

- mas a esperança também morre

e ao morrer traz piedade!

E, o cravo rubro de cor

Que em Portugal ganhou nome

falando em Paz e Amor

Já foi tão atraiçoado

que nem sabe que mais diga

- já é apenas um fado

e o fado é sempre cantiga .

 

 

 

Maria José Rijo

LIVRO DAS FLORES

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:03

“O Mostrengo”

Quinta-feira, 24.04.08

A gente é vária e consequentemente as opiniões também.

Qualquer novela desde que se lhe torne conhecido algum capítulo ou apenas bocado de entrecho fica, desde logo, sujeita a intervenções alheias pressionando o autor.

Vem um e interroga: - então agora o que lhes dizes? – Não dizes nada? – Não comentas?

Vem outro e adverte: - cuidado, cautela, olha que até com Bruxos e Feitiçarias andam metidos!

Pensa, reflecte bem, se valerá a pena! - Olha os riscos!...

Mal se ouve tal comentário, até Portugal inteiro reagiria, num reflexo, como por instinto, com o verso de Fernando Pessoa (que já fez seu, sem disso se dar conta) -“ Tudo vale a pena se a alma não é pequena”

Desiste! – Insiste Insiste! Desiste! – São os conselhos contraditórios que, como é da norma, todos escutamos.

O telefone toca e, inesperadamente, uma voz feminina ameaça:...

- E desliga.

-          É diferente o silêncio que se restabelece – é mais opaco...

-          (O romance está a tornar-se Vida - pensa o autor)

Quer dizer, as coisas ganham tais foros de realismo que se confundem os actores com os papéis que representam e as causas que defendem...

Qualquer protagonista de qualquer história tem de saber situar-se no meio do enredo dela, mesmo que em ficção a esteja a viver.

E, tem que ter um rumo, uma linha de pensamento e de acção se quiser que as suas personagens tenham credibilidade.

Pessoalmente, estou até convencida de que toda a ficção tem de ter os pés bem assentes na realidade para ser convincente.

Sempre os contos de fadas, e até recentemente a história mágica do Harry Potter, têm seguido a mesma linha. Peripécias e mais peripécias, bruxarias e mais bruxarias ao serviço de interesses e intentos vários – inconfessáveis, talvez! - e, depois, contra malefícios e perfídias  o triunfo do Bem, da Justiça, do Bom Senso e  da Razão .

Só com essas coordenadas bem delineadas o entrecho comove o grande público, é autêntico, e convence. 

É que a ficção manobra-se - a realidade  - não.

Ela impõe-se.

Domina. Comanda.

Cria e mata conforme decidir quem do alto diz: “ no meu reinado...”

Felizmente, por cá, desde 1910, como Republica, tentamos agora viver em Democracia.

Falemos então de nós:

Uma coisa é pôr e sobrepor o mesmo nome a tudo, melhor ou pior, que mascare a inferioridade e o desperdício com fachadas de grandeza – outra - é invocar um Santo para encobrir a afronta gratuita, o pecado da perseguição pessoal, do gozo perverso da humilhação que se inflige a outrem, da sanha de vingança e outros sentimentos menores por muito encapotados ou, até, mascarados de loiras fadas que se apresentem...

Até o próprio Santo, que, como todos os Santos, vê os corações e neles lê, frente a homenagem tão temporã, como mal intencionada, poderia ter dito como o povo repetiu: - engana-me que eu gosto!...

              Mostrengo que está no fundo do mar

Ainda que em qualquer episódio da novela eu possa sair da ficção para a realidade, ou, talvez por isso, como a minha escrita é o leme com que traço a minha rota, fico com Fernando Pessoa e aprendo, reaprendo e repito – firme - com o Poeta, as falas frente ao Mostrengo:

 

“ Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o Mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!”

 

 

 

                                  Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.891 – 9 de Novembro de 2007

Conversas Soltas

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publicado por Maria José Rijo às 01:08

“Reminiscências” – Penso e sinto...

Quarta-feira, 23.04.08

Meu pai, como já algumas vezes tenho contado, tinha o culto da língua portuguesa, e usava muito máximas em latim.

Ora, como nos meus tempos de criança não havia televisão para dar “cultura” por atacado, e bem normativa a todo o mundo, cada qual herdava de pais e parentes conhecimentos, hábitos e costumes como hoje, - já só - se herdam os bens económicos.

Um dos entretenimentos para as crianças, era, nessa época conversar com os pais, os avós, os tios, padrinhos, empregados escutando, e aprendendo com eles pormenores e particularidades de família, costumes, trabalho, bem como episódios das suas vidas, ou contos e lendas.

Como parece evidente deduzir, essas circunstâncias propiciavam momentos ideais para, na brincadeira, ajudar as crianças descobrir o gosto pelo saber.

“Cogito, ergo sum”, repetia meu pai; e traduzia – penso, logo existo.

Depois convidava-nos a descobrir palavras da família de cogitar ou de pensar, ou quaisquer outras, conforma a ocasião pois, ensinava ele: - tal como as pessoas também as palavras têm origem, família, ascendentes e descendentes. E, lá vinha o pensador, o pensamento, o pensante, o pensativo, etc. etc. e cantava vitória quem mais “ parentes” descobrisse.

Claro, que por essa altura, nem de perto, nem de longe, eu sabia- o que ainda mal sei , nem saberei alguma vez, perfeitamente - que foi sobre este aforismo que Descartes, no Discurso do Método, reconstituiu toda a sua filosofia .

Como também só há pouco descobri que o erro que António Damásio – o nosso grande sábio – atribui a Descartes, e demonstra, é de ele não ter afirmado: - penso, sinto, logo, existo.

Claro que, esta conclusão, posta assim, é apenas uma simplificação, de quem, como eu, pega as coisas pela rama.

Mas, com este preâmbulo, chegamos ao título da minha conversa de hoje.

Penso, sinto, logo existo.

Mas existo porquê, e para quê?

Para traçar mais um caminho neste intrincado labirinto onde todos os destinos se cruzam e se entrelaçam, talvez...

E...se eu sei, sabemos todos, que cada qual à sua maneira procura um jeito de ser feliz...

Então, os nós cegos, nas relações entre gentes e povos serão apenas consequências fortuitas desta procura sem fim que será viver.

Desde intrínseco propósito de procurar ser feliz?

Penso, sinto, – logo, existo – está certo!

Porém, nada sei, – está – no meu caso, muito mais certo ainda!

“Hoc opus, hic labor est!”

Traduzindo: - aí é que a porca torce o rabo – comentaria meu saudoso pai nesta circunstância!

 

                                Maria José Rijo

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Jornal Linhas de Elvas

28/Julho/2005 – Nº 2.824

Reminiscência nº 22

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publicado por Maria José Rijo às 22:34

Daí que…

Terça-feira, 22.04.08

                       

Já tenho contado Algumas vezes que o terramoto dos Açores – desse horror impossível de esquecer – guardo também uma inesquecível lição de confiança nas pessoas.

Com a terra ainda a tremer em centenas de “réplicas” sucessivas, esquecidos dos bens perdidos (2 terços da ilha reduzidos a escombros) restando a muitos, só a roupa que tinham no corpo – ninguém procurava as riquezas soterradas.

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Todos, absolutamente todos, corriam à procura uns dos outros e conhecidos ou desconhecidos, desapertavam-se de uns abraços para novos abraços na pura festa da alegria de se encontrarem vivos.

Foi um momento ímpar de comunhão espiritual, foi um saudemo-nos irmãos do tamanho do mundo, que uma ilha aflorando no meio do oceano – é um mundo dentro do Mundo.

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Eu não queria, ninguém queria ou jamais terá querido que um terramoto acontecesse. Mas, porque aquele teve que acontecer, não me canso, ainda hoje, apesar do sofrimento que depois se seguiu, de dar graças a Deus por tê-lo vivido – por ter podido receber o meu quinhão de dor, medo e angustia de ser ilhéu, ao lado daqueles que lá têm que fazer o seu percurso de vida.

              150

Para quem não tente fugir ao que pensa ser o seu dever é bom ter que agradecer a Deus “as frestas” por onde inesperadamente se pode espreitar o homem desprevenido dando instintivamente a dimensão do seu amor ao próximo – a sua dimensão de gente verdadeira.

Daí, que além de outras demais razões, eu aporte na centelha divina de todo o ser humano.

Daí, que eu creia no meu semelhante e em mim.

Daí, que eu não me canse de agradecer a Deus ser uma mulher de fé.

Daí, que eu acredite em milagres….

 

                  Maria José Rijo

@@@@@

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.911 – 23 Outubro de 1987

       

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publicado por Maria José Rijo às 22:30


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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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