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“ A Semana do Pão “

Segunda-feira, 07.04.08

                                              

O Pão é místico.

            O Pão não é um alimento qualquer.

            A semana do borrego, a semana do porco, a semana do bacalhau – são o que são.

            Semanas de culto à habilidade gastronómica, à pançada, ao petisco, às tradições locais – mas, assentam sempre na imolação de um animal.

            Com o pão... bem! – Com o pão – nem de perto, nem de longe se pode assemelhar ou ser a mesma coisa.

            Quando eu alvitrei e ofereci a ideia – se tivesse imaginado possível, ver tal sugestão reduzida a tamanha banalidade – teria ficado calada.

                          

            O Pão é Místico.

            Na Comunhão diz-se “ O Corpo de Deus” – é Pão.

            No Pai-Nosso, reza-se de mãos abertas pedindo: “o Pão-nosso de cada Dia “.

Na miséria implora-se por amor de Deus: - um bocadinho de pão.

            Na desclassificação do ser humano diz-se: - não mereces o pão que comes.

                                  

            Na alegria e na saúde bendiz-se – o Pão da vida.

            Na penitência sustenta-se o corpo a pão e a água.

            Na pobreza refere-se amorosamente – “o panito”.

            No dia de todos os Santos dá-se – “o pão por Deus”

            Na quinta-feira de Ascensão – colhem-se espigas para que não falte o pão.

            E, ninguém do povo, põe o pão na mesa virado com o “solo” para cima – “porque” o pão não se ganha de barriga para o ar - o pão ganha-se com o suor do rosto” – o pão respeita-se. Ninguém se senta à mesa de chapéu.

            Quando, frente a uma mesa posta, alguém se distrai e solta linguagem desbragada, apressa-se a exclamar: - “com perdão do pão “!

            Nos lares, mesmo nos mais modestos há – a bolsa de pão – e, é só do pão.

            O saco do pão faz parte – até – da parafernália dos mendigos.

            O pão sempre se pousa sobre um pano branco ou pelo menos limpo.

            Branco é o panal que forra o tabuleiro onde o pão, ainda em massa, se aninha para ir até ao forno.

            Branco é o Sudário de Cristo.

            Branca é a farinha que o trigo esconde no seu bago de oiro.

            Não mereces o pão que comes – é a ofensa mais humilhante que alguém pode escutar.

            Parece que não come pão de gente! É o piedoso lamento para quem definha sem saúde.

            Por estas e outras, muitas mais, razões alvitrei a semana do pão, para ser lançada de forma inovadora nesta querida Elvas.

            Pensava nas escolas interessadas a investigar e juntar dados para uma bela exposição didáctica.

            Recolha de provérbios.

                            

            Número de moinhos e azenhas do Guadiana.

            Houve? – Não houve? – O que resta?

            Com o apoio da Estação Nacional de Melhoramento de Plantas fazer uma mostra das espécies de trigo que há – diferenciação das espigas.

            Solos, adubos, sementeiras.

            Variedades de pão que o nosso país consome nas diferentes regiões. Que cereais são utilizados.

            Pensava em pinturas e fotografias fazendo a história de ceifas, mondas, etc, etc,

            Pensava numa mostra de medidas antigas...

            Da evolução das alfaias através dos tempos...

            Talvez um cortejo – talvez apenas exposição...

            Do arado até hoje – que distância!

            Na transformação dos usos na feitura do pão. Da artesania até à era industrial...

                                       

                        Pensava numa região completamente envolvida a falar de si, do seu passado, dos seus costumes como quem folheia um álbum de família desde as mais remotas origens – historiando tudo quanto lhe diz respeito para se fazer conhecer, amar e respeitar como merece e precisa.

            E, só depois, como fecho a tal semana gastronómica.

            Porém, também aí, seria diferente.

            Entrariam as iguarias propostas – é certo! Mas... e os doces de pão?

            A enxovalhada? – As migas doces? – A sopa dourada? – As tibornas? etc, etc, etc, ...

            Uma coisa eu garanto:

            Não posso imaginar que uma só pessoa ficasse indiferente a uma fornada de “marrucates” perfumando o ambiente na “vernissage” da inauguração – para mais – tendo ( e teriam ) à sua disposição a possibilidade de provar a tiborna de lagareiro e a tiborna de lambareiro – ou simplesmente azeitonas que tão bem se casam com o pão.

            Como música de fundo recuperava aquele disco de Maria Clara em que ela canta Guerra Junqueiro:

                                

            “Toque,toque, toque – vai para o moinho “ ou o Luís  Piçarra com a sua “Ceifeira que andas à  calma ... “

            Que mundo de coisas encheu o meu espírito para a semana do Pão... – E o que realmente aconteceu.

            Vai ser como com a “Quinta do Bispo”!

            Quem viver – verá!

            Vá, lá! – Vá, lá! - Que quando ofereci a ideia do cortejo histórico, que já deixei bem alinhavado – em 1990 – apenas substituíram os “arautos” a cavalo por guardas-republicanos de motorizadas mas, não foi mal! – A julgar pelo que disse a rádio desse tempo – desconhecendo quem dera a ideia, claro!

            Ainda um dia escrevo as minhas memórias.

            De tristezas estamos todos fartos.

 

 

                                            Maria José Rijo

@@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.375 – 8 - Novembro - 1996

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publicado por Maria José Rijo às 23:36





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