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A marcha branca

Quinta-feira, 15.05.08

A marcha já passou. Já aconteceu.

Fazem-se marchas por tudo e por nada. Desde as coloridas marchas carnavalescas, às alegres cavalhadas, às marchas de protesto, às marchas de apoio de toda e qualquer cor, que é como quem diz: - por todo e qualquer pretexto...

Esta, porém foi branca.

Branco é a ausência da cor.

Branca é a pureza, a castidade, a inocência.

Branca é a cândida e perfumada açucena.

Brancas e belas, também são algumas rosas, lírios, as seráficas camélias, e outras flores delicadas...

Branca e transparente é a alma das crianças porque, estando na alvorada da Vida, são tão sem mácula como o amanhecer de cada dia.

Branca é a folha de papel que se enfrenta ao querer comunicar por escrito com o mundo exterior que nos envolve...

Branca é a tela onde se espalha a cor na aventura de criar...

Por isso a cor branca é a face do desafio, da provocação, do espaço onde cabe o brotar da esperança para a realização da obra sonhada...

Se está branco, está limpo. Está disponível para aceitar a palavra, o desenho, a cor, a pauta, a nota musical, qualquer mensagem que se pretenda expressar, de qualquer forma, de qualquer sentimento seja ele positivo, negativo, sublime, ou, até devastador.

Na brancura também é mais evidente o borrão, a mancha indelével, o rasgão irremediável...

Branca, imaculada, cai do céu a neve - que se derrete e suja também...

Blogue de sayrakidos : Vida animal, Salvem os animais

Na brancura nasce a obra do génio.

Na brancura cabe o canto da esperança. 

Na brancura cabem os sinais da febre incontrolável de criar.

         A pomba também é um símbolo da paz

Na brancura cabe o caminho para Deus porque são brancos, são puros, todos os gestos de Amor e de Paz.

Brancos são os nossos anseios de perfeição e de justiça.

         

Simbolicamente branca foi a marcha de solidariedade para com as vítimas dos crimes de que tanto se fala, e com tanto despudor, que o assunto se banalizou ao ponto de servir de conversa frouxa de café, anedotas, bisbilhotices, especulações, fantasias e mentiras... - Como se o horror da verdade, não tivesse dimensão bastante para afrontar todas as consciências!

O branco, porém, continua a simbolizar a pureza, o imaculado, e, de tal jeito que: - qualquer que seja a cor  do que quer que seja, que esteja por estrear- o novo - é sempre, o que está ainda: “em branco”.

O que se desconhece, se ignora, é o que nos deixa:“em branco!”

O que se esquece no momento em que devia ser recordado e nos pendura no vazio, - “são as brancas da memória.”

E, muito embora o branco se associe a tudo que é puro e alvo e limpo, imaculado, inocente e cândido, também, com armas brancas, se fere e mata.

É que no branco, cabe o bom e o mau, a escolha, como sempre, é nossa. 

 

           Maria José Rijo

@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.730 – 10 – Outubro-2003

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:44





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