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Ciência de Almanaque II

Quarta-feira, 07.05.08

Cá estou eu, recorrendo de novo ao meu almanaque de 1908 para contar algumas das curiosidades que nele vou encontrando.

Desta vez, aprendi que o lenço, o vulgar lencinho de assoar, tão citado nos romances, que as damas de outrora deixavam cair para que os seus adoradores os apanhassem. Esses rectângulos de tecido onde se disfarça o bocejo, se abafa o espirro, se escondem as mucosidades, (como dizia no preciosismo do seu falar a elegante prima Alice), essa pequenas obras de arte, bordadas, pintadas, enfeitadas de rendas quer de bilros, de Peniche, quer de Bruxelas, de Alençon, de Bruges, de Milão, de Veneza, de Flandres, de Bruges ou rendas Valencianas, essa insignificância promovida a peça de luxo, tem também a sua história.

Vamos pois ao almanaque...Cito:

palacioversalhes_f_008.jpg

“Estamos aqui tentados a acreditar que as gerações antigas não se assoavam, ou, pelo menos, horror!... Que não se assoavam a um lenço! E assim, todas as suposições são permitidas e o nosso espírito flutua na dúvida em busca da solução do problema. Conclue-se do memorial de despesas reais no tempo de Luís XIII, que os lenços da rainha custavam nada menos que dezoito libras cada um. Nos enxovais de Luís XVI, não

               palacioversalhes_f_005.jpg

se fala em lenços de assoar, e mesmo nesta época a sua missão era apenas limpar o pó de arroz e o vermelhão. Eram luxuosos ou rudimentares? O luxo do lenço tinha feito poucos progressos no tempo

                       palacioversalhes_f_004.jpg

de Maria Antonieta; e os lenços dela eram avaliados apenas em vinte e quatro libras. A mulher nesses tempos trazia sempre o leque na mão, nunca o lenço de assoar, e as reconstituições históricas do teatro cometeram um anacronismo pondo um lenço de assoar na mão de uma mulher antes da época do Império.

Napoleão (Por Nimesh Desai)

Entraram então na Corte, porque Josefina tinha os dentes muito feios e negros, e por isso trazia sempre, a tapar a boca, um desses farrapos de baptista; e, naturalmente para justificar este hábito, era preciso que o lenço fosse elegante, bordado, ou guarnecido de rendas custosas.

                               Primeira mulher de Napoleão, Josefina de Beauharnais

Josefina não se esquecia também de mandar fazer as iniciais do seu nome encimadas pela coroa imperial. Como é fácil imaginar, todas as mulheres da Corte de Bonaparte, seguindo o exemplo da soberana, começaram a dar-lhe grande apreço e a fazer desse objecto maravilhas de bom gosto e de luxo; e mesmo para responderem às zombarias dos que no estrangeiro afirmavam que sob o governo do - Napoleão retratado por David Bonaparte  pequeno – as mulheres dos marechais, de origem baixa, se assoavam á mão, elevaram o lenço, como uma bandeira de protesto, tornando-o cada vez mais rico e obrigatório.”

O lenço hoje, já não tem estas conotações.

É uma peça utilitária. O que não a impede de, por ventura, poder ser um enfeite.

Os homens, que ainda não desistiram do vestuário clássico, continuam a exibi-los no bolso de peito dos jaquetões e paletós, casando as cores e desenhos a preceito com as gravatas...

Nas festas de casamentos, baptizados, comunhões ainda se completa o vestuário com adereços que incluem o lenço escolhido como um pormenor de requinte.

Nos fatos do dia a dia, esse que se impôs como um símbolo de luxo inútil, é uma peça imprescindível para cuidados de higiene.

E, até, o pobre mais pobre, que limpa as narinas, como dantes usavam fazer as mulheres dos marechais que não tinham pruridos de estirpes elevadas, até esses, não hesitam, por certo em puxar dele, para a lágrima irreprimível, incontida ou para o aceno de adeus, a quem partindo nos deixa partido o coração.

Que para isso o moderno lenço de papel que se impôs por ser prático e descartável, não tem “contextura poética”. Não dá para amarfanhar nas mãos, torcer como nos torce a alma o desespero e resistir como nós vamos resistindo e amadurecendo à medida que alegrias e mágoas nos vão dando lições de Vida...

 

Nota:

No século XVI uma veneziana de alta linhagem teve a ideia de cortar uma peça de linho em bocados que guarneceu de rendas, e utilizou, higienicamente, para limpar as fossas nasais. A ideia fez furor e, depressa passou os Alpes, vindo a expandir-se pela Europa. Nessa época os lenços não eram quadrados como hoje se usam. Tinham formas variadas. Só no séc. XVIII, o rei de França, Luís XVI, cedendo às reclamações dos tecelões, determinou que os lenços passassem a ter forma quadrada. Assim nasceu o lenço, segundo rezam velhos alfarrábios...

 

 

                                          Maria José Rijo

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 Revista Norte Alentejo

Nº 26 – Maio/Junho - 2003

 Crónica

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publicado por Maria José Rijo às 00:13

Começar pelo princípio...

Terça-feira, 06.05.08

Pois é!

         

A criança passa na rua pela mão de um familiar, responsável por ela.

        A criança, vê na loja um cesto, um saco, qualquer recipiente repleto de qualquer coisa de que gosta e a tenta.

A criança naturalmente levanta a mão e serve-se.

O familiar, olha, nada diz, faz as compras. Entretanto, no acto de pagar o comerciante diz. – O menino ou a menina tirou dois rebuçados, que são tanto…

      

O familiar diz: pago, claro, mas que ridicularia! – Cobrar o preço de dois rebuçados!

Parece que não sabe o que são crianças!

Sai da loja dizendo agastado: - não volto aqui! Calculem! Dois rebuçados!...

Pois é!

Entretanto a criança com a boca lambuzada de doce aprendeu que – dois rebuçados não têm importância... que sendo pouco, pode tirar, mexer...

Ninguém classificou o gesto!

Que se tornou lícito.

                      MicaelaMoranela

Criticou-se o dono do comércio porque a verba era insignificante!

E... entretanto o adulto responsável, perdeu a oportunidade de ensinar à criança: - peça desculpa ao senhor da loja. Não se deve mexer no que não é nosso e dê cá o rebuçado que ainda não comeu, porque não é assim que se procede.

O menino ou menina pede. Não tira..

 Não se serve do que lhe não pertence – seja palha ou ouro.

(porque então o comerciante, por certo teria dito: eu ofereço os rebuçados, mas compreendo que chame a atenção da criança.

A casa tem junto ao portão uma trepadeira conhecida por: dama da noite – dá um flores brancas que apenas têm de muito especial o intenso perfume que começam a exalar, mal o sol se põe.

Então quando regam o jardim, os donos da casa ficam sempre alguns momentos por perto gozando a delícia desse odor.

As pessoas passam na rua, algumas param e comentam. Que maravilha, aspiram uns momento o cálido bafo da noite e seguem…

                    espace temps

Outras, puxam, repuxam, arrancando ramadas que de seguida deixarão caídas pelo caminho mas, que, vão destruindo a planta.

Os donos, quando por perto, recomendam: não estrague. Não mexa! Não puxe!

E, as reacções são sempre: - por uma porcaria de uma flor!...

Esta gente pensa que tem o rei na barriga!

Entretanto a planta vitima indefesa de tanta cobiça e agressão vai – se finando.

                  3 amigos

Como é que não se pensa – e vê - que: se cada um que passa tira uma folhinha – porque uma folhinha não é nada... acaba reduzindo “a nada” o que era belo e encantava.

Dois apontamentos sobre factos que presenciei e que confirmaram a minha convicção de que... tem que se começar mesmo, mesmo,

Como o povo sabe e diz: - de pequenino é que se torce o pepino!

Se assim fora... desligavam-se os telemóveis antes de entrar nas

aulas...etc... etc...etc...

 

                          Maria José Rijo

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.963 – 3 de Abril de 2008

Conversas Soltas

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:33

Poema – O Roubo

Segunda-feira, 05.05.08

 

“ O Homem sabe ser pontual nas

Suas ocupações, quando é visto

Pelos outros… mas sabe revolver-se

Em pecados e infidelidades,

Quando ninguém o vê ”

 

Tampouco havia luar…

A escuridão piedosa, daquela noite tão fria,

Igualava o belo ao feio,

Porque a tudo ela encobria…

 

O ladrão abriu a porta!

No céu, nem estrelas havia!

Achou a noite ideal!...

A chama do seu desejo

Lhe bastava para guia!...

 

…….. Saiu  ……………

…….. Tornou …………

 

Não o vira uma só alma!...

Escondera-se de toda a gente!

Mirava agora o tesoiro…

Assobiava baixinho,

Esfregava as mãos de contente!...

 

…….. Deitou-se ………….

 

Mas não dormiu…

E o medo surgiu então!

Porque se escondera dos outros,

Só de si próprio é que não!

 

Maria José Rijo

4 – 3 – 1954

Poema – nº 15

Pág – 81

Desenhos da Autora

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:38

A visita – Dar a mão

Sábado, 03.05.08

Tão pouca coisa – dar a mão.

                          

Será na verdade, assim tão pouca coisa!

Mas, o que representa dar a mão!?

Dar a mão - esse gesto banal, quase um reflexo, quase exercido por instinto...esse estender automático do braço com a mão aberta, disponível para aceitar outra mão que se lhe entrega, o que vale?!

Dá cá a mão - que te ajudo a subir, a saltar, a passar...

Dá cá a mão - para não caíres...

Dá cá a mão - que te guio...

Dá cá a mão - não te percas...

Dá cá a mão - não tropeces... Dá cá a mão...

                            

Estou atrapalhado com isto – dá-me uma mãozinha!?...

Dar a mão, afinal, tanto como o formular de um pedido, pode ser também, uma oferta de ajuda, de protecção.

Mas, dar a mão ao invisual, será o mesmo que dar a mão à criança!

Ou não!...

A criança aceita o caminho que se lhe define.

O cego indica-o.

Dar a mão, então, é, pode ser, apenas, emprestar o olhar a quem segue sem o ver, seu rumo imaginado, ou conhecido.

Dar a mão pode ser, também, apenas, dar apoio para o começo da caminhada, misteriosa, vida fora...

                            

Caminham os namorados de mãos dadas. Dão-se as mãos...

Demonstram, com esse gesto, uma promessa de atitude para um futuro que prometem ser comum.

São a imagem de – caminhar a par.

Aceitam-se em casamento, pedindo a mão.

A mão, porque, o dar a mão, é a anuência, o consentimento, a entrega, é o formular da promessa de confiança, de apoio, de partilha – de reciprocidade no afecto, no amor.

A mão.

               

A mão que, também, se dá à palmatória quando o erro, o engano, a injustiça se comete mais ou menos impensadamente e o arrependimento o impõe.

A mão que se mete no alheio.

A mão que furta. A mão que afaga. A mão...que se dá e se recolhe na indecisão...

A mão que benze.

A mão piedosa, que acarinha, afaga, a mão que salva.

A mão que mata.

A mão que trabalha, calosa, dura ao tacto, mas doce ao coração.

                    

A mão que amortalha, trata, cuida.

A mão que ganha o pão.

A mão que se dá como testemunho do sentimento de que se imbui o gesto.

Pensei, em atropelo, em tudo isto, ao ver Avô e Neto, de mãos dadas caminhando a passos miúdos em direcção ao jardim.

Madrugada e entardecer.

                     

Por entre as sombras das árvores que como um manto de rendas bordavam a calçada era a pura imagem do passado e futuro de mãos dadas. A presença da esperança na continuidade – no Amor Dá cá a mão! Aperte a minha mão...

Tem a minha palavra!

Selou com um aperto de mão.

Tão simples - tão pouca coisa - e, pode valer o compromisso de honra, a dignidade, a postura vertical que define o ser humano.

 

                                       Maria José Rijo

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Jornal O Despertador

Nº 232 – 30 de Abril de 2008

A Visita

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:22

Uma certa irreverência...

Sexta-feira, 02.05.08

Preparava-me para assistir à Missa pela televisão.

                          A transubustanciação do pão em Corpo de Cristo, na missa de canonização do Frei Galvão, em 11 de maio de 2007

Privilégio oferecido a gente doente e, ou, idosa.

Benesse que não perco nestes dias em que o Inverno, ventos e frios, fora de época, nos visitam e dão cartas comandando as nossas vidas...

Pois estava eu a pensar em que, como se costuma dizer das visitas indesejadas, também este desassossego, deste tempo louco, veio de cadeira e se instalou, quando a cerimónia começou e, nela sintonizei a minha tenção.

Pois, não é que quando menos esperava, já o meu pensamento andava longe revivendo cenas familiares de lembranças que se julgam arquivadas para consultar quando e como for do nosso gosto e, nos aparecem da forma mais irreverente, intrometidas onde eram absolutamente dispensáveis!

Como sempre – durante a Missa – evoco, e rezo, como todos fazemos, por aqueles de quem a saudade enche o nosso coração. E, foi aí, que ao evocar a memória de meu Pai se me impôs a lembrança de uma cena hilariante.

Naquele tempo...quase parece que vou citar uma parábola...

Naquele tempo, os pais não davam banho às filhas meninas, nem entravam nos seus quartos, desde muito pequenas, sem bater à porta e pedir licença.

O mundo feminino era o mundo do recato, do pudor bem demarcado do mundo masculino.

(não estou emitindo juízos de valor, estou contando factos, hábitos sociais de tempos passados, que vivi)

Pois bem, minha irmã e eu, já namorávamos por esta época que refiro e tínhamos pedido a nossa Mãe para deixar expor no nosso quarto os retratos dos namorados.

Minha Mãe anuiu, não sem explicar que o namoro era uma fase da vida muito séria, que requeria muita responsabilidade, etc. etc... e, bem emoldurados os nossos “alferes”, que o eram na altura, ficaram em evidência, na fileira de fotos de primas e amigas, que decoravam profusamente a grande cómoda do nosso quarto.

Meu Pai foi, discretamente, informado do acontecimento. E deve ter tido vontade de espreitar. Porém, para ir ao quarto das meninas deveria ter um pretexto, para não ser apanhado em delito de curiosidade.

Foi assim que, uma vez, que fomos ambas a uma festa, minha Mãe lhe deve ter dito que aproveitasse o ensejo.

Meu Pai, assim fez.

Quis o acaso que eu voltasse para traz por uma qualquer razão que não recordo e, o surpreendesse em “pleno delito”.

Ele, olhou-me sorrindo e apontando os dois pretendentes entre a fila de rostos femininos comentou com o seu fino espírito: “benditos sois vós entre as mulheres!”

Divertidos – rimos, ambos, sem constrangimentos!

E, guardei, até hoje tão grata recordação...

 

                           Maria José Rijo  

 

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Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.966 – 24 de Abril de 2008

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:45

Selo da AMIZADE

Sexta-feira, 02.05.08

                            http://escritosdeeva.blogs.sapo.pt/

.

Distingiu-nos a EVA com o privilégio da sua estima.

E como sempre para ela a minha gratidão.

.

Passamos o testemunho aos nossos amigos virtuais que muito aprecio

Nomeio :

http://www.coisasimplesepequenas.blogspot.com/

http://www.asdualidades.blogspot.com/

http://tascadasamoreiras.blogs.sapo.pt/

http://flosinha.blogs.sapo.pt/

http://olhares-meus.blogspot.com/

.

E cada um, se quiser nomear alguém, é só usar o selo e dedicá-lo, por sua vez, às amizades que entenda por bem.

Um muito obrigada à EVA por se ter lembrado deste blog e um bem haja a todos que me distinguem com as suas visitas.

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publicado por Maria José Rijo às 16:48

Cácia

Sexta-feira, 02.05.08

À memória

de

Maria da Conceição Caldeira Tierno

(Cácia)

 

 

Nela, o que eu mais gostava

Era da alma, que eu não via

Mas que a iluminava!...

 

Ela era bonita, mas se agradava…

Era mais o jeito com que cativava…

 

Nunca mais a vi, Morreu,

E a saudade torturante nasceu.

Porquê? Não sei!

Se aquilo que nela mais queria

Era a alma

Que existe, como existia…

 

Não, não percebo esta vontade louca

De ver falar ou sorrir a sua boca…

Se nela mais gostava,

Se nela mais se queria…

De alma que Deus guardou

Para estar connosco algum dia!

 

Ela era bonita, mas se agradava…

Era mais do jeito com que a cativava!...

 

Maria José Rijo

20 – Novembro– 1953

I Livro de Poemas

... E vim cantar

Poema nº 17

Pág – 89

Desenhos da Autora

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:21

“Relacionando...”

Quinta-feira, 01.05.08

            Muitas vezes, por razões afectivas e outras, me recordo de pessoas, verdadeiras personagens, que povoaram o mundo da minha infância e adolescência e, hoje, povoam o mundo das minhas mais gratas recordações.

            De algumas delas até já tenho contado algumas histórias, tristes, ou alegres, conforme me ocorrem.

            Hoje é quase uma anedota o que vou lembrar mas, como todos os factos reais, quer os mais ligeiros, quer os mais complicados, acabam por ter algum significado no nosso quotidiano.

            A senhora Cesaltina, que trabalhava em casa de meus pais, fazia pegas de lãs em feitio de pintaínhos, galinhitas e mais coisas que tais. Fazia cestinhos e chaveninhas de chá, em renda e outras belas e inúteis habilidades que exibia, com vaidade, nas mostras de artesanato lá da terra mas, tinha - e com toda a razão - um incontido orgulho do seu passado.

            Com uma certa raiva contida, superada, no entanto por um gozo de triunfo que lhe punha no olhar um brilhinho de alegria húmido de comoção - nas horas de calma - quando as tarefas não rendem , não gostando de dormir sesta , arregimentava-nos e dava largas às suas lembranças ,sabendo como apreciávamos ser seu público .

                 ...abandonado...

            Ela criara “ à força do seu braço”, sozinha na sua viuvez, os dois filhos que tinha. Não fora empresa fácil.

            Desdobrara-se em trabalho e sacrifícios.

            “Mondava, acefava, não faltava ao apanho, saroava fazendo jêtos; ò sábedo por mor de ganhar a poia acarretava lenha p’ró forno,...e, assim, os crií” - contava.

            “Ora, duma vez , ganhi umas molhaduras ,e pensi :- àmanhem vou dar a provar òs mocinhos mantêga de vacas . Porra! - que tamém têem-no dirêto!  Atão, chami o mê Lexandre e disse-le : vai ali à loja do Jasuìno e compra dez tostões de mantêga de vaca.

            Nã dês assoada! - Espera até saírem aquelas maganas todas que lá tejam quê aporcebam do que tu vás a comprari. Olha que, se dizis, levase-as! Já sabis - ou te calas , ou levas porrada .”nã quero que s`

                      Planos

            Assim industriado lá foi de pé descalço, amigo Alexandre, cúmplice feliz daquela aventura secreta:- comer pela primeira vez na vida : manteiga de vaca! - Estranha ousadia de pobres que em fugindo ao pão com toucinho, cru, ou cozido, se supunham roubando privilégios aos mais abastados.

O melhor da história começa aqui.

            De tão assustado, tão recomendado, o nosso herói, foi-se quedando pela loja irrequieto, mas mudo. Entrava gente e saía e, à pergunta: - queres alguma coisa Lexandre? - o menino respondia :- quero sim senhora! - Então o que é?

Com um ar de quem está bem senhor de si e das suas responsabilidades o garoto só dizia:” - tá bem dêxa ! isso era o que voceia queria sabéri !...e nem ao dono da tenda confessava a pretensão conservando a moeda de escudo tão bem fechada na mão como o segredo que, cioso ,ia calando.

            A certa altura inquieta com a demora foi a mãe procurá-lo e o enigma desvaneceu-se. Anos passados, ainda contava a rir, estas e outras facécias do crescer dos filhos, das dificuldades e das alegrias cujas recordações lhe enchiam o coração.

             Altos e baixos....

            Pensando hoje nisso e no relato do alvoroço que foi a entrada em casa do primeiro calçado para não irem descalços à escola: - botas de atanado cardadas, amaciadas a poder de sebo. Grandes, enormes, pesadas, incomodas como o sacrifício de quem as comprou.

 Mas,” com fiture , quai´s qu´eu as calçava! qu’o calçado custa os olhos da cara!”

            “Suí-as eu!” – confessava.

            Lembrei-me destes acontecimentos passados por comparação com outros recentes que vou relacionando....

            Quem quiser 250 gramas, daquele pó azul, para pintar os rodapés das paredes – só encontra embalagens de quilo a 1.300$00.

            Quem quiser aguarrás, óleo de linhaça, etc. etc. também, em belas embalagens de lata – de litro – por mais de quinhentos escudos - comprará as porções que lhe são impostas e não aquelas de que necessita ou lhe convém adquirir...

            E, assim sucessivamente, seja mercearia, batatas, cenouras ou o que quer que seja. Se julga que dispõe do seu dinheiro para o usar a seu contento...desengane-se!

Estamos, quer queiramos, quer não, numa época de violência. E esta moda que sub-reptíciamente se instalou de obrigar o indefeso cidadão a adquirir porções de géneros de que não necessita, nem economicamente lhe convém, não é, por certo, das mais ortodoxas...

           [ Vinda da mercearia ]

            É destas encapotadas faltas de consideração e respeito pela dignidade da pessoa humana, que, como num plano inclinado, o abuso, a permissividade, derrapam, derrapam, até às impensáveis proporções de que todos nos queixamos em todas as vertentes...

            Se bem repararmos há muitos serviços que pagamos cada vez mais caros e que cada vez nos servem pior... veja-se as contagens da luz, os vazamentos de lixo, etc. etc. etc.... preste-se atenção em como tudo se vai organizando à revelia da comodidade do Zé pagante...e reconheça-se que violência não é apenas pancada. Às vezes essa é, até, a menos cruel das violências...

 

                                    Maria José Rijo

@@@@

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.467 – 28 –Agosto - 1998

Conversas Soltas

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:37


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LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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