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Desvairamento

Quinta-feira, 26.06.08

 

.

Não mereço a vida,

Não sei sublimar

A dor que ela me deu!

 

E melhor não nasci

Depois que morri…

Que morri dentro de mim!

 

Eu, não valho a pena,

Se acaso a pena valesse

Nasceria melhor

De tudo que em mim morresse!

 

Não!

Não mereço a vida!

 

Valha a verdade:

-- Não a pedi,

E, se a estrago,

É com a mesma sem vontade

Com que a recebi!

 

Não me fiz!...

Achei-me assim…

 

Não escolhi esta vida para mim,

E, se em mim há tanta dor,

É que estou vibrando bem

À vontade do Autor!

 

Não será pois um favor

Que ouça palmas no fim!

Maria José Rijo

2- Julho- 1956

 

II Livro de Poemas

Poema nº 12

Pág – 57

Desenhos da Autora

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publicado por Maria José Rijo às 00:00

Impossível não comentar!

Terça-feira, 24.06.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.883 – 14-Setembro-2006

Conversas Soltas

Droga

Volta e meia, meia volta, vem à baila a discussão sobre a necessidade das “salas de chuto”

                  salade chuto1.jpeg

Mais uma vez, aparecem ministros e médicos a bater palmas à iniciativa e aparecem outras tantas vozes mas, de sinal contrário, a contestar tais iniciativas.

               salade chuto2.jpeg

Seria humanamente cruel virar costas a semelhante drama.

É verdade que seria. Mas, cabe na cabeça de alguém que essas tais salas possam ser solução para problema de tal dimensão e gravidade? – Julgo que não.

Se o vício da droga, é uma doença, que sejam então, como doentes, tratados os viciados. Que sejam internados, desintoxicados e ajudados a reintegrar socialmente.

Mas sermos todos constrangidos a alimentar – pagando - a maneira profilática de puderem sustentar essa dolorosa chaga social, já me parece excessiva violência.

E, explico porquê:

Os diabéticos crónicos precisam de insulina diariamente.

Ser diabético, não é um vício.

È uma fatalidade.

Porque são então obrigados a pagar o seu imprescindível medicamento?

Porque não há para com eles, e para com outros portadores de doenças crónicas, semelhantes cuidados?

Porque não lhes são destinadas salas confortáveis onde sejam assistidos em especial, sem necessidade de andarem pelas consultas dos centros de saúde, às vezes em longas filas à espera de vez para obterem a receita que lhes permita comprar o remédio que os manterá vivos?

Às vezes, muitas vezes, eu quereria calar estes e outros comentários.

Bem que eu queria! - Mas, confesso: - é impossível, sentir a injustiça que subjuga, velhos, reformados pobres, e, todos aqueles a quem a diabetes vai gradualmente diminuindo a visão a caminharem receosos para atravessarem uma rua, ou descer tacteando o degrau de um passeio e pensar que, se em vez de uma fatalidade, sofressem de um vício eram tratados com mais respeito, mais justiça e, até mais misericórdia.

 

 Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 00:16

Pergunto-me...

Domingo, 22.06.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.887 – 12/10/06

Conversas Soltas

Não vou apodar, simplesmente, nem de isto, nem de aquilo, a telenovela que a SIC serve ao domicílio três vezes por dia, com a regularidade de quem ministra um medicamento imprescindível para a salvação da humanidade.

Não vou! – Mas vou pensar alto, porque, talvez assim encontre o fio da meada que em vão procuro para entender o fenómeno que, afinal, nos atinge a todos.

             Luciana Abreu - Floribella

Atinge a todos porque é particularmente pensando nos jovens que toda aquela trama está sendo concebida.

É, pois, por essa razão que me pergunto:

Que formação se pretende dar à juventude de um país quando para ela se congeminam novelas daquele nível?

É proibido dar trabalho a jovens com menos de X anos de idade; depois, aparecem crianças quase na primeira infância, representando, enredadas em tramas onde a mentira, a dissimulação, a vigarice, e toda e qualquer porcaria moral tem lugar de relevo, como hábitos normais...

E, como se isso não chegasse, os seus diálogos desenrolam-se em torno de paixões e amores precoces, como se as crianças, só isso pudessem copiar das atitudes adultas e não pudessem aprender a falar sobre outros temas, cultivar outros valores e, conviver entre si em alegria, de alma limpa, sem o peso de preocupações tão fora do âmbito das suas idades, compreensão, e justos sonhos...

Como se, porém, isso não bastasse, a heroína da saga, em lugar de conversar, argumentar com inteligência, berra num desvario se algo a contraria, e, quando quer ser doce e amável, quase sempre parece parva. Quando quer ser desembaraçada a maior parte das vezes é arrogante e mal-educada.

Resumindo e concluindo, não sei de mostra maior, de pretensioso pirosismo e falta de gosto, a qualquer nível.

É, por demais sabido, no entanto, que quando uma estação de televisão quer impor um produto usa da insistência como arma primordial.

Ela impinge - de acordo com as seus lucros e vantagens - o que lhe convém, sem um mínimo de reflexão, sobre as consequências do que impõe, por atacado, às famílias que cansadas de fatigantes dias de trabalho – sem possibilidade de escolha – se vêem na contingência  de ter que aceitar qualquer  entretenimento para os filhos, enquanto cozinham, lavam, passam a ferro etc...etc...   

Assim que, quer por saturação e cansaço, quer por falta de preparação ou de hábito de contestar, aceitam por princípio que o que chega até suas casas por estes meios em horário nobre, é bom de qualidade, como deveria ser, com certeza.

         No entanto, penso que será difícil, criar algo mais deseducativo, mais fuleiro e, mais perigoso para a formação da juventude, do que programas deste tipo.

É que, sob a aparência de ser uma “coisinha de nada”, só para distrair, se serve ao domicílio, várias vezes por dia, um veneno que assim ingerido em doses diárias, não mata. Não mata, mas causa habituação, e que actua como qualquer droga – corrosiva e devastadora.

             

Não mata, de imediato, – é verdade - mas pode estragar para sempre a saúde mental, o que resulta pior do que tomar uma dose poderosa de uma só vez.

É que nesse caso, as pessoas alarmam-se e procuram a cura – o que com esta forma dissimulada de perniciosa infiltração, às vezes, nos distrai e nos escapa, e vai atingindo os seus fins... com a eficácia dos venenos doces.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:12

A Nossa Casa

Sábado, 21.06.08

 

Ninguém a sonhou p’ra nós,

Foi construída, alindada,

Ao sabor de sonhos belos

De geração já passada!...

 

Não a comprámos tampouco,

Nem de herança ela nos veio…

Eu alindo-a para ti,

Tu trabalhas para nós

E pagamos para a ter

Um mês que passa, outro após!...

 

Mas esta casa que é nossa,

Porque nós vivemos nela,

Tem um quarto em que dormimos

E o quarto tem uma janela!

 

E o quarto tem uma janela!

 

Por baixo dessa janela

Por onde o meu quarto espreita

Nasce a bela-portuguesa,

Com que ela, toda, se enfeita!

Por ali entra o luar

E o cantar da passarada

Que dorme à sombra das rosas

Ao saudar a alvorada!...

Por ali entra o aroma

Da baunilha lilás

Que incensa o ar que eu bebo

Mais do que a própria glicínea

Com seus cachos é capaz!

 

Há bailados de perfumes!

Há sonhos vagos no ar!

Há sugestões doutros mundos

Desta vida sempre bela,

No encanto do meu quarto

Por ter a sua janela!...

 

 

E não sou eu só que espreito

O que a janela me mostra!...

 

Tu julgas que a glicínia,

Quando à reseira se abraça

E sobe pela parede,

Não quer ver o que se passa?

Tu julgas que esse botão,

Que esta manhã descobriste

Já dentro do nosso quarto

Quando à janela surgiste,

Vivera sob a folhagem

Até florir, despertar,

Se não tivesse o intento

De nos estar a espreitar?

 

E esta bisbilhotice,

Não me aborreço eu com ela!

 

-- Porque também é encanto,

Do quarto,

Mais da janela!

 

-- Ainda hoje…

Estava eu no meu sítio preferido,

Naquele sítio (tu sabes),

Onde uma mancha no chão

É saudade de um relógio

Que na outra geração

Da gente que aqui morava

Marcava as horas da vida

Do tempo que então contava…

 

Pois estava eu mesmo aí…

 

A pensar, como é costume…

Hoje, até pensava mal!...

 

Mal daquela rapariga

De quem não tenho ciúme,

Mas que tu achas bonita!

(A que é filha da mulher

Que os homens trazem na lama)

Quando o botão que tu viste

Na nossa querida janela

Me chamou com seu perfume!...

 

Colhi-o, era tão lindo!

-- E só então reparei

Que a roseira sua mãe

(essa bela-portuguesa)

Tinha nascido no estrume!...

 

E era nele que vivia…

 

No canteiro em que se cria

Para encanto da janela,

E também do paladar

A salva e a mangerona!

 

Isto…

Se eu não falar

Das arálias e dos fetos

Avencas e pelargónios,

Dos vasos de malmequer

E da bela sardinheira

Que são vizinhas contentes

Da verde hera trepadeira!

… E também do paraíso

 

Feito de cetim branquinho,

Com seus estames dourados,

E me traz ao pensamento

As flores que, ajoelhados,

Demos à Virgem Maria

Pelo nosso casamento…

 

(Abençoado esse dia!)

 

-- Pus a rosa numa jarra,

No quarto da nossa casa,

Tu trabalhas para nós,

Eu alindo-a para ti…

E pagamos para a ter

Um mês que passa, outro após!...

 

É pequenina, é verdade,

Mas ainda assim dentro dela

Cabe o nosso grande amor!

 

Que isto do “infinito”

Estar fechado em nossa casa…

É mistério do Senhor!!!

 

Maria José Rijo

24-Abril-1954

     

I Livro de Poemas

Poema nº 18

Pág. 93

Desenhos da Autora

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:27

VOU CONTAR...

Quinta-feira, 19.06.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.849 – 19-Janeiro-2006

Conversas Soltas

 

 

Há alguns anos, aí por volta de – 1.987 – um jovem amigo meu, o David Damião, fez uma exposição mostra de computadores no “velho” Museu Municipal, que me interessou vivamente.

Sempre as máquinas me perturbaram um pouco, porque sendo eu tendencionalmente uma artesã quase me assustam as capacidades fabulosas de que a maquinaria é capaz.

E, só “lhes perdoo” tanta eficácia porque, sendo embora as máquinas capazes de quase tudo, ainda é a inteligência do homem que as concebe e, são as mãos humanas que continuam a prodigalizar os afagos de ternura e a manter a linguagem do coração e dos afectos.

Devo ter dito tudo isso e muito mais ao David.

Devo ter-lhe dito também que me arrepiam os papagaios porque falam sem pensar, e que essa “qualidade” a meus olhos os assemelha com máquinas etc. etc. etc...

O que sei é que o meu jovem Amigo depois de me ter escutado com paciência e atenção me retorquiu afirmando daqui a uns anos quem não souber mexer num computador, é aquilo a que hoje se chama: - analfabeto.

 O David para mim simbolizava o homem do futuro. Era estudioso, inteligente, honesto e, interessado pela nova tecnologia. (Penso e desejo que a Vida o tenha tratado como ele esperava e merecia!)

Razões sobrantes para me fazerem ponderar a sua afirmação e toma-la muito a sério.

Reagi então dentro da lógica. Logo que os computadores começaram a aparecer por tudo quanto era balcão de loja, consultórios, seguradoras, mercados e mais não sei quê -  deitei contas à vida , e, favas contadas, comprei para meu uso esse tal “passaporte” para a margem oposta dos analfabetos.

E, o que começou por ser um convívio de cerimónia foi, com os anos tonando-se uma relação familiar embora ainda com algumas surpresas de percurso, e, sempre muito cautelosa, não vá “o dito” sem aviso prévio, exibir habilidades que não lhe peço e me deixam sempre surpreendida e desconfortável por denunciarem aos meus próprios olhos a minha profunda ignorância nestas modernices que degredaram as “auto-suficientes” canetas

de tinta permanente para a categoria de antiguidades e as deliciosas e românticas “penas” para  vestígios da pré-história...

Ora, confessadas as minhas atribulações com o progresso, é legítimo deduzir que “ainda” não ousei meter o nariz na Internet. Porém, como oitenta anos, só se fazem uma vez, e, é o meu caso, decidi que é agora ou nunca, que terei que tentar mais essa aventura, até porque, desta feita pela mão de uma jovem Amiga – que, como eu, se acha e perde entre livros e papelada, – tive conhecimento - este Natal - de que, por esse meio, me têm sido enviadas mensagens de apoio e crítica ao que escrevo, o que inteiramente ignorava.

Talvez, quem tão generosamente assim procede, nem por sombras possa avaliar o estímulo e, simultaneamente a responsabilidade que dessa circunstância me pode advir, e dar sentido à Vida.

È pois para esses leitores, hoje, em especial, esta conversa solta, ao correr da pena, que tenho a preocupação de endereçar a todos e a cada um, por sua vez, com a minha sentida gratidão e, os melhores desejos para 2006.

Bem Hajam!

 

   Maria José Rijo

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:31

Reivindico!

Quarta-feira, 18.06.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.719 – 18 /Julho/03

Conversas Soltas

 

Mandaram-me, pessoas amigas, uma bela fotografia tirada no deserto de Moçâmedes, junto a um exemplar dessa maravilha, que merece a toda a gente, visita e registo fotográfico, e, que é, nem mais, nem menos, do que a celebérrima Welwitchia mirábilis.

      

Este nome de Welwitchia, advém-lhe do nome do botânico austríaco Friedrich Welwitsch (1806-1872) que a classificou.

                

Trata-se de uma planta dos desertos quentes de África, em forma de volumoso cogumelo de cinquenta a setenta centímetros de altura que parece partida por um golpe de machado em dois pedaços, configurados por grandes folhas persistentes, podendo ultrapassar dois metros de comprimento.

 

As flores são em espiga, têm seis longos estames, anteras com três células e, o fruto é um cone escamoso, amarelo ou vermelho, de onde as escamas se separam isoladamente libertando as sementes – assim reza a botânica que consultei.

 

Ora, perante tanta celebridade, tanta fama, concedida a uma espécie vegetal só porque consegue viver na adversa secura de um deserto, não admira que me apeteça reivindicar igual ou maior fama, registo individualizado em botânicas e dicionários, glória e destaque para a nossa vulgar e saborosa MELANCIA.

       

       Quente como um deserto, é no Verão o nosso Alentejo.

Bafo de lume é o que parece que se respira na estiagem impiedosa.

 

Nessa estação, saem da terra esturricada pelo sol, ondas de calor que criam miragens aos olhos quase cegos por tanta luminosidade, de quem se afoitar a percorrer os campos silenciosos, onde ás vezes até as cigarras emudecem...

 

E, aí, nessas terras de sequeiro, nasce e se cria a melancia. Serpenteando rastejam seus ramos gavinhosos de grandes folhas verdes que o sol chamusca com a ajuda da aragem escaldante, que, como febre, contorce e resseca o viço de quanto se atreva a querer por lá medrar...

        

Pois aí, sem mais nem menos, com sua casca em tons de verde, escuro, claro, ou listada, na terra de aparência exausta e morta cresce, e engrossa a redonda, gorda e suculenta “citrullus vulgaris”, planta hortense de frutos comestíveis refrescantes e ricos em vitaminas A, B1, B2, e C.(como a retrata a botânica)

Não sei de onde ela extrai a água...

Mas, ela consegue esse milagre.

Depois, oferece-a transformada em sumo vermelho e doce que dessedenta, conforta e lambuza as bocas gulosas que a devoram na procura de consolo e de frescura que regala.

Reivindico, pois, fama e glória para essa milagrosa criação da generosa Natureza.

Afinal a sua origem é também a África...

E, como estamos num pais de permanentes contestações, exijo esta reparação.

Imediatamente!

Já!

Que ninguém mais visite o Alentejo, no Verão, sem levar orgulhosamente consigo, uma bela foto ao lado de uma monumental melancia!

 

           Maria José Rijo 

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:48

Ser Poeta

Segunda-feira, 16.06.08

.

Poesia não é gramática,

Não requer explicação,

Poesia, é sonho da alma

Só a sente o coração!...

 

Olhar as aves nos céus,

E vê-las notas de música

Da magistral sinfonia,

Que foi composta por Deus!...

 

Achar que o oiro é palha

Que nada vale na vida,

E ver a palha como oiro,

Na campina ressequida…

 

…É coisa que não se ensina,

Se vive, sente somente!

…Poeta é como ser mágico

Dos sentimentos da gente!...

 

Ser poeta… como nascer,

É tanto obra de Deus,

Que quando algum deixa a terra,

Nasce uma estrela nos céus!

 

Maria José Rijo

I Livro de Poemas

Poema nº 14

Pág. 77

Desenhos da autora

 

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publicado por Maria José Rijo às 17:51

Entrevista- Qual a sua maior aspiração?

Sábado, 14.06.08

ENTREVISTAS

Alentejo Ilustrado

Nov.Dez. – nº 16

1960

@@@

 

UM CURIOSO

QUAL A SUA MAIOR…

 

Uma poetisa sul-alentejana

 

 

 

 

A poesia está em toda a parte. Não podia faltar a este nosso inquérito.

Ela surge pela boca de Maria José Travelho Rijo, poetisa de fina sensibilidade,

Nascida em Moura e que presentemente reside em Elvas.

Eis o DESEJO maior da Autora de “… E vim cantar”.

 

 

 

-- A minha maior aspiração para este ano é igual à minha única aspiração de cada dia – cumprir.

Como vê – sou muito vulgar – aspiro ao mesmo que toda a gente, por certo.

 

 

 

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:56

D. Sancho e eu

Sexta-feira, 13.06.08

Jornal linhas de Elvas

Nº 2.291 – 17 de Março de 1995

Conversas Soltas

 

 

 

Não se avistava vivalma.

Ia eu, sem mais cuidar, no meu passo ronceiro, a atravessar a praceta, quando ouvi – nitidamente – alguém pronunciar o meu nome, chamando-me com insistência.

Anoitecia.

Olhei em redor! – Tudo deserto.

Bateu-me apressado o coração com a surpresa.

Parei gelada de espanto.

Tivesse eu escutado apenas - Maria…

Marias – há muitas:

Maria José, ainda daria para confundir! – Mas, com apelido e tudo era impossível duvidar que fosse comigo.

Serenei.

Curiosa, comecei a espiolhar à minha volta indagando em voz alta:

- Quem me chamou?

- Aproxima-te! – Vem cá! – Foi a resposta nítida iniludível.

E, surpresa das surpresas! Do alto do seu pedestal – D. Sancho II de Portugal – convocava-me com a autoridade que cabe ao grande conquistador da nossa terra.

Quase descrendo da evidência, correspondi ao apelo – mas, creio incrédula ainda, exclamei com alguma hesitação:

- Fostes vós, senhor, quem me chamastes? E, enquanto no meu espírito, atabalhoadamente, procurava referências para, sem gafes, dialogar com tão ilustre interlocutor – fui dando largas ao meu pasmo imenso e verdadeiro.

- Como é possível, Senhor! – Inquiri: - que concedais a honra da vossa atenção a tão ínfima criatura?

- Vós, Senhor, sabíeis o meu humilde nome? (aqui dei-me conta que “senhor” é também a forma de evocar Deus! – temi a heresia.

Teimosa, voltei a titubear – porém reconsiderei: … e lá no alto, nos poleiros, quem se julgam eles, senão deuses! – Não havia lugar para mais dúvidas – e, a conversa fluiu.

- Embora não me reconheça à altura da vossa real atenção: - Dizei! – Dizei, Senhor – o que pretendeis?

- Quero apenas conhecer-te.

- Mas já tanto me contaste! – Foi de cor? – Objectei…

- Queria apenas conhecer-te – insistiu – (aqui senti-me importante)

- Será ousadia minha, Senhor, indagar porquê? (disse indagar porque me pareceu menos vulgar de que perguntar e, isto de realeza pede punhos de renda…)

Com realíssima condescendência, D. Sancho II de Portugal – respondeu soberano:

- Cala-te! (que decidido, o rei!)

- Calo-me, porquê?! – Titubeei (vejam as palavras belas que o povo gasta com a realeza)

- Porque, aqui, quem fala, sou eu! (que querido! O rei.)

- E, vós sabeis tudo, tudo, tudo? (bisbilhoteiro! O povo).

- Tanto, também não! (que modesto! O rei).

- Eu passo aqui dia a dia, vós sabeis o meu nome, (perguntador e chato o povo!)

- Então achas que tanto basta para te conhecer? (que sensato, o rei!)

- Senhor! – Insisti, eu por vezes escrevo umas coisitas! (aqui, era eu, a dar-me ares…)

- Meu olhar está toldado! Ofuscado pelo reflexo da branca cal, empedernido… (é de pedra a estátua)

- Mas não estais cego? – (preocupado o povo!)

- Governo-me muito com o ouvido! (não é mouco o rei! – olha que bom!)

- Que pena eu não saber cantar mas apenas leio um bocado… (era eu puxando à cultura)

- Permiti-me que vos lembre Sancho I! – Tão dado à poesia:

“ …. Muyto me tarda

         O meu amigo da Guarda.”

- Lá estão vocês a querer dar autorias ao outro! Quem escreveu essas tretas foi Afonso X de Castela!

- Não sejais invejoso, Senhor! (o povo quando perde as estribeiras diz cada coisa…)

 

- Eu também sei que há dúvidas, mas vós devíeis reconhecer que, na circunstância era mais justo puxar a brasa à sardinha portuguesa!

- Não quero falar de pescas! – (retorquiu agastado o rei!) – esse dossier não é meu.)

- O meu reino é de sequeiro. (convicto, o rei!)

- E, como obviais a tais obstáculos (quando se cala o povo?!)

- Que julgais de mim! (altaneiro! O rei)

- Não sabeis porventura que até os que abriram balneários sem cuidar de nascentes abastecedoras vão ter frescos caudais a correr-lhe à porta?! (esclarecedor o rei!)

- Permiti-me então que vos diga: - com grilos, como tendes na consciência, será curial perderdes vosso precioso tempo mandando vossos segréis gastar inspiração e rimas com tão ínfimos servos, indefesos, como eu! Lembrai-vos como já é horrível a estação de muda (estamos no tempo da cavalaria) frente ao maior e mais belo aqueduto erguido em terras ibéricas.

- Fazei que cantem com voz troante o semelhante e tremendo evento que se avizinha!

- Cantai o arraso que fazeis a belas memórias…

- Cantai o aquartelamento que há-de assombrar a luz gloriosa daquela clareira antiga onde o povo vai rezar…

- Cantai o desprezo a que foi votado o espaço onde se homenageiam e guardam ecos do passado que se esfumam sem deixar rasto…

- Cantai os peregrinos que por lá aboletastes… e nos seus “êxtases” de tudo são capazes…

- Cantai tanta ousadia e glória para que fique na história.

- Nós sabemos Senhor, que vos mostrais em campo aberto – exposto aos ventos – e contrários eles são!

- De um lado sopram leis emanadas do senado, do outro, emanam das albergarias o perfume gostoso dos tachos…

- Às costas pesa-vos a história – em frente – transparente, transparente a ânsia de glória!

- Difícil é ser rei, Senhor!

- Mas… será que! (disse eu, reticente, me calei)

- Diz! Diz o resto! – acaba a frase R.S.F.F – (insistiu o rei inclemente)

- Isso não farei! – (aqui, ambos irritados já éramos tu cá, tu lá…)

- Não ouses contrariar-me! Olha! Olha! Olha!...

- Olha, o quê?

- Olha o cartão – não lês R.S.F.F.?

 Pois se não respondes – não terás lugar  à mesa do banquete.

- Que banquete?

- Há sempre fina recompensa para quem assiste aos torneios.

Ora, não é que de repente acordei ao som das minhas próprias gargalhadas!

Então, perguntei a mim própria porque ria.

Talvez porque rir é o melhor remédio.

Pensei.

No chão, em meu redor, revistas e jornais exibiam retratos de reis e príncipes de Espanha, do herdeiro do trono de Portugal.

Era evidente – a realeza é o tema do momento.

Influenciada sonhara.

“Honny soit qui mal y pense”

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:13

Reminiscência - nº 32

Quinta-feira, 12.06.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.973 – 12 Junho de 2008

Conversas Soltas

Reminiscências - nº 32

         

 

As mulheres lá na aldeia quando viam uma pessoa magra diziam sem hesitações, -  coitada ! Parece que não come pão de gente.

Em contrapartida se eram avantajadas de peso, eram apreciadas como sendo tão “profêtas que tinham um pêto que nã viam-na barriga e uma barriga que nã viam-nos péis”.

Era portanto esse o paradigma, a referência, para a perfeita formosura – volume!

 Mais ou menos a situação de que hoje, se diria – necessita banda gástrica – mas... Era assim.

Ao ter conhecimento do desaparecimento recente de um célebre costureiro francês, cujos figurinos vestiram com a maior elegância estilizadas beldades do nosso tempo, por uma destas ligações inesperadas da memória, fiz o confronto íntimo entre estas duas tão diferentes noções de beleza e a evolução de modas e costumes, através dos tempos, mesmo nesses povoados perdidos nas lonjuras das distâncias do Alentejo, onde nem os jornais chegavam e a que hoje a televisão, igualiza os anseios e os sonhos.

Dei então comigo a sorrir e quedei-me enfronhada em lembranças desses tempos que mais ou menos, sempre me divertem, mas, não menos, me dão razões de angústia, para pensar.

Porque, num meio tão pobre, onde o trabalho era sazonal e entre tarefas, sempre, ligadas a actividades das lavouras, em que mais ou menos todos ganhavam o pão de cada dia, havia épocas em que a maioria não tendo trabalho, não tinha de que viver, – e tinha que mendigar, envergonhada, de monte em monte para conseguir subsistir, – não seria de esperar que a magreza, que poderia ser, traduzível, por fome, pudesse competir- em beleza -  com a imagem de um avantajado físico que  evocasse  mesa farta...

Esses tempos, estão a várias décadas de distância dos meus dias de hoje, mas, foi tão marcante para a minha formação tê-los presenciado que deles guardo até hoje a lição de Vida que deles apreendi.

Logo a seguir a ter terminado a quarta classe, a ida para o Liceu afastou-me, fisicamente da aldeia, embora, a marca da sua vivência, como um ferro em brasa, - dela – e da sua gente, me tenha feito para sempre - pertença.

Tudo isto porque evocando os meus nove ou dez anos, a que reportam estas memórias pensei nos jornais infantis que então a criançada lia. Eram o Senhor Doutor, era o Tim-Tim, outros que agora não me ocorrem e, era também, o suplemento infantil do jornal “O Século” o – Pim-Pam-Pum.

                  

Pois esse suplemento que, saía semanalmente, contava as aventuras de uma rapariga assaz desempoeirada que se chamava Farolinhas Faroleta  e que se tornou o meu ídolo de criança.

Para me parecer com ela, copiei o seu penteado com risquinha o meio e tufos de cabelo de cada lado da cabeça

 Já que não a podia imitar pilotando avioneta, viajando pelo estrangeiro, e era impensável que me deixassem fazer um fato de xadrez com uma manta de viagem, ou, outras coisas que tais, que a minha heroina inventava e deliciavam a minha fantasia de criança, pelo menos a “ moda” do cabelo não perdi.

Que, isto de modas, é mesmo assim: - têm que ver com o nosso mundo interior para que nos assentem como segunda pele e nos deixem confortáveis.

 

Maria José Rijo

 

 

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Pensamentos de Mª José

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@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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