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Pergunto-me...

Domingo, 22.06.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.887 – 12/10/06

Conversas Soltas

Não vou apodar, simplesmente, nem de isto, nem de aquilo, a telenovela que a SIC serve ao domicílio três vezes por dia, com a regularidade de quem ministra um medicamento imprescindível para a salvação da humanidade.

Não vou! – Mas vou pensar alto, porque, talvez assim encontre o fio da meada que em vão procuro para entender o fenómeno que, afinal, nos atinge a todos.

             Luciana Abreu - Floribella

Atinge a todos porque é particularmente pensando nos jovens que toda aquela trama está sendo concebida.

É, pois, por essa razão que me pergunto:

Que formação se pretende dar à juventude de um país quando para ela se congeminam novelas daquele nível?

É proibido dar trabalho a jovens com menos de X anos de idade; depois, aparecem crianças quase na primeira infância, representando, enredadas em tramas onde a mentira, a dissimulação, a vigarice, e toda e qualquer porcaria moral tem lugar de relevo, como hábitos normais...

E, como se isso não chegasse, os seus diálogos desenrolam-se em torno de paixões e amores precoces, como se as crianças, só isso pudessem copiar das atitudes adultas e não pudessem aprender a falar sobre outros temas, cultivar outros valores e, conviver entre si em alegria, de alma limpa, sem o peso de preocupações tão fora do âmbito das suas idades, compreensão, e justos sonhos...

Como se, porém, isso não bastasse, a heroína da saga, em lugar de conversar, argumentar com inteligência, berra num desvario se algo a contraria, e, quando quer ser doce e amável, quase sempre parece parva. Quando quer ser desembaraçada a maior parte das vezes é arrogante e mal-educada.

Resumindo e concluindo, não sei de mostra maior, de pretensioso pirosismo e falta de gosto, a qualquer nível.

É, por demais sabido, no entanto, que quando uma estação de televisão quer impor um produto usa da insistência como arma primordial.

Ela impinge - de acordo com as seus lucros e vantagens - o que lhe convém, sem um mínimo de reflexão, sobre as consequências do que impõe, por atacado, às famílias que cansadas de fatigantes dias de trabalho – sem possibilidade de escolha – se vêem na contingência  de ter que aceitar qualquer  entretenimento para os filhos, enquanto cozinham, lavam, passam a ferro etc...etc...   

Assim que, quer por saturação e cansaço, quer por falta de preparação ou de hábito de contestar, aceitam por princípio que o que chega até suas casas por estes meios em horário nobre, é bom de qualidade, como deveria ser, com certeza.

         No entanto, penso que será difícil, criar algo mais deseducativo, mais fuleiro e, mais perigoso para a formação da juventude, do que programas deste tipo.

É que, sob a aparência de ser uma “coisinha de nada”, só para distrair, se serve ao domicílio, várias vezes por dia, um veneno que assim ingerido em doses diárias, não mata. Não mata, mas causa habituação, e que actua como qualquer droga – corrosiva e devastadora.

             

Não mata, de imediato, – é verdade - mas pode estragar para sempre a saúde mental, o que resulta pior do que tomar uma dose poderosa de uma só vez.

É que nesse caso, as pessoas alarmam-se e procuram a cura – o que com esta forma dissimulada de perniciosa infiltração, às vezes, nos distrai e nos escapa, e vai atingindo os seus fins... com a eficácia dos venenos doces.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 23:12





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