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'Sinto a saudade mais perto'

Sexta-feira, 04.07.08

CONVERSAS SOLTAS

 3 de Julho de 2008

Nº 2.976

Jornal Linhas de Elvas

Fernando Pessoa,

 

'também' escreveu sobre os sinos. Aliás na nossa literatura, muitos poetas e prosadores dissertaram sobre esse tema.
Alguns, limitaram-se a fazer-lhe referências, quando retratavam costumes das nossas gentes e, sempre que de temas campestres se falava, lá vinha a referência ao toque das Avé-Marias por ser das tradições mais arreigadas na alma do nosso povo.
Assim ao correr da conversa, ocorre-me por ser alentejano, o Conde de Monsaraz, no célebre poema ;- Tragédia Rústica .


'Quando o sino batia
As doze badaladas do meio-dia,
O trabalho parava.
E todo o bom católico rezava,
De cabeça inclinada e olhos no chão,
Um Padre-Nosso e uma
Avé – Maria,
Com o chapéu na mão. ‘
[Este escritor viveu entre 1852 e 1913]


O sino, é uma referência sempre presente na nossa cultura de católicos.

O sino, quase pode dizer-se, que, se não comandava, pelo menos pontuava a vida de aldeias, cidades e lugares.

sino1.gif
Até nas lendas com que se entretinham as crianças, quando a cultura era mais oralizada lá vinham as referências aos sinos:
'Tocam os sinos da torre!
Ai, meu Deus - quem morreria!?
- responde o filho de colo que inda falar nem sabia:
- morreu Dona Silvana pelo mal que fazia
- descasar os bem casados, coisa que Deus não queria'


Os sinos tocavam a rebate nas desgraças.
Os sinos repicavam nas festas.
Os sinos 'dobravam ' nos funerais...
Os sinos, sempre foram e são os anunciantes dos actos religioso que regem as nossas vidas de católicos.
'Foi a enterrar, como um cão, nem o sino tocou', dizia-se também nas histórias para execrar o comportamento dos bandidos e proscritos.
E, estas referências, passam de geração em geração, agarram-se

à nossa alma, fazem parte dela e entram nos nossos costumes

mais queridos.
- Vê se ouves o sino para irmos ver a noiva a sair da Igreja...
- Vê se ouves o sino para não faltarmos à Missa ou à novena...
- Vê se ouves o sino para não faltarmos ao funeral...
Mas o sino do cemitério de Elvas, não tem espalhado pelos ares a notícia da dor que até aqui sempre anunciava...
- Vêm perguntar-me porquê? - que não entendem - queixam-se...
- Não sei. É o que posso responder.
Mas, posso relembrar a todos, como Fernando Pessoa falou dos sinos. Para que se entenda que o assunto não é de brincadeira...

 

 

 

 

Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida

Por mais que tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho
Soas-me na alma distante

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto
Sinto mais longe o passado
Sinto a saudade mais perto

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publicado por Maria José Rijo às 12:17





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