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O Preto no Branco

Sábado, 02.08.08

Maria JOSÉ RIJO

Conversas Soltas

 Nº 2.980 - 31 de Julho de 2008

Jornal Linhas de Elvas

 

.

Escrever, não pode ser uma obrigação.
Nem sequer uma devoção. Escrever, tem de ser, para valer como verdade, uma necessidade tão premente quanto respirar.
A escrita é dádiva para quem lê, e, honestamente só se deve dar como se gostaria de receber, o fruto são.
Escrever, não pode ser, fazer sala, fazer bonito, passar tempo, fazer que anda, mas não anda, nem mastigar as palavras como se fossem feno na boca de ruminantes para facilitar a sua assimilação.
Nem pode ser escolha de prendas decorativas para enfeitar uma cantareira.
As palavras são amor e ódio, são bálsamo e arma, as palavras são entendimento e discórdia - são vida e morte.
Podem-se congeminar ideias, deixa-las andar às voltas na cabeça e no coração, esmiuçá-las, desfaze-las e voltar a liga-las como quem da terra faz barro e, voltar a encontrar-lhes sentido gosto, mas, quando elas se fixam no papel, como escrita, aí, já não são mais – só - de quem as escreveu. São de quem as ler e, nada garante que nelas encontrem o sentido de que foram imbuídas por quem as proferiu.
Porque então já soltas do controlo de quem as elegeu, ganharão a medida de quem, lendo-as, as aceita como coisa sua, ou as rejeita como corpo estranho. Um espinho que acidentalmente fere, ou se grava na ponta de um dedo. Tão pouca coisa! - Um pontinho apenas. Quase imperceptível. Sem óculos, nem dele se dá conta, mas incómodo e doloroso, como um remorso e, como ele, a tudo subjacente e omnipresente em proporções tão exageradas, como se fora todo o corpo a ter expressão apenas, por aquele único e diminuto ponto.
Num longo discurso, numa palestra, numa crítica, em tudo que por palavras se formule, vai implícito o sentimento, a visão, a compreensão, que, quem escreve, tem do mundo que o cerca.
É por isso que escrever é descobrir-se, é expor-se  é ficar de alma nua, na fealdade ou na beleza que cada qual possa atingir.
É por isso que escrever, como falar, implicam responsabilidade, porque são atitudes de compromisso.
São vínculos.
São retratos de alma mais fieis, mais identificadores do que fotografias. Nelas, sempre qualquer rosto pode parecer o que não é, ou, ser o que não parece...
Na palavra que se solta, por acaso, ou deliberadamente, ou na escrita que a aprisiona ficam as marcas indeléveis não do que parece ser, mas do que vale e é.
Escrita, e palavra, não se desmentem.
Elas engajam - comprometem.
São como a impressão digital de um carácter.
Individuais - únicas.
Mesmo quando usadas sem rigor - dizem rigorosamente o que nelas se pode ler.
Só e apenas
Preto no branco...
Maria José Rijo

 

 

 

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publicado por Maria José Rijo às 14:45





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