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O céu está sempre por cima...

Quinta-feira, 14.08.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.736 – 21-Novembro-2003

Conversas Soltas

 

 

Era uma vez, um menino que sem referências de Pai ou de Mãe, foi parar a uma Instituição Estatal, onde eram recolhidas centenas de outras crianças, igualmente desamparadas.

Era uma vez um menino, perdido dos afectos naturais de uma família...

Era uma vez um Menino Só!

– Só -  frente à adversidade.

Era uma vez um Menino, vítima da sociedade que todos constituímos...

            

Era uma vez, um menino que foi confiado a essa sociedade!

Era uma vez uma criança - que NOS foi confiada - para ser protegida, amada, ressarcida de tudo de que tão precocemente , e tão sem culpa, e sem pecado, fora privada...

Chamemos- lhe , por exemplo: - Bibi...

Era uma vez....

Era ... é... são tantas, tantas as vezes, em que assim se urde a génese dos crimes de que depois, somos acusadores e juizes impolutos, e, inclementes...

Era uma vez!..

Quem dera que fosse a - última vez - em que das vítimas se fazem carrascos.

Em que das vitimas - permitíssemos - que se fizessem carrascos.

Não venho pedir abraços, nem complacências, nem a lagrimazinha hipócrita, para quem perpetrou horrores violando indelevelmente, mais do que o corpo, a alma de outras crianças...

Venho verberar o silêncio de dezenas de anos, em que os responsáveis por essa situação conviveram com indícios, suspeitas , certezas até, de que tais crimes existiam e, desse conhecimento foram lavando as mãos , como Pilatos!

Venho questionar essas consciências.

Venho lembrar que no dia, em que esse indivíduo, hoje um   adulto, apontado a dedo como desprezível, e por todos  vilipendiado, se sentar no banco dos réus, nesse dia, o que dele for dito, deve ser contabilizado pelas consciências das pessoas que tiveram cargos que os obrigavam a prever e acautelar estas desgraças, e não o fizeram, ainda quando, para tal, foram alertados.

Numa atitude lassa e cobarde, foram descarregando para outros as iniciativas, difíceis, embora, que lhes cabiam tomar.

Para tanto eram, e ganhavam como chefes, e arrotavam importância.

O último dessa cadeia, porventura , o mais vulnerável está a braços com a justiça.

Nele se concentra, agora, todo o ódio e toda a raiva da nossa sociedade distraída e permissiva.

                

Ter para quem descarregar todas as responsabilidades, todo o odioso, talvez  dê a alguns a ilusão de uma inocência que sabem ser falsa.

Porém , assim se salvam as aparências, comme il faut!

Creio, porém, que ao verem o criminoso, desgraçado, infeliz, patético e humilhado como ser humano em que Bibi se tornou, dentro de si próprios se confrontem com o olhar de qualquer das crianças que amam, e sintam com remorso e com vergonha que aos quatro anos um menino SÓ  pediu a mão para ser Homem e não lha deram, deixando-o cair até ao fundo da pior miséria humana...

É esta a justiça dos Homens.

Graças a Deus, “o céu está sempre por cima”!

 

      Maria José Rijo

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publicado por Maria José Rijo às 01:01





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