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... Lá e Cá...

Sábado, 23.08.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.370 – 4-Outubro -1996

Conversas Soltas

 

 

      Quando parece que já nada nos pode surpreender surge, ainda e sempre qualquer coisa que de tão inesperada nos enche de pasmo. Aquela bizarra história de uma criança de seis anos estar suspensa das aulas, do seu “Jardim-de-infância”, sob a acusação de assédio sexual a uma sua companheira de brinquedos – é um achado!

        Crianças palestinas no sábado-feira

        Até porque o “crime” se materializou com um beijo na bochecha de outra criança para além do espanto, também nos cabe o direito de ficarmos vivamente preocupados.

        Não com a miudagem – claro! – Mas com os adultos de países ditos civilizados – mais! – De civilizações avançadas – que nos oferecem estes pruridos de inesperadas purezas.

           Brasil Contra a Pedofilia erotização precoce

        Pensam-se, amadurecem-se e redigem-se normas internacionalmente aceites – os direitos das crianças. Discutem-se nos mais sofisticados areópagos das sociedades para seres tão frágeis, desprotegidos e indefesos como são os humanos na primeira infância...

        Depois uma senhora directora de um infantário – uma mulher – decide e muitos aprovam que aquele “bisganho” de olhinho azul e óculos a escorregar pela ponta do nariz (a televisão forneceu a imagem) fosse excluído de entre a sua turma apenas por um beijo.

         Por estas e por outras que tais, cada vez me sinto melhor na minha pele de portuguesa.

        Cá pelos nossos lados nenhum bestunto ousaria tão peregrina decisão.

        Por cá, dizia-se com toda a bonomia espinho que nasce para picar, nasce logo com o pico” – se se quisesse arvorar malícia. Porque a mãe da menina, desvanecida, alegrava-se ao ver que a filha tinha cativado um amigo e, a mãe do “meliante” julgaria por sua vez que o filho era sociável e meigo e estava feliz na escola como se estivesse em casa.

        Ambas as mães concluiriam que era saudáveis as crianças criarem amigos desde a escola, que isso ajuda na formação do carácter, estimula o desejo de aprender, combate a timidez e dá mais segurança à garotada.

        Depois, ao jantar, à mesa contariam o episódio em família.

        Os irmãos mais velhos, se os houvesse, haviam de rir e de os arreliar dizendo que eram namorados.

        E, fosse quem fosse que fixasse no episódio alguma atenção, havia de o fazer com a tolerância que sempre nos invade o coração quando se pensa ou diz essa palavra mágica – criança.

               

        Por isso, juro! – Penso que posso jurar – não passaria pela cabeça de ninguém da nossa gente envergonhar ou emporcalhar a inocência de qualquer criança por um gesto que, para nós, só tem uma leitura: ternura.

        Até pensei que a sábia ou... sabida directora para entender que há outras maneiras de estar na vida devia escutar, como terapia à portuguesa, o Carlos do Carmo a cantar “os putos”.

              

        Ando com um certo pendor para concluir que um dos maiores males destes nossos preclaros tempos é tanta gente saber tanto de tanto coisa que, sabendo demais se esquecem de escutar o coração.

        Ás vezes afogado em normas e deduções deixam passar o tempo e esquecem-se de viver.

       

        Razões de sobra vou tendo para repetir: Não me impinjam mais teoria de mais isto ou mais aquilo!

        Deixem-me a alma livre e solta e o coração aberto para me comover com a beleza das gotas de orvalho sobre uma flor qualquer que ela seja – sem perturbações de espírito ou eróticos conflitos interiores só porque as flores têm androceu e gineceu!

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:44





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-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






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Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


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