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Sexta-feira, 29.08.08

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.693 – 17 – Janeiro - 2003

Conversas Soltas

                   

Que a morte é apenas um dia das nossas Vidas, disse com admirável dignidade um Homem que sabia que estava a conviver com a proximidade do fim da sua existência.

                Joao_Amaral.jpg

Chamava-se João Amaral e foi no dizer de todos os seus contemporâneos, um homem notável.

Só que, não foi notável, pelos cargos que ocupou, mas sim, pela forma como os desempenhou, pela sua excelência como ser humano.

Como qualquer espectador anónimo, mas atento, eu conhecia o doutor João Amaral dos écrans da televisão, de onde, aliás, como a maioria dos portugueses, conhecemos todos os políticos.

Não tenho dúvidas de que em todas as suas intervenções – deixava, como algumas outras figuras políticas, - poucas, infelizmente – uma impressão de imparcialidade, saber e honestidade que o tornavam credível, quer para os seus partidários, quer para adversários políticos.

Lembro-me também de uma sua participação num programa, um tanto ou quanto brejeiro, onde parecia impensável ver a presença de um comunista, a não ser, claro, que se tratasse de um homem charmoso, culto, inteligente, com sentido de humor, e seguro de si como ele deve ter sido, ou, pelo menos, parecia ser.

Refiro, “na cama com” em que, como todos os outros intervenientes que o antecederam, ou lhe sucederam, aceitava o provocante desafio de dialogar com Alexandra Lencastre.

Ninguém pensaria por exemplo, ver Carlos Carvalhas numa situação idêntica!

É essa, outra das diferenças, entre os que conservam a liberdade de espírito, e, aqueles que adaptados às viseiras, só enxergam numa direcção.

Pensemos no que lhe aconteceu a nível partidário...

Mas, não é disto que eu venho falar.

Venho, sim, partilhar com alguns leitores, que por ventura tenha, o apelo de consciência que a frase de João Amaral me propôs.

“Afinal a morte é apenas um dia da nossa Vida”; foi o que corajosamente disse.

É apenas um dia da nossa Vida!

 - Nunca eu, pensara isso, pensara assim... mas, agora, que me detive a sopesar o valor desta afirmação, não resisto a acrescentar:- um dia, sim!- mas o último.

Se pensarmos também no desaparecimento – bem recente - de Zé Viana, havemos de ser levados a crer, que se a frase fora dita por ele, seria da apoteose, da cena final do último acto duma representação, que ele falaria.

Do encerrar do espectáculo.

O momento em que se reafirma em força, em beleza, em cor, em luz, o sentido, a mensagem, daquilo, que de traz se vinha somando – o clímax, – o fecho de um todo.

Eram ambos comunistas.

Convictos, honestos, admiráveis nos seus diversos percursos de Vida.

E, nós os católicos? – se a frase tivesse sido proferida por um qualquer de nós que sentido lhe emprestaríamos?...

Ao pensar no último dia teríamos que ser levados a crer que esse último – sendo um, qualquer que ele fosse, qualquer que ele seja - é o primeiro de um regresso prometido.

Simultaneamente, fim e princípio.

Daí que nunca será para nós apenas, um dia, mas o dia!

perdao-filho-prodigo.jpg

Remoendo estas ideias, talvez por influência do livro que tenho em mãos – O regresso do filho pródigo – de Henri NouwenMeditações perante um quadro de Rembrandt”... Foi para a parábola de: - o filho pródigo – que, mais ou menos todos somos - que o meu pensamento voou.

E, fixei-me na mensagem de esperança que ela encerra.

É que na verdade, pelo menos para quem crê, o último dia, pode sempre ser o primeiro, – do regresso – porque a porta está sempre aberta para quem, das penas, que causou, carregue arrependimento, e do bem que tenha conseguido fazer apenas guarde a alegria de ter andado no caminho da confiança, que a todos é proposto.

Da Paz, que conseguirmos estabelecer nos nossos corações, entre o “filho mais velho”, e o “filho mais novo” que sempre habitam em nós, dependerá, por certo, a leitura que até ao derradeiro instante haveremos de fazer entre último e primeiro.

 

   Maria José Rijo.

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:03





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