Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
É bom lembrar
Jornal Linhas de Elvas
Nº – 2.474 – 16- Outubro -1998
Conversas Soltas

(A propósito de um livro do Dr. Martinho Botelho)
Quando a pastelaria “FLOR” encerrou fui das poucas pessoas que nada disse sobre o facto. No entanto, o seu desaparecimento, atingiu-me com um sentimento de perda irreparável.
Para alem da excelente doçaria, do acolhimento de patrões e empregados, do ambiente de família que lá se desfrutava, para mim, e julgo que para muitos outros, a pastelaria “FLOR” era, também, a imagem de uma certa época em que o convívio não se alimentava de “copos” nas noitadas mas, da boa cavaqueira à luz do dia, com chazinho ou capilé e salsa parrilha, para não secar a garganta.
Estou a pensar naquele tempo
José Tello era um homem de personalidade forte, leal aos seus amigos e de convicções seguras, era um homem ilustre, senhor de uma invejável cultura e sabedoria.
Muitas vezes me falou de António Sardinha, que muito admirava, de quem foi amigo verdadeiro ao ponto de ter sido ele quem o amortalhou, segundo me contou sua mulher e minha querida amiga S.ª Dona Maria Vitória.
Não era demais que em Elvas se fizesse uma edição de muitos dos seus escritos que dormem esquecidos em arquivos de jornais.
Esta ideia foi lançada aqui, no Linhas de Elvas, pelo Senhor Dr. Martinho Botelho ainda em vida de José Tello, e sei que lhe foi grata.

Ao ler um livro (Apontamentos) sobre Campo Maior da autoria do Martinho Botelho - em edição do autor datada de 1996 - livro que durante algum tempo tive à cabeceira e que de vez em quando ainda vou relendo, sem quase dar por isso, associei os dois .
Homens sábios, a quem, por vezes, as suas próprias gentes não pagam como eles merecem a dedicação e a generosidade com que, quase esbanjando, partilham conhecimentos que no estudo e na inteligente observação e investigação foram acumulando sem mais pedirem do que a consolação intima de cumprir um dever. Ensinar, dar a conhecer, fazer amar as terras que lhe são berço é o objectivo que os guia.
Confesso que gosto “de revisitar”, (como diz um grande amigo meu) de vez em quando, trabalhos como este do Dr. Martinho Botelho que num estilo coloquial, como quem conversa com os seus amigos, desbobina e liga histórias de pessoas, acontecimentos, circunstâncias, que no seu conjunto nos fazem descobrir as raízes dessa terra castiça e bonita que só quase é conhecida pela habilidade criativa com que a suas gente a veste de flores por altura das festas do povo.
Homens destes, são memória viva, são história, são corações pesados de conhecimento a pulsar numa entrega abnegada aos outros homens. São os beneméritos da alma. Quase se escondem. Quase pedem perdão.do valor que têm e vão passando quase ignorados. Depois, quando um dia partem, então, pelo vazio que a sua ausência cria todos se apercebem de como foram notáveis e generosas as suas existências.
Com a consciência de que todas as horas de esquecimento podem ser por nós transformadas em horas de justiça; a dois anos de distância da sua publicação, cabe-me
pela negligencia, pedir desculpa ao autor de “Apontamentos” por só agora expressar publicamente o meu apreço e gratidão pelos ensinamentos que do seu trabalho recolhi.
.Obrigada. Muito obrigada.
Maria José Rijo

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Surpreendente
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.479 – 20-Novembro-1998
Conversas Soltas
Eu não tinha visto o programa.
Quando anunciam uma rubrica nova, vejo-a uma vez, ou duas, para fazer o meu próprio juízo. Depois, ou a excluo do meu interesse, ou a continuo a ver.
Para estas” criações “da Teresa Guilherme confesso: não tenho poder de encaixe!
Cativada, como foi, a nossa atenção para o incidente havido com o programa do João Baião não resisti à curiosidade e...
Surpreendente pelo menos para mim, foi a atitude de Santana Lopes!
Por mais que pense e repense não consigo vislumbrar porque atalho, caminho ou vereda foi ele desembocar naquela ideia peregrina de sair da vida política por uma rábula do João Baião!
Se o programa era da responsabilidade da S.I.C. processava a S.I.C. e deixava os ministros e o presidente da Republica na santa paz do Senhor.
Como alternativa a esse procedimento, só encontro uma outra solução, que era sermos nós todos a processar a S. I.C. pela confusão que faz entre graça e chalaça, entre caricatura e insulto, entre temas susceptíveis de serem ironizados e outros que cabe a todos manter a salvo de qualquer beliscadura.
Por exemplo: - a que título para referenciar gastos, ou proventos, se invocam os filhos de Santana Lopes! Claro que esta seria uma das considerações a fazer, no caso do programa merecer alguma reflexão séria, que nem merece. Apenas suscita desprezo por ser moralmente nojento.
João Baião quando aparecia nos programas de
Agora os papeis que lhe destinam são tão inferiores que apetece perguntar: onde está o João Baião? Mal empregado deixar-se afundar em tanta idiotice.
Mas, aqui o que me merece reflexão é o caminho que todos nós estamos permitindo que a nossa vivência comum esteja a ter. Sobre isso é que é urgente reflectir.
Quem somos nós que consentimos uma televisão tão sem qualidade e tão perniciosa?
Quem somos nós se somos capazes de rir, sem ser de dó, de piedade, por nós próprios, com espectáculos degradantes como alguns que a S.I.C nos impinge?
Estas coisas vêm na linha de outras...
Quando se contrata e acha graça que uma criança na horas em que deveria estar a dormir, esteja sobre um palco, a divertir adultos, cantando histórias de bacalhau e alho e outra sandices que tais, o que se espera senão a degradação progressiva dos costumes!
Quando se interdita o trabalho a menores mas se autoriza esse trabalho, embora nefasto para a formação e carácter de uma criança, como se pode contar com a responsabilidade de cada um pelos seus actos e respeito pelos outros! Estas atitudes encadeiam-se umas nas outras temos que o reconhecer.
Se alguém tivesse feito graça mas, graça de verdade, com afirmações de Santana Lopes, como por exemplo aquela de achar que quantas mais as sondagens lhe são favoráveis, mais o incomodam, até podia dar para rir.
Se ele como outros políticos, por aí andam a fazer, começasse os seus discursos a propósito de tudo e de nada a empertigar-se dizendo que são os mais votados e o melhores do mundo, essas atitudes são susceptíveis de ser ironizadas pelo ridículo que contêm, porém, a pessoa em si, não.
E quem não for capaz de reconhecer a fronteira, entre a graça possível e o insulto, entre a pessoa e o dito, entre a pessoa e a atitude, quem pisar essa fronteira e se tornar insidioso, que responda por ofensa a pessoas de bem.
Às vezes, frente a certos programas, lembro-me da minha avó. Quando, em crianças, nos ouvia chamar burras, ou estúpidas, umas às outras. É que então, ela, dirigindo-se a minha mãe inquiria muito séria :- porque é que a menina ainda não lhes pôs pimenta na língua ? Vai ver que depois hão-de ter mais cuidado com o que dizem.
Pois é! Muitas vezes, agora, penso, que com piri-piri ou pimenta na língua – na hora certa – (que se calhar já passou) também se teria resolvido muita coisa...
Maria José Rijo














