Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Em tempo certo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.468 – 4-Setembro-1998
Conversas Soltas
Aqui o temos - como todos os outros - em tempo certo!
É o nono, é Setembro!
Quando ele se aproxima, o meu coração de elvense, tem um vibrar diferente.
É verdade! - E, penso que, como também acontece num qualquer Natal, assim acontece nesta época, com todos os elvenses.
Setembro é o mês das evocações, é o mês das saudades, o mês das celebrações.
Começo pela casa: -“ o nosso Linhas”, completa quarenta e oito anos de idade.
É data de festa para celebrar - celebremos !
Celebremos com a alegria e a responsabilidade que a efeméride suscita a todos quantos reconhecem que só por mérito próprio, muito principalmente, um jornal de província, não desmerece ao longo de quase meio século do apreço e estima dos seus leitores e assinantes.
Saudemos com gratidão e amizade quem o produz, – desde quem o pagina a quem o escreve e a quem por ele se responsabiliza e lhe traça com coragem e isenção o caminho do futuro, e, também, a quem discreta e obscuramente lhe dá vida
Saudemos os seus assinantes e leitores, todos quantos lhe querem bem!
Depois, inevitàvelmente, outras lembranças se perfilam na memória.
Foi em Setembro que o seu fundador partiu. Vão oito anos, já, depois desse dia.
Evoco Ernesto Ranita Alves e Almeida!
Honremos com saudade e respeito a sua memória e, evoquemos também o “Fausto”e todos quantos deram, a seu jeito , muito da sua alma a este jornal e também já partiram.
Escrevo como paradigma um outro nome.

Um nome apenas: - que mais não é necessário: - José Tello.
Por estas e outras demais razões eu sinto que Setembro com a aproximação das festas cria na nossa cidade um clima diferente só comparável em emoção com a envolvente ternura dum Natal.
Não há coração de pobre ou rico que não guarde uma referência por pequena que seja relacionada com as festas de Setembro, a data aglutinadora, por excelência das gentes da nossa região, em que todos correm para o abraço de familiares e amigos e para ajoelhar crentes e submissos aos pés do Senhor Jesus da Piedade. - Para o calcorrear vezes sem conto arraial acima e abaixo - até ter os pés cheios de bolhas... e os olhos a fecharem-se de cansaço.

É assim Setembro - cheio de lembranças, de presenças, reais ou virtuais , mas, sempre pleno de vida interior que o prenuncio do Outono envolve nesta “nossa” luz doce, suave, com tons difusos de violeta e rosa como não há igual .
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Para aqueles dos meus possíveis leitores para quem estas datas são revividas pelas memórias da saudade, deixo, de presente, uma carta que escrevi para agradecer um belo botão de rosa e um sorriso de amizade que recebi...em tempo certo.
É que: - Vida! É sempre: - Vida! Apesar de todos os pesares...
Carta
(oito dias depois do dia da Mãe)
A rosa que me deste
Morreu hoje
Chegou em promessa, – fechada num botão
como fechada
estava a tua mão que a segurava...
Com ternura de mãe
a recebi, a amei e lhe sorri
Sorria-lhe todas as manhãs, desde então,
agradecendo - em silêncio - a sua companhia...
que renovava no meu coração, a esperança,
que é sempre filho e flor...
Depois, todo o tempo ela comigo compartia,
a beleza que a fazia ser rosa! - me vergava a seus pés,
e que eu recebia, como se, só para mim, ela fosse nascida...
... Há cada vaidade nesta vida!
Ontem - achei-a diferente
Ela já não me correspondeu...
Tinha a cabeça curvada
O ar vencido de quem tudo teve
e tudo já perdeu...
Hoje - recolhi-a pétala a pétala
Era ela toda - e já era nada!
Toda na minha mão fechada
e toda desfolhada...
Como penas de ave - sem voo - sem bater de coração..
Já nem era, nem fresca, nem formosa.
Já nem era rosa...
Era ausência e frio
Sem calor de vida – nem era sorriso...
... mais... um arrepio...
Mas...sempre, lembrança doce e triste e linda,
que na alma se fecha silenciada
e, como perfume emanado da rosa...
dela se guarda a ventura que se goza...
Na alegria pura, como a pura dor...
de viver um sonho
ainda que breve
...como um tempo de flor...
Maria José Rijo




