Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Hesitação
Maria JOSÉ RIJO
Conversas Soltas
4 de Dezembro de 2008
Nº 2.997

Muitas vezes hesito na escolha de temas para estas conversas.
A minha hesitação advém sempre da pergunta que a mim própria faço: - que importância pode isto ter? - ou: - a quem pode isto interessar?

Depois venço o meu constrangimento pensando que a Vida não é só feita de grandes acontecimentos, nem é só vivida por pessoas a quem é possível procurar grandes emoções em grandes experiências, ou grandes aventuras.
Que, na vida, todos cabemos, sejam quais forem os nossos interesses, tendências ou gostos.

Sob o mesmo céu vivem os vermes e as aves. E, sendo a plumagem das aves por vezes de uma beleza quase irreal, e a asa, o símbolo da liberdade e do sonho, e sendo, em contrapartida, os vermes, feios e asquerosos, a linguagem da decomposição e do podre, a vida que os sustenta vem da mesma fonte e a dignidade da sua qualidade de ser, a sua função tem a mesma intrínseca dignidade que os seres ricos de cor e beleza.

Assim que os mais capazes e os menos capazes, no sofrimento e na alegria têm todos as dimensões certas para viver a plenitude dos seus sentimentos e das funções para que foram criados. Não terão por vezes todos a mesma capacidade para encontrar o caminho que os possa levar ao destino mais certo, ou de encontrar a forma mais cabal de o evidenciar, mas o máximo, é sempre máximo. Seja qual for o limite suportável.
Vi, como a meio mundo, por certo, aconteceu ter visto, num programa de televisão, uma Mulher, médica de profissão, na qualidade de Mãe, expor para pedir ajuda o drama pungente, a agonia de não saber o paradeiro de um filho.

Alguns dias mais tarde, foi-nos dado rever a mesma pessoa com os olhos a brilhar de incontrolável alegria a contar que o filho já reintegrara a família e, da prudência e tacto com que estavam a cuidar de tão melindroso assunto.
Recordei-me então de uma amiga minha que tinha um filho diferente - mas - porque era dotado acima da média, causava problemas. Era bom aluno [hoje é um conhecido cientista] mas por não ligar àquilo que considerava
pormenores sem importância, era-lhe indiferente ter o cabelo comprido, a barba de qualquer dimensão, sair à rua de botas ou sapatos de quarto, a tal ponto que o pai, pessoa em destaque na altura, sentindo-se criticado pelos seus pares, o confrontou com a obrigação de proceder igual a todos os demais ou, a sair de casa, já que havia muito tempo que lhe era imposta esta exigência sem resultado.

Ferido nos seus brios, o rapaz, arranjou a mochila e dispôs-se a partir.
A Mãe, que até então a tudo assistira sem intervir, chegado aquele ponto de ruptura, olhou o filho e disse-lhe: - és inteligente e responsável, reconheço-te o direito às tuas escolhas e às tuas decisões não é esse o meu problema.
Só queria que me ajudasses, que me dissesses aonde é que eu errei contigo, meu filho, para saíres assim de casa.
Deverias ter-me ajudado e ensinado porque sabes que não há nada na vida, mais importante, para mim, do que tu.
O rapaz pousou a mochila, abraçou a Mãe que chorava e disse-lhe - tu estás sempre certa Mãe, perdoa-me, e ficou.
Parece que é sempre estendendo as mãos abertas para dar que se recolhe a alegria que pode encher de paz os corações.
Maria José Rijo

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Olha para o Céu...
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.691 – 3 – Janeiro - 2003
Conversas Soltas
Reparando bem, muitas coisas têm que ver umas com as outras sem que tenhamos disso dado conta.
Ao som das roncas, canta-se: olha para o céu, verás uma cruz, capela de rosas, Menino Jesus...
Meu pai, que Deus guarde, dizia: mesmo na mais funda miséria é o céu que está sempre por cima...

De um livro que há muitos anos li, salvo erro escrito por Françoise Sagan, intitulado: Un certain sourire, ou Bonjour tristesse, já não me recordo com nitidez, qual deles era, fixei uma passagem cuja mensagem me parece querer expressar o mesmo conceito.
O céu está sempre por cima que é como quem diz, a esperança de Redenção está prometida até ao último instante de vida.
Não sei se era da parte da escritora uma mensagem intencional e consciente, ou se era apenas a criação de uma bela imagem estética...
Não sei.

Guardo a lembrança de uma personagem afastada dos seus sonhados ideais, que na cama de um quarto vulgar deixa, com indiferença e abandono, marcar as formas do seu corpo sob peso do homem que a possui. E, enquanto os pensamentos rodopiam na sua mente atordoada ela vislumbra por uma janela entreaberta uma nesga de céu.
O céu que está sempre por cima...e, assim, lá do fundo do poço se
“Fala” de esperança.
Alguém me perguntou recentemente, o que era ter mãe na minha idade. Não que seja tão antiga como Mathusalém, mas os oitenta vão sendo meus vizinhos...
Como era?
Fiquei um pouco confusa, e a única resposta que me ocorreu foi que era- também- ter ainda a possibilidade de olhar para cima.
No sentido de conservar uma certa consciência de que se é protegido por quem está acima de nós na idade. De que se tem direito à condição bem aventurada de ser filho, de ter ainda, a mãe a zelar, ou a sofrer, por nós.

Depois, desde então, várias vezes esta pergunta me tem voltado à consciência, talvez até na procura de resposta mais coerente.
Ninguém comanda os pensamentos, mas todos nós os relacionamos.
Então, de achega em achega comecei a construir a pirâmide do amor humano e a sentir na alma o calor de termos família, amigos e todo o mundo de afectos que nos ajuda a viver, mesmo quando as nossas idades já nos situam no vértice da tal pirâmide, e todos nos olham de baixo.

E percebi que por maior que seja a solidão humana e o desconforto, a todos é dado entender a mensagem que saída da alma popular se reza cantando na noite de Natal:
Olha para o céu – verás uma cruz...
Sofrimento e Redenção...
Ao alcance de todos.
Sempre, sempre, e em qualquer circunstância, o céu à nossa vista acima de nós.
Maria José Rijo



