Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Hesitação
Maria JOSÉ RIJO
Conversas Soltas
4 de Dezembro de 2008
Nº 2.997

Muitas vezes hesito na escolha de temas para estas conversas.
A minha hesitação advém sempre da pergunta que a mim própria faço: - que importância pode isto ter? - ou: - a quem pode isto interessar?

Depois venço o meu constrangimento pensando que a Vida não é só feita de grandes acontecimentos, nem é só vivida por pessoas a quem é possível procurar grandes emoções em grandes experiências, ou grandes aventuras.
Que, na vida, todos cabemos, sejam quais forem os nossos interesses, tendências ou gostos.

Sob o mesmo céu vivem os vermes e as aves. E, sendo a plumagem das aves por vezes de uma beleza quase irreal, e a asa, o símbolo da liberdade e do sonho, e sendo, em contrapartida, os vermes, feios e asquerosos, a linguagem da decomposição e do podre, a vida que os sustenta vem da mesma fonte e a dignidade da sua qualidade de ser, a sua função tem a mesma intrínseca dignidade que os seres ricos de cor e beleza.

Assim que os mais capazes e os menos capazes, no sofrimento e na alegria têm todos as dimensões certas para viver a plenitude dos seus sentimentos e das funções para que foram criados. Não terão por vezes todos a mesma capacidade para encontrar o caminho que os possa levar ao destino mais certo, ou de encontrar a forma mais cabal de o evidenciar, mas o máximo, é sempre máximo. Seja qual for o limite suportável.
Vi, como a meio mundo, por certo, aconteceu ter visto, num programa de televisão, uma Mulher, médica de profissão, na qualidade de Mãe, expor para pedir ajuda o drama pungente, a agonia de não saber o paradeiro de um filho.

Alguns dias mais tarde, foi-nos dado rever a mesma pessoa com os olhos a brilhar de incontrolável alegria a contar que o filho já reintegrara a família e, da prudência e tacto com que estavam a cuidar de tão melindroso assunto.
Recordei-me então de uma amiga minha que tinha um filho diferente - mas - porque era dotado acima da média, causava problemas. Era bom aluno [hoje é um conhecido cientista] mas por não ligar àquilo que considerava
pormenores sem importância, era-lhe indiferente ter o cabelo comprido, a barba de qualquer dimensão, sair à rua de botas ou sapatos de quarto, a tal ponto que o pai, pessoa em destaque na altura, sentindo-se criticado pelos seus pares, o confrontou com a obrigação de proceder igual a todos os demais ou, a sair de casa, já que havia muito tempo que lhe era imposta esta exigência sem resultado.

Ferido nos seus brios, o rapaz, arranjou a mochila e dispôs-se a partir.
A Mãe, que até então a tudo assistira sem intervir, chegado aquele ponto de ruptura, olhou o filho e disse-lhe: - és inteligente e responsável, reconheço-te o direito às tuas escolhas e às tuas decisões não é esse o meu problema.
Só queria que me ajudasses, que me dissesses aonde é que eu errei contigo, meu filho, para saíres assim de casa.
Deverias ter-me ajudado e ensinado porque sabes que não há nada na vida, mais importante, para mim, do que tu.
O rapaz pousou a mochila, abraçou a Mãe que chorava e disse-lhe - tu estás sempre certa Mãe, perdoa-me, e ficou.
Parece que é sempre estendendo as mãos abertas para dar que se recolhe a alegria que pode encher de paz os corações.
Maria José Rijo

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Olha para o Céu...
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.691 – 3 – Janeiro - 2003
Conversas Soltas
Reparando bem, muitas coisas têm que ver umas com as outras sem que tenhamos disso dado conta.
Ao som das roncas, canta-se: olha para o céu, verás uma cruz, capela de rosas, Menino Jesus...
Meu pai, que Deus guarde, dizia: mesmo na mais funda miséria é o céu que está sempre por cima...

De um livro que há muitos anos li, salvo erro escrito por Françoise Sagan, intitulado: Un certain sourire, ou Bonjour tristesse, já não me recordo com nitidez, qual deles era, fixei uma passagem cuja mensagem me parece querer expressar o mesmo conceito.
O céu está sempre por cima que é como quem diz, a esperança de Redenção está prometida até ao último instante de vida.
Não sei se era da parte da escritora uma mensagem intencional e consciente, ou se era apenas a criação de uma bela imagem estética...
Não sei.

Guardo a lembrança de uma personagem afastada dos seus sonhados ideais, que na cama de um quarto vulgar deixa, com indiferença e abandono, marcar as formas do seu corpo sob peso do homem que a possui. E, enquanto os pensamentos rodopiam na sua mente atordoada ela vislumbra por uma janela entreaberta uma nesga de céu.
O céu que está sempre por cima...e, assim, lá do fundo do poço se
“Fala” de esperança.
Alguém me perguntou recentemente, o que era ter mãe na minha idade. Não que seja tão antiga como Mathusalém, mas os oitenta vão sendo meus vizinhos...
Como era?
Fiquei um pouco confusa, e a única resposta que me ocorreu foi que era- também- ter ainda a possibilidade de olhar para cima.
No sentido de conservar uma certa consciência de que se é protegido por quem está acima de nós na idade. De que se tem direito à condição bem aventurada de ser filho, de ter ainda, a mãe a zelar, ou a sofrer, por nós.

Depois, desde então, várias vezes esta pergunta me tem voltado à consciência, talvez até na procura de resposta mais coerente.
Ninguém comanda os pensamentos, mas todos nós os relacionamos.
Então, de achega em achega comecei a construir a pirâmide do amor humano e a sentir na alma o calor de termos família, amigos e todo o mundo de afectos que nos ajuda a viver, mesmo quando as nossas idades já nos situam no vértice da tal pirâmide, e todos nos olham de baixo.

E percebi que por maior que seja a solidão humana e o desconforto, a todos é dado entender a mensagem que saída da alma popular se reza cantando na noite de Natal:
Olha para o céu – verás uma cruz...
Sofrimento e Redenção...
Ao alcance de todos.
Sempre, sempre, e em qualquer circunstância, o céu à nossa vista acima de nós.
Maria José Rijo

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CONSIDERAÇÕES VÁRIAS
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.360 – 19 -Julho -1996
Conversas Soltas
Pessoalmente não tenho o gosto de conhecer a Senhora Vereadora da Cultura a quem até já pedi apoios para uma reunião em Elvas do Curso de Cavalaria de 1941-43 – da Escola do Exército, que se realizou em 29 de Maio de 1996.
Telefonei-lhe para o efeito.
Escrevi-lhe depois e, apraz-me confessar que fiquei grata pela maneira pronta e afável com que me atendeu – o que – como é óbvio se reflectiu na excelente impressão que aquele grupo de oficiais e suas famílias levaram da nossa cidade.
Ora, há bem pouco tempo, pessoa amiga, alertou-me pelo telefone para a presença da Srª. Dona Vitória na televisão num programa do Goucha.

Foi com a maior atenção que segui o pouco que ainda fui a tempo de ver e ouvir da sua entrevista.
Dela me ficou no entanto o agrado de concluir que a Câmara de Elvas está empenhada em prosseguir os esforços para que este nosso velho e histórico burgo seja considerado património Universal.
Fiquei a pensar longamente neste assunto e parece-me sempre a propósito não deixar que caía no esquecimento.
Logo no “Linhas de Elvas” da semana seguinte à entrevista, Arlino Sena, num dos seus artigos sempre bem escritos e bem pensados, explana considerações importantes sobre o tema que levou a Senhora Vereadora ao Porto.
Tenho a firme convicção de que se o Senhor Professor Serra tivesse lido esse jornal teria tido o cuidado de esclarecer que não fora no seu tempo que tal aconteceu.

Foi antes.
Valha a verdade que sendo eu, Vereadora – não foi meu mérito, nem do Presidente Carpinteiro.
Eram acontecimentos que as Câmaras viabilizavam ou não – mas de cuja criação não eram autoras.
Na referida circunstância pertenciam ao Sr. Dr. Amilcar Morgado os louros pois que defendeu a ideia, fez os contactos e geriu muito bem a ocorrência que a Câmara, logicamente apoiou.

Mas, não é para falar desse passado que escrevo estas considerações.
Faço-o na defesa das “pequenas” grandes coisas que têm muito mais importância do que se pensa à primeira vista para conseguir tão difíceis propósitos.
Lembro, por exemplo, a chamada de atenção feita por João Góis, para o perigo que correm os velhos plátanos da Piedade!
Para que Elvas possa ser Património da Humanidade não se pode dar ao desleixo de deixar morrer as suas árvores de cada dia.
Não pode deixar delapidar, até à calvície trágica, cabeços como o da zona envolvente da Piedade de onde as velhas oliveiras sumiram como fantasmas!
Não pode perder a memória da sua história e dos seus costumes.
Não pode...
Não pode, não senhor.

Havemos de voltar a este assunto, e, se, Deus quiser, – à Quinta do Bispo, aos pés de zambujeiro – à ermida de S. Sebastião e, a um sem número mais, de pequenas coisas – que juntas são o encanto e o mistério – a verdadeira aureola que dá sentido à realidade – à nossa realidade.
Hoje estou cansada.
Morreu o mano Quim – o irmão mais velho de meu marido.
Do amor que eles tinham por esta terra me virá a força de continuar a insistir – se Deus quiser – mas hoje não.
Maria José Rijo

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Evidências
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.636 – 14-Dezembro-2001
Conversas Soltas

Qualquer pessoa reconhece sem dificuldade que o comportamento do político, em campanha, lembra muito a do vendedor da banha da cobra.
Tal como o charlatão que tem pomadas mágicas que saram todos os males, desde tirar os calos até fazer crescer o cabelo, também os políticos têm a receita da poção milagrosa que resolve, num piscar de olhos, todos os problemas do mundo.
Qualquer ambicioso, astuto, conhecedor de um pouco da psicologia humana, se transforma num ser iluminado pela habilidade com que manipula a boa fé dos mais desprotegidos, e se compromete e envolve com os mais influentes.

Claro que há excepções.
Há políticos que exercem as suas funções durante anos e voltam à vida privada limpos de consciência. Com situações económicas idênticas àquelas de que fruíam no início das suas carreiras, e, há os outros, para quem a política é o trampolim de onde, de salto, em salto se vão projectando cada vez para mais alto, não importa à custa de quê.
Há quem sirva com isenção.
Há quem sirva, servindo-se.
Há de tudo.
Nesta altura de eleições, muita coisa se descobre, e se destapa.

Percebe-se perfeitamente que, se mais não se denuncia, é porque os denunciantes, algumas vezes, também têm o rabo preso – como costuma dizer-se...
Agora, o escândalo, em foco, é o caso da ponte Vasco da Gama.
Não gosto da classe política – de uma maneira geral – é evidente.
Todos nós sonhamos com a democracia.
Alguns, por ela lutamos. Por ela sofremos.
Falo com conhecimento de causa.
E, dela, do sonho de liberdade, de justiça, o que resta?
Alguém terá dito que a Democracia é (se tornou) - “a ditadura da maioria”. Sou levada a pensar, que a definição está bem encontrada.
Por quase todos os lados, choveram pequenos ditadores, para quem a Democracia, é apenas a obrigação que a todos é imposta de obediência aos seus desígnios – sem excepção!

Não posso crer que seja no clima ao rubro dos comícios que se tomem as decisões mais certas...
Também, não me convenço que, com as dificuldades e privações que muitos suportam no dia a dia - de trabalho precário - tantas vezes, as pessoas disponham de tempo para avaliar, outros problemas, que não os seus, e estejam preparadas para um juízo esclarecido que possa conduzir a um voto em função da causa colectiva.
Assim que, quem dispõe de poder, para martelar os seus desideratos até fazer uma completa lavagem de cérebro aos incautos pacientes acaba sempre, como nos contos de vigário, conseguindo os seus fins.
Vale tudo! Caravanas, festivais, excursões, carnavais, jantaradas, panfletos, o cão ao colo para ladrar, o gato para miar! Enfim: - tudo o que possa ser credenciado a favor dos mandantes, nem que seja em termos de maior volume de poluição sonora...
Engrossando os cortejos, uma legião de gente, dependente dos humores dos líderes pelos contratos a prazo, que os mantêm em equilíbrio de funâmbulos...
Pela irregularidade das benesses recebidas...
Devia ser obrigatório, nestas faenas, a música, aliás linda de:” o circo desceu à cidade.”
Porque de circo se trata, onde não faltam ilusionistas, malabaristas, equilibristas na corda bamba, e por aí fora...
A aposta maior, dos políticos, tinha que ser na formação de novas mentalidades, na educação, na justiça social, – no elemento mais importante, - o ser humano...
Só que essa sementeira é lenta, não dá dividendos imediatos...
Então! – Aposta-se no exterior... no brilharete, na aparência...

O que mais se avista por Portugal inteiro é o reino do betão que desfigura, aleija, fere de morte a nobre sobriedade do que era belo de raiz.
Felizmente que a vaidade bronca dos seus promotores os faz identificar com lápides as proezas cometidas... como se fossem feitos históricos.
Assim, pelo menos, não pagará o justo pelo pecador.
Valha-nos isso!
Maria José Rijo

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Desafio
http://linhaseletras.blogs.sapo.pt/
Fez-me este desafio :
Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve: 1. Exibir a distinta imagem; 2. Linkar o blog pelo qual recebeu o prêmio; 3. Escolher8 outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos.” -O desafio consiste em partilhar 8 sonhos -Comentar no blog de quem desafiou -Desafiar 8 blogs e comentá-los OS MEUS SONHOS: 1 -- Que se respeite a Declaração dos Direitos do Homem 2 -- Que se respeitem os Direitos das Crianças 3 -- Que se respeitem os Direitos dos Animais 4 -- Que se respeite o Ambiente 5 -- Que as crianças cresçam em bem e para bem 6 -- Que todas as vidas sigam por caminhos de Luz 7 -- Que Deus me conserve Lucida e independente até ao fim 8 -- E que eu termine tão lenta e suavemente como uma cor que se esbata até que o tom se lhe ausente Blogs que desafio: 1 -- http://www.coisasimplesepequenas.blogspot.com/ 2 -- http://ncescada.blogs.sapo.pt/ 3 -- http://cadernodalua.blogs.sapo .pt/ 4 -- http://flosinha.blogs.sapo.pt/
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Em tempo certo
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.468 – 4-Setembro-1998
Conversas Soltas
Aqui o temos - como todos os outros - em tempo certo!
É o nono, é Setembro!
Quando ele se aproxima, o meu coração de elvense, tem um vibrar diferente.
É verdade! - E, penso que, como também acontece num qualquer Natal, assim acontece nesta época, com todos os elvenses.
Setembro é o mês das evocações, é o mês das saudades, o mês das celebrações.
Começo pela casa: -“ o nosso Linhas”, completa quarenta e oito anos de idade.
É data de festa para celebrar - celebremos !
Celebremos com a alegria e a responsabilidade que a efeméride suscita a todos quantos reconhecem que só por mérito próprio, muito principalmente, um jornal de província, não desmerece ao longo de quase meio século do apreço e estima dos seus leitores e assinantes.
Saudemos com gratidão e amizade quem o produz, – desde quem o pagina a quem o escreve e a quem por ele se responsabiliza e lhe traça com coragem e isenção o caminho do futuro, e, também, a quem discreta e obscuramente lhe dá vida
Saudemos os seus assinantes e leitores, todos quantos lhe querem bem!
Depois, inevitàvelmente, outras lembranças se perfilam na memória.
Foi em Setembro que o seu fundador partiu. Vão oito anos, já, depois desse dia.
Evoco Ernesto Ranita Alves e Almeida!
Honremos com saudade e respeito a sua memória e, evoquemos também o “Fausto”e todos quantos deram, a seu jeito , muito da sua alma a este jornal e também já partiram.
Escrevo como paradigma um outro nome.

Um nome apenas: - que mais não é necessário: - José Tello.
Por estas e outras demais razões eu sinto que Setembro com a aproximação das festas cria na nossa cidade um clima diferente só comparável em emoção com a envolvente ternura dum Natal.
Não há coração de pobre ou rico que não guarde uma referência por pequena que seja relacionada com as festas de Setembro, a data aglutinadora, por excelência das gentes da nossa região, em que todos correm para o abraço de familiares e amigos e para ajoelhar crentes e submissos aos pés do Senhor Jesus da Piedade. - Para o calcorrear vezes sem conto arraial acima e abaixo - até ter os pés cheios de bolhas... e os olhos a fecharem-se de cansaço.

É assim Setembro - cheio de lembranças, de presenças, reais ou virtuais , mas, sempre pleno de vida interior que o prenuncio do Outono envolve nesta “nossa” luz doce, suave, com tons difusos de violeta e rosa como não há igual .
************

Para aqueles dos meus possíveis leitores para quem estas datas são revividas pelas memórias da saudade, deixo, de presente, uma carta que escrevi para agradecer um belo botão de rosa e um sorriso de amizade que recebi...em tempo certo.
É que: - Vida! É sempre: - Vida! Apesar de todos os pesares...
Carta
(oito dias depois do dia da Mãe)
A rosa que me deste
Morreu hoje
Chegou em promessa, – fechada num botão
como fechada
estava a tua mão que a segurava...
Com ternura de mãe
a recebi, a amei e lhe sorri
Sorria-lhe todas as manhãs, desde então,
agradecendo - em silêncio - a sua companhia...
que renovava no meu coração, a esperança,
que é sempre filho e flor...
Depois, todo o tempo ela comigo compartia,
a beleza que a fazia ser rosa! - me vergava a seus pés,
e que eu recebia, como se, só para mim, ela fosse nascida...
... Há cada vaidade nesta vida!
Ontem - achei-a diferente
Ela já não me correspondeu...
Tinha a cabeça curvada
O ar vencido de quem tudo teve
e tudo já perdeu...
Hoje - recolhi-a pétala a pétala
Era ela toda - e já era nada!
Toda na minha mão fechada
e toda desfolhada...
Como penas de ave - sem voo - sem bater de coração..
Já nem era, nem fresca, nem formosa.
Já nem era rosa...
Era ausência e frio
Sem calor de vida – nem era sorriso...
... mais... um arrepio...
Mas...sempre, lembrança doce e triste e linda,
que na alma se fecha silenciada
e, como perfume emanado da rosa...
dela se guarda a ventura que se goza...
Na alegria pura, como a pura dor...
de viver um sonho
ainda que breve
...como um tempo de flor...
Maria José Rijo

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Minha Mãe

.
Deu-me a vida e o mundo
Seus sonhos
Semeou-os
E
neles vivia, me via e me revia
E, sendo ela tudo para mim
Nela tudo fui
No amor que em mim floria
Ela, não mo dizia
Mas, eu sabia!
Sabia que era assim
Bastava ver
Como ela olhava para mim...
Minha Mãe partiu
Levou meu mundo com ela
Deixou-me neste vazio
Sem tempo e sem idade
Como que suspensa por um fio
a balouçar sobre a eternidade
Maria José Rijo
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Afinal – a Expo começa aqui!
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.397 – 11 –Abril – 1997
Conversas Soltas

Naquele dia da passada Páscoa – já nem sei qual – havia um ventinho esperto que soltava a areia do chão e a atirava pelos ares.
Voltei então as costas ao mar meti – me em casa e abri a televisão.
O Professor Hermano Saraiva, 
Interessei-me vivamente.
Aliás, não sei de quem resista ao “charme” do historiador com a sua maneira cordial e apaixonada de transmitir saber e, de repente, pensei:
- Então se tudo na Expo 98 se passa em torno do mar e das Descobertas...
- Então se a figura maior é o grande Descobridor...
- Então se Sines se prepara afanosamente destapando pedras, catando vestígios, escarafunchando pistas de tudo quanto possa servir para erguer do passado um rasto que conduza ao reconhecimento do que foi a presença de Vasco da Gama naquelas paragens...

- Então isto e mais aquilo e etc, etc, etc, etc. ...
- Então Elvas – porta principal de quem entra em Portugal – vindo da Europa estradas fora...
Então Elvas, não terá uma palavra a dizer?
Ai, a mim, me parece que sim.
E, se tristemente, infelizmente, deploravelmente (e mais quantos expressivos advérbios de modo se possam compor para chorar a agonia do Forte) não se pode, no todo, acudir à nobre fortaleza – que venha trazer, de novo, à lembrança de todos – ouso perguntar:
- Não será possível ainda reconstruir por dentro a capela que Catarina Mendes, bisavó de Vasco da Gama, quando já viúva de Estêvão Vaz da Gama, mandou reedificar nos finais do séc. XIV?
É que, foi por aí, que tudo começou.
É que foi em torno dessa capela votada, por muita fé, a Nossa Senhora
da Graça que o forte da Graça ou de Lippe – foi erecto.
E é dessa cepa – é desses Gamas – que descende o universal Vasco da Gama que a Expo glorifica.
Afinal se se quiser destapar um pouquinho a história – se se limpar o caminho de modo a honrar o espaço referido, mostrando-o com dignidade que, por direito, lhe cabe...
Afinal...
Afinal, não é exagero afirmar que:
A Expo começa aqui!
Maria José Rijo
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Em nome da coerência
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.480 – 27-- Novembro -- 1998
Conversas Soltas
Num “ A la minute” escrito em Dezembro de 1985, fiz neste jornal, umas considerações, de onde, por ainda serem pertinentes, respigo hoje – 13 anos após – algumas ideias. Era mais ou menos assim:
......toda Elvas – terá que servir Elvas - como cada um de nós se serve a si próprio - porque de nada serve a força e o trabalho de quem constrói se o desinteresse e desamor de outros se empenhar em destruir !
Para que o dinheiro - que será sempre pouco para a largueza do sonho - dê frutos palpáveis, é urgente que cada elvense repense a sua forma de o ser. É preciso que não mais se juntem grupos de pessoas para quebrar (fortes) bancos de cimento, etc. etc. etc...porque cada um que queira ser digno desta terra que o acolhe ou lhe foi berço - tem que sentir em si próprio e saber vive-la , a consciência do que é pertencer a uma cidade, a uma comunidade, que , por sua vez também lhe pertence. Tem que saber encontrar em si, o sentido de dever e de justiça que lhe permitam e imponham o comportamento exemplar que deve à sua terra e à sua gente…
Quando, em cada manhã que desponta espreito o céu da minha janela, ao baixar o olhar, avisto invariavelmente os cacos de garrafas, e toda a espécie de porcarias que os adeptos da vida nocturna deixam atapetando o chão onde as crianças poderiam e deveriam brincar com segurança. O PARQUE INFANTIL!
Pode-se, é justo que se faça – e, eu faço-o, mais uma vez, frontalmente – criticar
a colocação dos contentores do lixo sobre as passadeiras e ao magote !
Pode-se dizer que uma papeleira nesse espaço ficava a matar!
Pode-se.
MAS A VERDADE, é que os contentores estão lá! E não há Câmara nenhuma que possa controlar o vandalismo que estes casos demonstram.
Qualquer Câmara pode e deve planear melhor ou pior, como for capaz, o escoamento do lixo. Esse dever cabe-lhe. Mas, o que nenhuma, jamais poderá é controlar a falta de civismo que faz transformar lagos em escoadouros públicos; a inconsciência, ou a malvadez que permite (e sendo a tarefa nocturna não se pode

atribuir a garotinhos) escaqueirar vidros de garrafas de cervejas até tornar o chão resplandecente, num espaço reservado a crianças! Repito: UM PARQUE INFANTIL!
Quando, será o civismo e a coerência entre o gesto e a palavra uma evidência identificável pela ausência destas lamentáveis atitudes que a cada passo nos envergonham e nos ultrajam como gente?
Quando? - Pergunta-se!
Quando? Quando? Quando? Continuaremos a perguntar!
Maria José Rijo
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É bom lembrar
Jornal Linhas de Elvas
Nº – 2.474 – 16- Outubro -1998
Conversas Soltas

(A propósito de um livro do Dr. Martinho Botelho)
Quando a pastelaria “FLOR” encerrou fui das poucas pessoas que nada disse sobre o facto. No entanto, o seu desaparecimento, atingiu-me com um sentimento de perda irreparável.
Para alem da excelente doçaria, do acolhimento de patrões e empregados, do ambiente de família que lá se desfrutava, para mim, e julgo que para muitos outros, a pastelaria “FLOR” era, também, a imagem de uma certa época em que o convívio não se alimentava de “copos” nas noitadas mas, da boa cavaqueira à luz do dia, com chazinho ou capilé e salsa parrilha, para não secar a garganta.
Estou a pensar naquele tempo
José Tello era um homem de personalidade forte, leal aos seus amigos e de convicções seguras, era um homem ilustre, senhor de uma invejável cultura e sabedoria.
Muitas vezes me falou de António Sardinha, que muito admirava, de quem foi amigo verdadeiro ao ponto de ter sido ele quem o amortalhou, segundo me contou sua mulher e minha querida amiga S.ª Dona Maria Vitória.
Não era demais que em Elvas se fizesse uma edição de muitos dos seus escritos que dormem esquecidos em arquivos de jornais.
Esta ideia foi lançada aqui, no Linhas de Elvas, pelo Senhor Dr. Martinho Botelho ainda em vida de José Tello, e sei que lhe foi grata.

Ao ler um livro (Apontamentos) sobre Campo Maior da autoria do Martinho Botelho - em edição do autor datada de 1996 - livro que durante algum tempo tive à cabeceira e que de vez em quando ainda vou relendo, sem quase dar por isso, associei os dois .
Homens sábios, a quem, por vezes, as suas próprias gentes não pagam como eles merecem a dedicação e a generosidade com que, quase esbanjando, partilham conhecimentos que no estudo e na inteligente observação e investigação foram acumulando sem mais pedirem do que a consolação intima de cumprir um dever. Ensinar, dar a conhecer, fazer amar as terras que lhe são berço é o objectivo que os guia.
Confesso que gosto “de revisitar”, (como diz um grande amigo meu) de vez em quando, trabalhos como este do Dr. Martinho Botelho que num estilo coloquial, como quem conversa com os seus amigos, desbobina e liga histórias de pessoas, acontecimentos, circunstâncias, que no seu conjunto nos fazem descobrir as raízes dessa terra castiça e bonita que só quase é conhecida pela habilidade criativa com que a suas gente a veste de flores por altura das festas do povo.
Homens destes, são memória viva, são história, são corações pesados de conhecimento a pulsar numa entrega abnegada aos outros homens. São os beneméritos da alma. Quase se escondem. Quase pedem perdão.do valor que têm e vão passando quase ignorados. Depois, quando um dia partem, então, pelo vazio que a sua ausência cria todos se apercebem de como foram notáveis e generosas as suas existências.
Com a consciência de que todas as horas de esquecimento podem ser por nós transformadas em horas de justiça; a dois anos de distância da sua publicação, cabe-me
pela negligencia, pedir desculpa ao autor de “Apontamentos” por só agora expressar publicamente o meu apreço e gratidão pelos ensinamentos que do seu trabalho recolhi.
.Obrigada. Muito obrigada.
Maria José Rijo














