Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Surpreendente
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.479 – 20-Novembro-1998
Conversas Soltas
Eu não tinha visto o programa.
Quando anunciam uma rubrica nova, vejo-a uma vez, ou duas, para fazer o meu próprio juízo. Depois, ou a excluo do meu interesse, ou a continuo a ver.
Para estas” criações “da Teresa Guilherme confesso: não tenho poder de encaixe!
Cativada, como foi, a nossa atenção para o incidente havido com o programa do João Baião não resisti à curiosidade e...
Surpreendente pelo menos para mim, foi a atitude de Santana Lopes!
Por mais que pense e repense não consigo vislumbrar porque atalho, caminho ou vereda foi ele desembocar naquela ideia peregrina de sair da vida política por uma rábula do João Baião!
Se o programa era da responsabilidade da S.I.C. processava a S.I.C. e deixava os ministros e o presidente da Republica na santa paz do Senhor.
Como alternativa a esse procedimento, só encontro uma outra solução, que era sermos nós todos a processar a S. I.C. pela confusão que faz entre graça e chalaça, entre caricatura e insulto, entre temas susceptíveis de serem ironizados e outros que cabe a todos manter a salvo de qualquer beliscadura.
Por exemplo: - a que título para referenciar gastos, ou proventos, se invocam os filhos de Santana Lopes! Claro que esta seria uma das considerações a fazer, no caso do programa merecer alguma reflexão séria, que nem merece. Apenas suscita desprezo por ser moralmente nojento.
João Baião quando aparecia nos programas de
Agora os papeis que lhe destinam são tão inferiores que apetece perguntar: onde está o João Baião? Mal empregado deixar-se afundar em tanta idiotice.
Mas, aqui o que me merece reflexão é o caminho que todos nós estamos permitindo que a nossa vivência comum esteja a ter. Sobre isso é que é urgente reflectir.
Quem somos nós que consentimos uma televisão tão sem qualidade e tão perniciosa?
Quem somos nós se somos capazes de rir, sem ser de dó, de piedade, por nós próprios, com espectáculos degradantes como alguns que a S.I.C nos impinge?
Estas coisas vêm na linha de outras...
Quando se contrata e acha graça que uma criança na horas em que deveria estar a dormir, esteja sobre um palco, a divertir adultos, cantando histórias de bacalhau e alho e outra sandices que tais, o que se espera senão a degradação progressiva dos costumes!
Quando se interdita o trabalho a menores mas se autoriza esse trabalho, embora nefasto para a formação e carácter de uma criança, como se pode contar com a responsabilidade de cada um pelos seus actos e respeito pelos outros! Estas atitudes encadeiam-se umas nas outras temos que o reconhecer.
Se alguém tivesse feito graça mas, graça de verdade, com afirmações de Santana Lopes, como por exemplo aquela de achar que quantas mais as sondagens lhe são favoráveis, mais o incomodam, até podia dar para rir.
Se ele como outros políticos, por aí andam a fazer, começasse os seus discursos a propósito de tudo e de nada a empertigar-se dizendo que são os mais votados e o melhores do mundo, essas atitudes são susceptíveis de ser ironizadas pelo ridículo que contêm, porém, a pessoa em si, não.
E quem não for capaz de reconhecer a fronteira, entre a graça possível e o insulto, entre a pessoa e o dito, entre a pessoa e a atitude, quem pisar essa fronteira e se tornar insidioso, que responda por ofensa a pessoas de bem.
Às vezes, frente a certos programas, lembro-me da minha avó. Quando, em crianças, nos ouvia chamar burras, ou estúpidas, umas às outras. É que então, ela, dirigindo-se a minha mãe inquiria muito séria :- porque é que a menina ainda não lhes pôs pimenta na língua ? Vai ver que depois hão-de ter mais cuidado com o que dizem.
Pois é! Muitas vezes, agora, penso, que com piri-piri ou pimenta na língua – na hora certa – (que se calhar já passou) também se teria resolvido muita coisa...
Maria José Rijo

Autoria e outros dados (tags, etc)
“ Ele há cada coisa”
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.334 – de 19 de Janeiro de 1996
Conversas Soltas
O País escolheu o seu Presidente da República.
Escolheu – está escolhido.
Decidiu a voz da maioria. Aqueles que indiferentes, revoltados, indecisos ou apenas por comodismo e preguiça se abstiveram, que não foram capazes de assumir a sua dignidade de eleitores – pesaram no resultado – quer agora rejubilem ou se recriminem.
Portugal tem um novo Presidente.
Há que felicitar os portugueses que determinaram a escolha.
Há que felicitar o vencedor.
Há que respeitar o vencido.

a vida dos portugueses decorra o melhor possível e possam ser cumpridas as promessas que todos desejamos ver realizadas e, tão generosamente, foram espalhadas aos sete ventos.
Com muitas outras pessoas, assisti, interessada às reportagens das televisões.
Ouvi as opiniões e conferi com lápis e papel as contas das percentagens.
Pelas ruas de Elvas, cedo começou a correr á solta o buzinão da euforia e, quase sem dar por isso comecei a recordar outras mudanças a que já assisti.
Olhei então para dentro de mim, para a minha viva consciência cívica de cidadã eleitora e recordei...
... Estava em Beja aquando do 25 de Abril.
No dia 1º de Maio seguinte – naquela imensidão de gente que enchia as ruas seguia o Rancho Coral de Cuba. Descobrindo-me numa janela, gritaram em coro o nome do meu Pai. Fizeram parar por momentos aquela avalanche humana e cantaram para mim, em sua memória.

Meu Pai jamais tivera cargos ilustres.
Fora mais do que isso – porque ao longo de 81 anos da sua existência – foi apenas um Homem de Bem.
Um exemplo de dignidade, honradez, bondade e civismo.
Um cristão de alma.
Um democrata na vivência. Quando faleceu, ninguém se sentou, até que foi sepultado, no seu lugar preferido do café que frequentava – (pertença de um comunista).
Foi uma homenagem espontânea, como outras.
Estas recordações permanecem vivas em mim e ligam-se a outras mais.
Como ele gostaria de ter vivido o 25 de Abril. Que alegria para o seu sentido nato de liberdade e justiça!
– Pensava eu
Bem... Depois, foi o eclodir da esquerda e tudo o mais que se sabe e viu.
Agora os tempos são diferentes.
Porém, a grande massa das pessoas é a mesma. Vive na fúria do: venha a nós!
E, eu, que vivi e sofri vendo as tresloucadas desordens que as grandes maiorias causaram...
Os mandatos de captura em branco que Otelo fornecia...

As listas das projectadas matanças da Páscoa...
O: “vamos saltar à corda com as tripas dos Rotários”...
As infames decisões de prisões tomadas em cafés e tabernas entre cigarros, vinho e chalaças...
As reformas de ministérios que se sabiam, antes de noticiadas na imprensa, num restaurante da estrada de Serpa...
Os tiros, na rua, frente à nossa casa.
O povo armado e sem norte...
As fogueiras dos jornais que não eram “da cor” na via pública...
O espancamento dos donos das tabacarias que persistiam em querer vendê-los...
Os bons homens do meu Alentejo dopados por propagandas falsas armados de grosso “cacheiros” – com o ar perdido – de quem é mandado – a teimarem em ter acesso ao “dinheiro do povo” – referiam-se aos cofres do Banco de Portugal...
Enfim!... Um sem número de atropelos, vinganças, injustiças, crueldades, arbitrariedades, humilhações de um rol sem fim a que eu assisti e vivi.
A nossa empregada – a Palmira – a querer piedosamente recolher-nos em sua casa porque Meu Marido pelo facto de ser gerente dum Banco – estava na lista dos condenados – a que ela como filiada do M.E.S. tinha acesso!...
Claro que os tempos são outros.
Reconheçamos no entanto, todos, que não foi para mudar o campo das injustiças e abusos e agravá-las que se fez a revolução!
Todos!
Todos sem excepção aprendemos qualquer coisa, ou muito, com o passado.
Veja-se! Lembre-se!
Honre-se o próprio Dr. Mário Soares e outros que corajosamente sustaram a avalanche que em nome de puros ideais que as suas vidas comprovavam – provocaram – e, quase os esmagou...
Com o seu exemplo reforcei a coragem aprendida de meu Pai de assumir frontalmente a minha opinião.
E, se por vezes, me abstenho de o fazer nas horas fáceis de glória – quando os dividendos estão à mão – não me dou a essa comodidade quando o caminho não é de rosas.
Até hoje mantive-me independente de qualquer filiação partidária.
Quando pressionada para o fazer numa altura em que isso me teria rendido dinheiro e vantagem – deliberadamente disse : - não !
Porém, hoje, agora, ponho a mim própria a dúvida de estarem criadas, ou não, as condições que me obriguem a requerer a minha filiação como militante de base do P.S.D..
Nada tenho contra as preciosas chuvadas. Mas, todas as cautelas e precauções que nos defendem das enxurradas, não me parecem demais.
Aliás, a Social Democracia é uma boa forma política de orientar um País.
Entretanto me decido, vou-me entretendo a pensar no que o povo quer dizer quando deseja que Sampaio siga a postura de “monarca” que atribue a Mário Soares – Ele há cada coisa !
Maria José Rijo












