Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
HORAS… dão os relógios!
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.322 – 27 de Outubro de 1995
Conversas Soltas

Acordar quando o relógio para; não é o previsto.
Mas, também acontece.
Previsto é acordar quando ele irrompe no momento aprazado a fazer estardalhaço.
Aquele pulsar metálico, seco, miudinho, miudinho… - aquela indiferença com que o relógio mastiga compassadamente o tempo de alegria ou de dor, das nossas vidas, sem lhe tomar o gosto - segundo a segundo – faz parte das nossas noite. Embala-lhes o sono.
Não é que durante o dia os relógios estejam parados.
Não! – Não é nada disso! – Mas, de dia os ruídos da vida sobrepõem-se-lhes.
Absorvem-lhe o pulsar. Diluem-nos.
Já, pelas noites dentro, no silêncio negro, o tiquetaque impera com a cadência ritmada dum metrónomo a impor o andamento.
No entanto, há relógios e … relógios.
Porém, não é de relógios especiais que quero falar. Esses, são raridades fora do uso comum. Estão para as minhas memórias como os palácios para os montes alentejanos.
São mitos.
Fantasias.
O relógio que mais me cativa, é (era) o mais vulgar: - o Despertador.
O serviçal despertador.

Mas, quando digo despertador não penso nesses pequenos computadores sofisticados, de agora, que piscam, acendem luzes, ligam rádios, oferecem músicas e mais um mundo de variantes sedutoras como se fossem a porta dum circo em noite de espectáculo.
Vade retro! – Não é nada disso!
Esses fenomenais aparelhos, pluriprestativos, estão para os despertadores da minha afeição como os foguetões interplanetários para o homem das cavernas.
Despertador, para mim, é um relógio redondo, atarracado como um nabo. Com duas pernitas escanzeladas a suportar um ventre imenso, bojudo como uma melancia.
Numerado a negro. Com dois ponteiros como metades de bigode mal aparado pendurados de um eixo, também negro, que marca o centro dum mostrador liso, como um nariz de ervilha num rosto de lua cheia.

Coroando o conjunto uma luzidia campânula, que se lhe ajusta como um solidéu.
Isso, é que é um despertador que se preza.
Uma peça à antiga.
Ruidoso, barulhento, abrutalhado (se quiserem) mas, fiel e resistente como um cão sem estirpe.
Há quem o renegue por incomodo e fora de moda.
Gostos.
Há gostos para tudo.
Gostos nem se discutem.
Tudo na vida é relativo e, eu, confesso ter também as minhas simpatias.
Aliás, gosto de relógios.
Quaisquer que sejam. Tendo, naturalmente as minhas preferências.
Pelo que já disse, é deduzível que prefiro os que conservem traços de origem quase artesanal.

Nada arrebicados, pretensiosos, a parecer o que não são.
Relógio – é relógio.
Se é de pulso. É de pulso. Penso-os discretos, achatados como rebuçados peitorais.
“Seiva de pinheiro” ou “Santo Onofre”.
Só tem que ser discretos. Essa é a primeira obrigação. Como é a de uma secretária ou assistente.
Eficiente, prestável mas, não muito evidente. Não, necessariamente centro de atenções.

Se for relógio de bolso! – Isso já torna as coisas diferentes! – Então se tiver corrente que o ate à casa do colete… oh! Aí, já tudo muda de figura.
Para quem pastorei o gado ou vá à caça ou à pesca em frias manhãs outoniças ou de duro inverno, fica a matar uma histórica “cebola”.
Dá um toque a preceito.
Faz a chamada às raízes. Ás velhas tradições que essas actividades evocam.
Quanto mais antiga for a peça – melhor.
Então, se herdada de pai, vinda já do avô ou do Bisavô…
Se for legado fiel ou oferta de padrinho – já não será apenas relógio – mas uma presença romântica do passado. E, toda a fantasia em seu redor se tornará crível. O relógio parecerá tão vivo quanto o cão e tão imprescindível como a água do cantil.
É evidente que um relógio assim já deixou de ser apenas um relógio e ganhou foro de parentela.
Mas… o despertador…
O despertador, quando se cala, gera um silêncio tão gelado e vazio que assusta.
Torna a solidão imensa, porque sem referência de tempo tudo perde o sentido e a memória convulsa asfixia como um pesadelo.

Ora!Ora! – Que lembrança esta, hoje!
Todavia, para o meu tempo, como para o tempo de toda a gente – quem dás as horas – não é o relógio – embora horas, horas, – só o relógio dê…
Maria José Rijo




