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HORAS… dão os relógios!

Sexta-feira, 16.01.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.322 – 27 de Outubro de 1995

Conversas Soltas

 

                 

Acordar quando o relógio para; não é o previsto.

Mas, também acontece.

Previsto é acordar quando ele irrompe no momento aprazado a fazer estardalhaço.

Aquele pulsar metálico, seco, miudinho, miudinho… - aquela indiferença com que o relógio mastiga compassadamente o tempo de alegria ou de dor, das nossas vidas, sem lhe tomar o gosto -  segundo a segundo – faz parte das nossas noite. Embala-lhes o sono.

                stll_alarm_clock_snooze.jpg

Não é que durante o dia os relógios estejam parados.

Não! – Não é nada disso! – Mas, de dia os ruídos da vida sobrepõem-se-lhes.

Absorvem-lhe o pulsar. Diluem-nos.

Já, pelas noites dentro, no silêncio negro, o tiquetaque impera com a cadência ritmada dum metrónomo a impor o andamento.

No entanto, há relógios e … relógios.

                       

Porém, não é de relógios especiais que quero falar. Esses, são raridades fora do uso comum. Estão para as minhas memórias como os palácios para os montes alentejanos.

São mitos.

Fantasias.

O relógio que mais me cativa, é (era) o mais vulgar: - o Despertador.

O serviçal despertador.

Mas, quando digo despertador não penso nesses pequenos computadores sofisticados, de agora, que piscam, acendem luzes, ligam rádios, oferecem músicas e mais um mundo de variantes sedutoras como se fossem a porta dum circo em noite de espectáculo.Homem da Caverna

Vade retro! – Não é nada disso!

Esses fenomenais aparelhos, pluriprestativos, estão para os despertadores da minha afeição como os foguetões interplanetários para o homem das cavernas.

 

Despertador, para mim, é um relógio redondo, atarracado como um nabo. Com duas pernitas escanzeladas a suportar um ventre imenso, bojudo como uma melancia.

Numerado a negro. Com dois ponteiros como metades de bigode mal aparado pendurados de um eixo, também negro, que marca o centro dum mostrador liso, como um nariz de ervilha num rosto de lua cheia.

                        

Coroando o conjunto uma luzidia campânula, que se lhe ajusta como um solidéu.

Isso, é que é um despertador que se preza.

Uma peça à antiga.

Ruidoso, barulhento, abrutalhado (se quiserem) mas, fiel e resistente como um cão sem estirpe.

Há quem o renegue por incomodo e fora de moda.

Gostos.

Há gostos para tudo.

Gostos nem se discutem.

Tudo na vida é relativo e, eu, confesso ter também as minhas simpatias.

Aliás, gosto de relógios.

Quaisquer que sejam. Tendo, naturalmente as minhas preferências.

Pelo que já disse, é deduzível que prefiro os que conservem traços de origem quase artesanal.

                         clock

Nada arrebicados, pretensiosos, a parecer o que não são.

Relógio – é relógio.

Se é de pulso. É de pulso. Penso-os discretos, achatados como rebuçados peitorais.

“Seiva de pinheiro” ou “Santo Onofre”.

Só tem que ser discretos. Essa é a primeira obrigação. Como é a de uma secretária ou assistente.

Eficiente, prestável mas, não muito evidente. Não, necessariamente centro de atenções.

                Relógio antigo

Se for relógio de bolso! – Isso já torna as coisas diferentes! – Então se tiver corrente que o ate à casa do colete… oh! Aí, já tudo muda de figura.

Para quem pastorei o gado ou vá à caça ou à pesca em frias manhãs outoniças ou de duro inverno, fica a matar uma histórica “cebola”.

Dá um toque a preceito.

Faz a chamada às raízes. Ás velhas tradições que essas actividades evocam.

Quanto mais antiga for a peça – melhor.

Então, se herdada de pai, vinda já do avô ou do Bisavô…

Se for legado fiel ou oferta de padrinho – já não será apenas relógio – mas uma presença romântica do passado. E, toda a fantasia em seu redor se tornará crível. O relógio parecerá tão vivo quanto o cão e tão imprescindível como a água do cantil.

             

É evidente que um relógio assim já deixou de ser apenas um relógio e ganhou foro de parentela.

Mas… o despertador…

O despertador, quando se cala, gera um silêncio tão gelado e vazio que assusta.

Torna a solidão imensa, porque sem referência de tempo tudo perde o sentido e a memória convulsa asfixia como um pesadelo.

                 Despertador retro

Ora!Ora! – Que lembrança esta, hoje!

Todavia, para o meu tempo, como para o tempo de toda a gente – quem dás as horas – não é o relógio – embora horas, horas, – só o relógio dê…

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:46





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