Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Lembremos Sebastião da Gama
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.293 – de 31 de Março de 1995
Conversas Soltas
Desde que, há anos – que já nem posso contar -me caiu sob os olhos um poema de Sebastião da Gama, ganhei o gosto de ir lendo tudo quanto dele, se fosse publicando.
Depois, por acaso, cruzei-me, nestes caminhos de viver com grandes amigos seus profundos conhecedores e apaixonados da sua obra.

Antigos companheiros de Faculdade que, se recordavam do Poeta pela qualidade dos seus poemas, amassavam sempre essas lembranças com a qualidade do Homem que Sebastião era – que Sebastião – foi.
Pelo que dele ia sabendo, quer através da saudade da Matilde Araújo, quer pela evocação de João Falcato, colhi a certeza de que toda a gente – toda a gente sem excepção – que um dia conheceu Sebastião da Gama – à sua maneira – amou esse Homem Poeta – mesmo quando dele não sabia dizer, de cor, qualquer verso.
Para completar esta “devoção” tivemos, meu marido e eu, a oportunidade de privar durante algum tempo com os Pais e irmão de Sebastião que tinham uma “Estalagem” na Serra da Arrábida para onde costumávamos ir no Verão.

Foi através das pequeninas histórias da infância de Sebastião que sua doce Mãe me contava que “aprendi” a ver o menino me contava que “aprendi” a ver o menino que ele fora, ali mesmo, no coração da “Serra Mãe” que tanto sustentou a sua alma de Poeta.
Ora, não é que um dia, o acaso trouxe até mim: - Joana Luísa - sua mulher!
Pois, foi agora, de suas mãos, que recebi, enternecida e muito grata, um exemplar do primeiro volume das suas cartas.
Cartas que se lêem a correr, a correr, com pressa de chegar ao fim. Para depois serem relidas, uma e outra, outras vezes, com vagar – para lhes tomar melhor o gosto.
Cartas, de que se decoram sem dar por isso, retalhinhos – palavras – versos – intenções, que nos ficam no coração e nos adoçam a vida.
A edição é: “Ática”.
A introdução, selecção e notas é de
Joana Luísa da Gama.
O prefácio é de Maria de Lurdes Belchior que a certo passo diz:”… O poeta tem a consciência da “diferença” e o leitor das suas cartas admira nelas a espontaneidade, a beleza, a generosidade, e vai decifrando, deslumbrado, o itinerário de um homem bom”
“… O seu convívio quotidiano revelano-lo como um extrovertido, em certas horas esfuziante de alegria, sempre atento aos outros, em especial os mais humildes”.
“…Mas por detrás do homem comunicativo, brincalhão, há o outro, o que sofre interiormente as agruras de medos e pavores que só Deus serena.”
Há nestas cartas/textos de autologia sobre o conceito ou conceitos de poesia que são os meus, há alusões aos poetas que admira e que considera seus mestres.
Apenas duas ou três citações que o testemunham assim:
Cheguei à conclusão de que a missão do Poeta é, não só explicar aos outros a grandeza da Criação Divina, – e nisso há também grandeza ou, antes bondade de Deus em no-la mostrar mas tentar o aperfeiçoamento do Homem.
Ou
Os meus versos são uma espécie de montra onde eu exponho toda a minha alma.
Ou ainda:
Sabes qual é o único projecto que eu tenho no campo da minha Poesia?
É conservar-lhe sempre a honestidade e o tom íntimo…
… O leitor terá de entender ou pelo menos respeitar os códigos por que se pautou a vida do poeta que se propunha:
Converter as coisas, procurar toda a beleza contida nas coisas, para se não viver em vão”.
- Julgo que se alguém esteve comigo nesta Conversa Solta – até aqui – só terá agora que ler o livro de que estivéssemos a falar e abre com este pequeno poema:
Aconchega-te, Amor, em minha vida
Entra na minha vida e fica lá,
Sem ocupar lugar.
Que eu te não veja com os olhos querida,
Que não sinta sequer que tu ficaste,
Mas adivinha que sem ti ali
À minha vida, quarto aonde entraste,
nem ao menos podia chamar vida
Sebastião da Gama
Azeitão, 25 de Julho de 1944
Acho.
Acho, mesmo, que este é o recadinho do mais íntimo da nossa alma que, qualquer um de nós – sem disso se dar conta – quis, pelo menos uma vez, enviar a alguém…
Ser poeta é também isso: anseio de mais alto, entrega e cumplicidade com o mistério das coisas.
Das palavras que Joana Luísa escreveu – nada direi.
Fixo-me apenas no que ela fez.
Ela, deu-nos estas cartas.
Rendo-me à sua corajosa generosidade tão à medida de Sebastião Artur e abraço-a:
Obrigada!
Maria José Rijo




