Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
O tema do momento
Jornal Linhas de Elvas
Nº 2.738 – 5- Dezembro - 2003
Conversas Soltas

Como numa trança, entrecruzam-se três assuntos, a pedofilia, a justiça e a comunicação social, que configuram o inesgotável tema do momento.
Não há revista, jornal, rádio ou televisão, onde qualquer destes temas, ou todos eles, não sejam tratados dia a dia observando-os de frente, de lado, ao viés, de baixo para cima ou de cima para baixo, ou, ainda, virados e revirados do direito e do avesso.
Mas fala-se como?
A comunicação social, coscuvilha e fala da palidez de alguns detidos, dos horários e temperatura da água do banho de outros, do emagrecimento e dos cabelos embranquecidos de A ou B, das visitas de quase todos, e de outros detalhes de “lana-caprina”...
Não fora isso e o assunto seria tratado de relance, como foi até agora...
Quero dizer: - não sei se veja, ou, se não veja, não tenho a certeza do que é mais conveniente, ou dá melhor com o meu vestido ou a minha gravata...
Se calhar o melhor é fingir que não vi, que nada sei e que tenho raiva de quem souber.
Assim, como assim, não tenho ninguém meu na Casa Pia...
Passe o sarcasmo!
É que nestas alturas sempre me recordo do indivíduo que ao dependurar o amigo da forca, troçava por ele ter a língua de fora; e ao ser repreendido pelo desacato, disse: se eu não risse, o meu pranto era tamanho que me cegava, e não seria capaz de fazer este trabalho...
Ás vezes é assim.
Quando se pensa que problemas desta gravidade e importância deviam ser noticiados de forma a dar sempre consciência do drama, da tragédia, que representam, sem lhes desvirtuar a acutilância, banalizando-os com inúteis pormenores e bagatelas...
Quando se pensa que as centenas de vítimas neste caso são – crianças!
Quando se pensa que não é de hoje, mas já de ontem, que a problemática de crianças fechadas em instituições, merece e precisa ser estudada até às últimas consequências, avaliada, sanada e acautelada para o futuro, da forma mais profunda e eficaz possível...
Quando se pensa que de uma desgraça deste calibre, se fala por vezes com a displicência, com que se trata do preço do pescado ou da fruta. A gente, mesmo sem querer, arrepia-se!
Quando morre alguém de renome, fazem-se chamadas especiais, interrompem-se noticiários, ”engravatam- se” as vozes, muda-se-lhe o tom, para significar quão dramática é a perda, quão dolorosa é a circunstância...
Como se pode então sem pedir perdão de joelhos à Vida, falar das vítimas da pedofilia!
Porquê frente a este luto, luto nacional, luto de alma, falar despudoradamente, como se fala de uma outra coisa qualquer...
Não entendo.

Como não entendo que se prenda alguém para investigar depois...
Como ninguém entenderá o rapa, tira, põe ou deixa a que são sujeitos os intervenientes deste – arrastadíssimo – processo...
Verdade que não entendo.
Mas, entre as pessoas comuns, - como eu,- alguma entenderá?
Tenho dúvidas.
Maria José Rijo


