Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
A visita de Maio
Jornal O Despertador
Nº 233 – 28 de Maio de 2008

A Mulher, tinha nascido na aldeia de Santa Clara do Lorêto, a que toda a gente, não sei porquê, chamava de aldeia da Boa- Vista.
Pensando agora nisso fico surpreendida por, enquanto vivi em Beja, nunca me ter dado à curiosidade de investigar o porquê destas duas designações para a mesma localidade, estando ali tão perto…
Eu tinha feito o Liceu

Dois anos antes de mim, minha irmã entrara, para o velho Liceu Fialho de Almeida, situado, então, na ampla e bela Praça da República, que pelo novo foi substituído quer no nome, quer na localização.
Fialho vivera em 
A casa era antiga e bela, com um amplo quintal, cheio de violetas nascidas ao acaso pelo chão e, em tufos, rente ás paredes. Tinha uma acácia de copa majestosa, de flores brancas como a da casa de Camilo em Seide,
Dela, também se poderia dizer como Régio da sua própria:
“Cheia dos maus e bons cheiros –
Das casas que têm história,
- Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória –
De antigas gentes e traças,
- Cheia de sol nas vidraças –
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
de silêncios e de espantos, _
Quis-lhe bem como se fora –
Tão feita ao gosto de outrora –
Como ao do meu aconchego.”
Era assim – também - que eu a sentia e, em viver nela me deliciava.
Ora esta conversa encadeou-se, sem que disso, quase, me desse conta, porque a postura absolutamente vertical daquela – tal mulher - a que dei trabalho e depois se tornaria uma grande amiga que ainda conservo, volta e meia, retorna à minha memória como me ficou registada no coração especialmente quando vejo gente, sem reagir, acomodada ao infortúnio.
E, isso aconteceu, quando regressei a esses locais onde havia passado infância e juventude
para, então com meu marido, voltar a habitar em plena época do vinte e cinco de Abril.
A mulher que se postou na minha frente para contratar trabalho, era ainda nova. Trinta anos, talvez.
Deixara o campo, porque sofria do estômago e já não conseguia suportar a dureza dessa vida.
Todos os habitantes, da aldeia, como ela também, pagavam foro ao dono do povoado para lá terem suas casas, porque todo o chão lhe pertencia.
Era tudo gente nascida e criada nesses tempos de submissão e dependência dos grandes proprietários.
Pois mesmo assim, ou por virtude disso, ao outro dia quando se apresentou para trabalhar, olhou-me de frente, bem nos olhos e perguntou, numa voz segura e fria: - para onde é que a senhora manda o meu corpo?
É desta fibra a minha gente alentejana.
Maria José Rijo



