Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
VOLTEI A CUBA
JORNAL O Dia
1994
Os caminhos do tempo são, fatalmente,
Há no entanto, um instinto irresistível que nos obriga a olhar para trás com frequência.
Volta-se a lugares. Procuram-se vestígios. Encontram-se pessoas. Surpreendemo-nos com “estranhos” que nos foram íntimos em épocas passadas e que vivencias diferentes de nós distanciaram.
Voltei a Cuba. A Cuba de Fialho – não a de Fidel.
Lá está ainda, no largo do Tribunal, o prédio que ele desdenhou comentando em tertúlia de amigos - (onde o proprietário gabando-o, impava de vaidade).
-“ A fachada é original! é! – parece uma secretária de pernas para o ar”.

Nós vivêramos na casa marcada pela lápide porque fora de Fialho de Almeida. Isso tornou-se um estigma ou um sortilégio, para mim. Não sei mesmo se ambas as coisas.
Na vizinhança as pessoas de mais idade haviam-no conhecido. Repetiam-lhe os ditos, contavam-lhe as histórias.
De contos de gente crescia eu ávida.
Ia sentar-me junto da bordadeira já idosa, ou talvez, só murcha, pálida, serena, e bonita como uma imagem de cera, que, com gestos delicados, paciência e linhas de filosela de seda fazia florir as roupas do meu enxoval de moça casadoira e, enquando bordava – contava, contava, contava…
-- “O Senhor Doutor” – referia-o sempre assim.
--“O Senhor Doutor” – dizia à minha Mãe – põe meias de cor à rapariga! Ela é tão branca que toda a gente vai dizer que a trazes de pernas ao léu…”
-- Havia aí um homem que era muito vaidoso e, porque era rico e benemérito da terra, a tudo, ou quase tudo se referia dizendo: - isto fiz eu.
Ora ele era solteiro e um pouco esquisito. Aqui o tom de voz e a cor lhe subia ao rosto é que faziam a definição de equívoco.
Um dia, surgiu no grupo com um menino ao colo – era um afilhado. Logo Fialho sarcástico:
-- Oh, fulano – tu não me vais dizer hoje: - Isto fiz eu! “
Eu bebia estas histórias que arquivava com o tom de deferente enlevo em que sempre era referido o Senhor Doutor.

Depois, havia o jazigo, com os gatos de pedra, enroscados rematando a pequena abóbada. A frase ao lado da porta “miando pouco, não temendo nunca, arranhando sempre”.
Era tudo isto e era habitar a casa que lhe pertencera.
Respirar o perfume melado da acácia espinhosa que floria em cachos brancos logo ao lado da cisterna, no quintalzinho sombrio onde as violetas, que espontaneamente alastravam debruando as paredes rente ao chão, davam ao conjunto um toque de nostalgia tristeza como se o quintal fosse um claustro onde se evocasse uma qualquer soror Mariana consumida de desejos de amor.
Nunca liguei aquele ambiente ao perfil que criara de Fialho. À sua argúcia, ao seu destemor brigão, à sua mordacidade, à quase irracional brutalidade da força com que por vezes queima a sua prosa.
- “A coira esticou o pernil”. Com esta frase que põe na boca dum personagem fecha a história dum estupro, que ali em rapariga e, ainda hoje sangra na minha sensibilidade.
Mas… o que eu vinha a contar e já se me escapava era uma graça que teria divertido Fialho, penso!
Após o 25 de Abril, ali por Dezembro, andaram uns aviões a fazer piruetas lá por aquelas paragens. Com seus rastos de fumos coloridos deixaram desenhadas no ar enormes foices que o povo olhava fascinado – apelidando a habilidade de milagre. O menino, 5 anos espertos, viu também e comentou no mais castiço vernáculo alentejano:
-“Ò menino Jesus dum cabrão, atão voceia também já é comunista?”
-“Ai, nino! Já não mamas nada no Natal – vais a ver! – aí o que tu dissesti” – respondeu a irmã um nadinha mais velha e já cautelosa com as coisas do sobrenatural.
- Dêxa! – desabafi”
Porém, pelo sim, pelo não, entrou em casa sorrateiro, foi à chaminé – que sempre será o único telefone directo para o Céu – e disse:
- “Olhe lá menino Jesus – aquilo quê dissi foi a brencari…”
Também se nasce génio em política e diplomacia – digam lá o que disserem.
Maria José Rijo
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VOLTEI A CUBA
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