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Carnaval - Reminiscencia V

Sábado, 21.02.09

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.489 – 5 – Fevereiro - 1999

Conversas Soltas

Reminiscências 5

 Carnaval

Ora ainda bem que o Carnaval chegou!

Só assim, com máscara, serei capaz de contar algumas reminiscências especiais, o que, se calhar, noutra altura, não me atreveria a fazer.

Começo por uma história que sempre ouvi referir como aprendida em Barrancos.

Até calha bem! - Barrancos, agora está na berlinda.

Creio, que em boa verdade, o contador, senão, o inventor, desta brincadeira situava em Barrancos todas as anedotas que contava. Ele tinha um bom motivo. Era a mistura de espanhol e português que compõe o dialecto que por lá se usa. Usando-o tornava a linguagem mais colorida e conseguia da assistência reacções mais efusivas

Então a garotada delirava de riso. Mas vamos à história!

Parece que um santeiro quis comprar a uma mulher o tronco de uma velha laranjeira para com ele esculpir um S. Cristóvão. A proprietária do cobiçado material, não estava muito disposta ao negócio porque era lá que atava o burro sempre que o arreava para ir à vila tratar da sua vida ou, no regresso, para descarregar os seus avios.

Porém ao perceber a finalidade a que se destinava o tronco, cedeu prontamente. A partir de então tornou-se devota do santo e quase o considerava como membro da sua família.

Ia vezes sem conta à capela onde a imagem era venerada e com ela mantinha em pensamento conversas sem fim. Ora acontece que uma das suas filhas ficou para casar e a nossa heroina lá foi mais uma vez desabafar com o seu santo. Contou-lhe das suas dúvidas e receios por tal casamento e concluiu as suas preces, de pé, em frente da imagem enaltecendo e valorizando assim a sua intimidade:

                  

                   S. Cristóvão poderoso

Milagreiro

Obra prima do santeiro

Pureza de criatura

Maravilha de escultura

Varão santo

Cara de anjo

Olhar doce

Divinal

Milagre da natureza

Da estaquita do meu burro

Sois irmãozito carnal

 

Mas... há sempre um mas; e, o dito casamento foi uma verdadeira catástrofe e a nossa heroína ofendida com a negligência do santo, que não cuidou de servi-la a contento, como ela pensava, ser de sua obrigação, dada a sua origem que lhe era tão familiar - não fez mais nada -  cruzou o xaile no peito, avançou furibunda para o santo e em altas vozes deu largas ao seu ressentimento dizendo:

 

S.Cristóvão

Cristobaça

Pataça

Manaça

Cara de cuerno

Patifon

Assim como tendes las fuças

Assim me deste el genro

 

E, assim, numa brincadeira, se põe a nu a mudança que se opera nas pessoas quando os seus interesses são beliscados.

Passam, os ídolos invocados, de santos a demónios e, no auge da ira, por não puderem por o mundo a rolar a seu gosto, esquecem as blandícias com que pretendem levar os outros a servi-los e mostram, até na linguagem, a verdade dos seus corações.

Sábio é o povo. Tolo, será, quem não o entender.

 

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 22:41





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