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Reminiscência - A Ladainha

Quinta-feira, 26.02.09

Jornal linhas de Elvas

Nº 2.815 -- 26-Maio – 2005

Conversas Soltas

Reminiscência – Nº 20

A Ladainha

 

Rezar o terço era nas famílias portuguesas um costume ancestral.

Não sei, se sempre se rezaria por fé, por necessidade espiritual ou se nalguns casos seria apenas uma tradição, um ritual bonito que por essa razão se mantinha e cumpria como quem faz filhós ou queijadas nas épocas próprias.

Ainda me lembro de ver, em casas grandes que visitava, à boca da noite, patroa e criadas, naquelas horas mortas entre o jantar e o deitar, nesses longos serões, rezarem em conjunto.

Em voz alta, desfiando o terço, a senhora da casa anunciava os mistérios enquanto as acompanhantes em lugar de correr também os dedos pelas contas, puxavam as lãs “enchendo” em ponto de Arraiolos tapetes para os herdeiros da família, ao mesmo tempo, que recitavam as orações.

Noutras casas era diferente.

Havia famílias que iam à igreja cumprir as suas devoções, ou cumpriam-nas em suas casas, mas não impunham nem sugeriam quaisquer obrigações a quem as servisse, embora desde que o solicitassem fosse aceita de bom grado a sua companhia.

O mais comum, era em cada família, serem os elementos de mais idade a gerir os preceitos do comportamento geral e ninguém se eximir a esse desiderato.

Assim, de geração em geração, passavam as orações que já chegavam ao conhecimento dos mais novos com as legendas explicativas de: - já minha mãe ou minha avó rezavam assim...ou, foi com fulana ou beltrana que aprendi...o que fazia que nunca se perdessem de vista os “direitos de autor” quando se divulgassem.

Curioso, era que, na maior parte dos casos os homens embora ficando por perto não tomassem parte no acontecimento. No entanto, se fosse caso disso, com a maior naturalidade diziam: - a essa hora não porque é a hora das orações.

Era pois facto assente que o ritual fazia parte do quotidiano estabelecido e aprovado.

Na casa de meus pais, a mentora das devoções era minha Avó que na hora certa convocava minhas tias, e as netas, anunciava alto e bom som o evento para quem mais quisesse aderir e iniciava as suas jaculatórias a que se seguia o terço e a ladainha.

Até aqui tudo bem!

O pior é que minha Avó persistia em ler a ladainha em latim.

Meu Pai, com o seu sentido de humor não perdia pitada, escondia a cara por detrás do jornal que parecia ler e assistia sorrindo deliciado ás silabadas que sua Mãe dava e nós em coro repetíamos

Eram cenas de Verão, lembranças de quando já não havendo aulas estávamos de férias em casa.

Memórias daqueles dias imensos em que o calor do Alentejo convidava à quietude e à contemplação.

Entretanto faziam-se horas para jantar. Corríamos então ao quintal para ver quem chegava primeiro para tirar a cesta pendurada por uma corda para dentro do poço onde a garrafa do vinho para a refeição e a melancia, ou outra fruta, tinham estado toda a tarde a refrescar, que a água que se bebia era comprada à porta, ao aguadeiro, e guardada em cântaros de barro, nas infusas, como por lá se dizia, e, essas ficavam à noite ao “sereno” para haver água fresca o dia inteiro.

olhares_exposicao_alentejo.jpg

E, tudo isto, foi apenas outro dia, aí para trás...quando não havia televisão, nem rádio, nem frigoríficos, nem máquinas de lavar...

Há mais de cinquenta anos; é certo!

Mas, foi já, na minha geração.

 

Maria José Rijo.

 

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publicado por Maria José Rijo às 19:51





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