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Oiro e Prata

Sexta-feira, 13.03.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2.055 – 10 Agosto de 1990

 

 

                    Ouro e Prata mesmo quebrado ou amassado Platina, Cautela de penhor da CEF.

“O Silencio é de Oiro – a Palavra é de Prata!”

Quanto mais penso neste aforismo menos concordo com ele, tão definitivo, tão dogmático se me afigura.

Para mim, a ter que decidir por escolha, daria o ouro à palavra. A palavra pensada responsável que engana, compreende, conta, vincula, esclarece.

De prata seria o silêncio acobardado que encobre, cala, consente, acachapa, alaparda. Não nego ao silêncio, por vezes, o valor que lhe cabe quando é sinal de prudência, pudor, táctica até.

             

Não, não nego. Aflora isso, não vejo porque doura-lo, por sistema. Ele pode ser egoísmo, incompreensão, desinteresse, comodismo, oportunismo, medo, cobardia. Pode também ser luto e morte.

A ter de rotular, em definitivo, qualquer deles daria, mais espontaneamente, o ouro à palavra. Atribuir-lhe o ouro da garantia, de compromisso da responsabilidade, do penhor, da reserva cautelar.

                     silencio

Evidente que o compromisso também envolve medo. Mas, medo assumido, medo identificado é medo comandado, domável. E o medo que despoleta, empurra para a decisão, para o risco de viver sem mascara, rosto ao leu batido de chuvas e sois.

Só o ser humano fala e pensa.

Não poderia assim ser de ouro o silencio e de prata a palavra. Não poderia.

Ninguém vale mais a dormir do que acordado.

          

Silencio, sim – mas quando signifique decisão, obstinada decisão de não soltar a palavra. Então não é silêncio de morte. Pode ser a coragem de prender a palavra, pensada e retirada – mas palavra – embora recusada.

Aí, concedo-lhe o ouro.

Silencio, só silêncio por silêncio – pode apenas ser espaço oco – vazio – vácuo.

Aí – nem de ouro nem de prata.

Também nem de ouro nem de prata se for ambíguo, intrigante, esfíngico. Também não.

O dia é dia. A noite é noite.

         

Talvez o silêncio seja a incerteza do anoitecer. Tem os seus encantos. Tem. Tem os seus perigos, também. E, é isso.

Ouro e Prata sempre quer para a palavra quer para o silêncio – não é a solução. Melhor. É a solução demasiado simplista.

Oiro e prata a cada qual algumas vezes. Outras não. Questão de circunstância, de compreensão, inteligência do momento.

                   

Porém, obrigada à escolha, em última análise – votaria na palavra.

Sim. Creio que sim.

No princípio era o verbo.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:36





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