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Motivo de Conversa

Sábado, 21.03.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 2016 – 10 de Novembro de 1989

  

Diz um provérbio árabe que só vale a pena atirar pedras às árvores que dão fruto.

Devem de ter razões os árabes.

Atirar, pedras só por atirar, não passa pela cabeça dos árabes (pode deduzir-se).

Deve parecer-lhes coisa à toa, sem sentido e se calhar, os árabes, gostam de identificar o sentido daquilo que fazem.

Desta maneira, atirar às árvores carregadas, dentro da mentalidade árabe, já se justifica.

Haverá sempre hipótese de derrubar alguns frutos para consolar a gula de quem os cobice, ou de amainar a raiva de quem só queira destruir.

De qualquer modo será sempre um gesto com consequências lucrativas para quem o exerça e parece-me que também, a indicação de pistas, ficará a saber onde estão os frutos.

Não sei se isso, foi previsto pelos árabes. Não sei porque o povo português não tem grandes semelhanças com os árabes.

Nunca a imaginação dos portugueses criaria uma “Xerezade”, a “Lâmpada de Aladino”, “Ali Bábá”, as “Mil e uma noites”. Também os espanhóis jamais inventariam tal história.

Mas, em contra partida, D. Quixote, só a Espanha o poderia idealizar. Esse sonhador de quimeras, e o seu pesado contra-ponto Sancho Pança, realista e prosaico, lento e seguro do seu bom senso sem horizontes como o simpático burro que o conduzia – nunca seria, nem por hipóteses, árabe ou português.

Os povos encontraram sempre, na sua sabedoria colectiva, expressões simbólicas ou figuras de lenda e heróis que os representam como reflexo da sua maneira profunda de ser. Da sua verdade interior, da sua génese.

               CAMOES.bmp

Ás vezes, chego a ter pena que Camões tivesse existido, porque Camões é tão genuinamente português, que tinha todos os condimentos para ser mentira. Para ser a figura de ficção criada pela alma do povo que se lançou mar-a-fora, à procura da sua história no caminho dos descobrimentos.

                

Talvez por isso, o português saudosista, gema o fado, os

                          

 

espanhóis dancem como a contorcer-se em estertores de amor e agonia, e os

                                 

árabes “Lamuriem” os seus salmos sem fim como se tivessem que durar as “mil e uma noites”.

Ou talvez não seja nada disto, que pensei, por acaso, e achei engraçado para motivo de conversa.

 

 

Talvez até quem goste de conversar a falar se entenda sem atirar pedras.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 20:16

Dolores

Sábado, 21.03.09

 

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