Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A DANÇA

Quarta-feira, 01.04.09

Á LÁ Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.782 – 19 de Abril de 1985

  

Muitas vezes me lembro daquele mundo rústico onde cresci, aquela viva universidade onde aprendi o gosto de ser gente.

Lembro a maneira directa de falar e fazer coisas – nem sempre desprovida de malícia – mas de leitura de intenções sempre fácil.

              

Por lá as chuvas não tinham as designações de aguaceiros, chuviscos e outras de meteorologia erudita.

Não! Lá eram “morrinhas”, “moraças”, “molha parvos”, “porradas de água” ou “águas de pedra” que podiam ser coisas de “somenos” e as cearas ainda não eram nascidas ou “desgracia” se vinham com as “trovoadas” de Maio e eram de “pedragulhos” do tamanho de “arraios” ou ovos de perdiz …

Os ventos eram “arages” charôcos” “ventaneras” ou buzaranhas dos diabos” – conforme a intensidade…

As empreitadas eram “adiafas” e, como toda a alegria, tinha por matriz o trabalho – quando terminadas eram motivo para festas com cómoda e bailes – “os balhos”.

As moças, de saia, blusa e lindos aventais, sentavam-se enfileiradas rente ás paredes em redor da “sala” como loiça em cantaria. Os homens apinhavam-se na rua junto ás portas e janelas, fumavam, cuspiam para o chão largavam picardias e dichotes” enquanto com olhos cobiçosos e gulas recalcadas, faziam a escolha do par para a dança.

ODestaque: Os Bailes Tradicionais tocador de gaita-de-beiços ou concertina, lenço de chita colorida atado em volta do pescoço, ás vezes tocava e dançava ao mesmo tempo.

As “acompanhantas” (tias, avós, mães ou comadres) ficavam para salvaguarda do “respêto” “górdando” atentas para evitar “moengas”.

Mal a música começava ou recomeçava – que o tocador tinha ás vezes que cuspinhar nas mãos para as amaciar – “eles” avançavam e, pela força do hábito de lidar com os gados da lavoura – estendendo os braços – faziam o convite da praxe, - “Voceia quer vir batê-las” – engate-se aqui nestes varais!”

Elas, levantavam-se, “com pasua”, alisavam as pregas das roupas com as costas das mãos, deixando-se enlaçar pela cintura e o rodopio começava. Às vezes, levados pelo entusiasmo e pela volúpia do calor da vizinhança dos corpos, os homens, aproveitavam as voltas do baile para “apertar” mais a si as raparigas.

Então, quando poderia parecer que “elas” já nem sabiam o chão que pisavam – temendo pelo decoro – fosse o par manageiro, feitor, filho de patrão, ganhão ou “ratinho” – a moça com uma exclamação “à altura” do convite que recebera, empurrando, com força, o par, pelos ambos, dizia libertando-se: - “Xó aí! – quero-me decéri!”

Voltava então ao lugar, junto das matronas guardiãs, deixando o parceiro, só, especado no meio do baile, (desenvergonhadices, não!”.

 

Lembrei-me disto, a propósito da dança em que anda “o par da coligação reinante”.

Ora um, ora o outro – perdido o pé do chão firme – quase se estrangulam com o abraço que os ata na volúpia do poder.

Nenhum tem, porém, a coragem das moças lá da aldeia para dar o safanão libertador, deixar o baile, e reassumir com dignidade uma posição de compostura – que nós, que presenciamos – merecemos por direito.

 

Maria José Rijo

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Maria José Rijo às 21:52





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Abril 2009

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930


comentários recentes

  • Anónimo

    Lindo,como sempre

  • Anónimo

    Querida Tia Maria JoséQue alegria chegar mais um d...

  • Anónimo

    Minha querida e Boa amigaque alegria chegar aos 93...

  • Anónimo

    Minha querida tiaEu sabia que era hoje o dia do se...

  • Anónimo

    Titia queridaQue alugria nesse seu aniversário.Des...


Pensamentos de Mª José

@@@@@@@@@@@@@@@@@

@@@@ O caminho acaba ali... Ali onde começa a descoberta, O caminho é sempre estrada feita O fim do caminho É uma porta aberta... Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Quando o homem se render à força que o amor tem e a arma for oração pulsará na vida a paz como bate um coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Ser semente do futuro, é a mensagem de esperança, Que como um recado antigo, A vida nos dá a herança.- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@ Eu penso, que é saudável e honesto reconhecer e respeitar as diferenças que nos individualizam no campo, também dosi deais.----- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@ Há uma tal comunhão entre a obra e o autor Que até Deus concebe o Homem e o Homem - o Criador! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ UMA IDEIA : É uma LUZ que se acende i nesperadamente no nossos espirito iluminando um caminho novo. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Sei para onde vou- pela ansia de galgar a distância- de onde estou- para o que não sou. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ A solidão é o que preenche o vazio de todas as ausências. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Quando na vida se perde, Um amigo ou um parente, P’ra que serve a Primavera? Se o frio está dentro da gente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Mesmo sobre a saudade, a doçura do Natal, embala cada coração como uma música de esperança. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Em passadas de gigante nobre de traça e idade vem da nascente p'ras fontes dar de beber à cidade. -- Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Nas flores como nas pessoas, ás vezes a aparente fragilidade também pode esconder astúcias e artificiosos bluffes ”. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ A cada um seu direito, A cada terra seu uso, A cada boca um quinhão, A cada roca seu fuso, Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Seja cada dia um fruto- Cada fruto uma semente- Cada semente o produto- Dos passos dados em frente. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Coisas e loisas esparsas- Como a ferrugem – se pica- Como a lama dos caminhos- Se pisada… nos salpica. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Todos os dias amanhecem Crianças Pássaros Flores ! Sobre a noite das crianças Pássaros Flores que já não amanhecem Amanhecerá! Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@ Ao longe vejo Olivença Mais perto, Vila Real A meus pés o Guadiana Correndo manso – na crença De que tudo é Portugal Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Pátria sagrada de povo, Que emigrada- ganha pão, estás repartida- mas viva Se te bate o coração. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Portugal mais se define Onde a fronteira se traça Pode partir, mas não dobra Quem defende Pátria e Raça Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@ Bom seria se os recados do nosso coração chegassem ao ouvido de quem os motiva, porque então saberíamos como somos queridos e lembrados sem necessidade de telefones ou cartas. As comunicações seriam de coração para coração como a música de alma que se soltasse de um poema. Maria José Rijo @@@@@@@@@@@@@@@@@@

LIVROS PUBLICADOS:

-E vim cantar- 1955@ -Paisagem- 1956@ -Rezas e Benzeduras- 2000@ @@@@@@@@@@@






ARTIGOS PUBLICADOS Em :

Jornal Linhas de Elvas - Desde 1950 @ @@@@@@@@@@@ Jornal da Beira - (Guarda) @@@@@@@@@@@ Jornal da Ilha Terceira (Açores) @@@@@@@@@@@ Jornal O Dia @@@@@@@@@@@ Jornal O Despertador @@@@@@@@@@@ Revista Norte Alentejo @@@@@@@@@@@


links

Um pouco de mim...

EFEMERIDES

Blogs- quem nos cita

Deambulo por

Culinaria

K I K A

Paginas de Diário

2010

2011

2012

2013

2014

2015

2016

2017

2018

2019

Cá estou ...

Mais alguns...

Alguns...

Alentejo

Eurico Gama

Artigos sobre...

Escola Musica / Coral

Elvas Cidade...

Escritores e...

A Familia

Sebastião da GAma

Minhas sobrinhas Bisnetas

Meus sobrinhos Netos

Meus sobrinhos

Diversos...

Páscoa

São Mateus

Cartas especiais

noticias em Jornais

Dia da Criança

Cartas do Brasil- 1996

AÇORES

Juromenha

Col. de Gastronomia

O Natal

Exp. MuseuTomaz Pires-1984

Exposição PERCURSO-2008

HistóriasCmezinhasEreceitas

Revista Sénior

JOSÉ RIJO

Hospital e Maternidade

Livro de Reminiscências

Livros- de HistóriasInfantis

  • A história da Cotovia
  • A história de uma Flor
  • A historia do Castelo
  • AlendaMisterioso vale florido
  • O sonho da Joca
  • A menina de Trapo
  • A avó conta 1 historia
  • Conto - Margarida - 1
  • Conto-Margaridavaicontente
  • ... então sonhei!
  • O Cavalinho encantado
  • A princesa Jasmim
  • Aurinha está doente
  • Arnaldo o terrivel
  • A Cabrinha
  • Era uma vez ...
  • O pequeno castanheiro

Dias festivos

Programa de Poesia (radio)

Crónicas na Revista

Livro de Poemas - I

Livro de Poemas - II

Livro de Poemas - III

Livro de Poemas - IV

Aniversários Linhas

Livro Rezas e Benzeduras

Livro das Flores

LivroJoaoCarpinteiro

A Visita - Despertador

Programas se SãoMateus

Entrevistas

Entrevista - TV-Videos,etc

Visitantes no Blog

Aniversarios Blog



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

arquivos