Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Contos de Lembranças
Á Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.935 – 8 e Abril de 1988
Há umas dezenas de anos, não muitos, durante a Quaresma, alteravam-se profundamente a vida das famílias portuguesas.
Especialmente na Semana Santa, em Sexta-feira da Paixão, nenhum homem saía de casa sem gravata preta.
Por essa altura, as mulheres vestiam de luto rigoroso e iam às igrejas ou acompanhavam as procissões com as cabeças cobertas por longas mantilhas de rendas negras, que lhes caíam sobre os ombros como véus de viuvez.

Nas casas, as janelas conservavam-se meio fechadas, os pianos, os gramofones e as grafenolas emudeciam e a vida corria numa meia-luz de meditação e tristeza.
Falava-se mais baixo. Suprimiam-se sobremesas, e as pessoas responsáveis jejuavam e ciciavam orações sem fim.

Criava-se um ambiente de pesar que era explicado aos mais pequenos, com veneração e mistério: “revive-se a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”.
Com o relato doloroso do Calvário do Salvador misturavam-se histórias de família que eram recordadas e vividas como ritos. “Noutros tempos…” era a frase introdutória que trazia já implícita um jeito de parábola – e lá vinham os contos de devoções e sacrifícios presenciados nas Páscoas das suas vidas, às gerações já passadas.

Na penumbra dos quartos as lamparinas de azeite alumiavam os Cristos pregados na cruz dos oratórios, e os ramos de alecrim e palmas benzidas em Domingos de Ramos, ainda verdes, mas já murchos perfumavam vagamente o ambiente. As pequenas chamas tremelicavam sob o bafo das respirações e rezas, emprestando às gotinhas de sangue que pareciam escorrer das feridas do martírio das mãos e pés cravadas, e da coroa de espinhos.

Os corações sufocados de angústias ansiavam a hora do toque das Aleluias.

- Lá vinham as travessas de arroz doce rescendente de canela…

Maria José Rijo

