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Contos de Lembranças

Segunda-feira, 05.10.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.935 – 8 e Abril de 1988

 Contos de Lembranças

                 

Há umas dezenas de anos, não muitos, durante a Quaresma, alteravam-se profundamente a vida das famílias portuguesas.

Especialmente na Semana Santa, em Sexta-feira da Paixão, nenhum homem saía de casa sem gravata preta.

Por essa altura, as mulheres vestiam de luto rigoroso e iam às igrejas ou acompanhavam as procissões com as cabeças cobertas por longas mantilhas de rendas negras, que lhes caíam sobre os ombros como véus de viuvez.

       

Nas casas, as janelas conservavam-se meio fechadas, os pianos, os gramofones e as grafenolas emudeciam e a vida corria numa meia-luz de meditação e tristeza.

Falava-se mais baixo. Suprimiam-se sobremesas, e as pessoas responsáveis jejuavam e ciciavam orações sem fim.

         

Criava-se um ambiente de pesar que era explicado aos mais pequenos, com veneração e mistério: “revive-se a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Com o relato doloroso do Calvário do Salvador misturavam-se histórias de família que eram recordadas e vividas como ritos. “Noutros tempos…” era a frase introdutória que trazia já implícita um jeito de parábola – e lá vinham os contos de devoções e sacrifícios presenciados nas Páscoas das suas vidas, às gerações já passadas.

                  

Na penumbra dos quartos as lamparinas de azeite alumiavam os Cristos pregados na cruz dos oratórios, e os ramos de alecrim e palmas benzidas em Domingos de Ramos, ainda verdes, mas já murchos perfumavam vagamente o ambiente. As pequenas chamas tremelicavam sob o bafo das respirações e rezas, emprestando às gotinhas de sangue que pareciam escorrer das feridas do martírio das mãos e pés cravadas, e da coroa de espinhos.

             

Os corações sufocados de angústias ansiavam a hora do toque das Aleluias.

Com ele retomava-se a alegria, as visitas à família e aos amigos, os presentes de amêndoas e, dos fundos das casas, das cozinhas e das frescas dispensas, apareciam os folares coroados de ovos, as pombinhas e os lagartos de massas fintas, cheirosas de erva-doce, com olhinhos de pimenta preta e cravo de cabecinha.

       

- Lá vinham as travessas de arroz doce rescendente de canela…

- Lá vinham as queijadas, o pão-de-ló e as “amêndoas confeitadas” que haviam de adoçar a boca a toda a gente depois do chazinho digestivo de “cidreira” ou “Lúcia lima” que iria amenizar embaraço provocado pelos abusos de ensopados e assados no forno, bem servidos de especiarias – provocações tentadoras das mesas fartas – com que cada qual, à medida das suas posses e usos, celebrava com familiares e amigos a festa da alegria e da esperança – a Ressurreição de Cristo.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 18:25





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