Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
O Rico e o resto...
Á Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.864 – 28 de Novembro de 1986

Na televisão, uma cena que não convence ninguém, cativa a minha atenção. Dois actores muito conhecidos, fazem a apologia da maravilha que é ter uma pensão de velhice que acrescida agora de mais 13 por cento (e é o motivo de regozijo) fica tão tragicamente miserável frente à realidade do custo de vida, que a cena sugere em ensaio de qualquer quadro de revista, onde o humor negro marque o tom.

Talvez por estas e outras razões que rir é cada vez mais difícil. O riso para ser franco, aberto, saudável, livre como é a água que brota na fonte, tem que ter, como ela, força e ímpeto para vencer distâncias, obstáculos, romper a crosta e surgir á superfície, viva e fresca na nascente…

Talvez porque a vida vai depositando em nós sedimentos sem fim de pequenas grandes misérias que se sofrem e sentem, a gargalhada fácil e espontânea da criança e do adolescente… vão sendo no adulto… cada vez mais difíceis…
Talvez seja cada vez maior, a resistência oferecida à força, cada vez menor, que o riso tem para se impor, aflorar ou estalar em gargalhada acesa e viva, como borbulha rompendo a rocha.

Talvez seja por estas e outras razões que o sorriso e a ternura sejam as formas que exprimem mais de perto os sentimentos dos adultos, à medida que o tempo passa.
Talvez o sorriso seja esboço do riso, ou o que do riso resta…

Maria José Rijo

