Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Ai se eu mandasse!
Á Lá Minute
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1.760 – 16 de Novembro de 1984

Não sei o que as outras pessoas pensam que fariam se mandassem.
Sobre algumas coisas, eu já tenho opinião formada.
As máquinas de jogo – por exemplo! – Essas que populavam por aí, por tudo quanto é sitio!

Para mim elas não são mais do que a moderna encarnação do velho: toma!...
Nesta época de fibras, plásticos, cromados e sintéticos, computadores, satélites artificiais, radares, sondas espaciais e robots – as máquinas de jogo são uma replica actual, metálica, policroma, automática e desumanizada – ao vigoroso e sadio Zé Povinho – nascido da mão e da mente criadora de Bordalo Pinheiro.

Á sua maneira electrónica de sofisticada mecânica – a maquineta – dá ao “cliente” de dinheiro fácil – a mesma resposta que o risonho e rubicundo “Zé” dava a quem pedia fiado: - ora, toma!...
Daí que, se eu mandasse, reconhecendo que é impossível evitar o “flagelo” do convite, que esvazia os bolsos dos incautos enquanto os donos do negócio esfregam as mãos de contentes e prosperam com as suas “ratoeiras” programadas para piscar muitas luzinhas e sinais a fazer que dão – mas – sem dar mais do que o gesto descarado mas franco, do boneco de Bordalo…

Daí que, dizia eu – actualizaria também a célebre história da velha que tinha um gato e debaixo da cama o tinha. O gato miava, o pinto piava e a velha dizia: …etc, etc…

Vendo que aqui também há gato…
Sobre cada máquina eu poria o busto duma velha.
Poderia até, parecer-se com a Dona Branca…
Depois, quando o jogador metesse a moeda e apostasse forte
-- o gato, não miava – mas… a velha sorria, os olhos piscavam, a luz acendia e… o braço mexia… mexia… enquanto uma voz, docemente, repetia:
Queria dinheiro fácil? – Queria? – Queria?
E, de novo, o “tal gesto” – surgia!...

Assim, quem insistisse, já sabia a figura brilhante que fazia.
Isto, era uma das coisas que, se eu mandasse, certamente faria.
Maria José Rijo

