Maria José Rijo
Não sou princípio - Nem fim! -Sou um ponto no caminho- Daquela linha partida- Que vinha de Deus para mim!
Os novos rituais
Jornal Linhas de Elvas
Nº 1926 – 5 de Fevereiro de 1988

Por vezes, acontece que ao repetirmos um gesto ligado a uma qualquer tarefa, mais ou menos rotineira, que ao longo dos tempos sempre vimos executar por alguém, temos a impressão de “ver” a pessoa de quem herdamos esse conhecimento.

Pois numa destas tardes escuras e chuvosas, porque me lembrei de como era bom, com tempo assim, chegar da escola e sentir à entrada da porta o perfume das maçãs assadas, da canela no arroz doce ainda quente, ou das compotas a fervilhar em lume brando, nos tachos de arame, brilhantes como ouro, dei-me à fantasia de repetir, para meu goso interior, esses rituais domésticos, quase perdidos.

Só que, no fim do último acto da minha encenação, faltavam os destinatários da empreitada.
Faltava o “público” que gulosamente vinha rapar tachos, lambuzar-se e confundir, até ganhar o seu pratinho de arroz doce ou a sua fatia de pão de trigo colorida pela fruta melada de açúcar vidrado.
Então, como num teatro vazio, ali fiquei arrumando os acessórios da cena e fechando a fila dos frascos como quem fecha os camarins desertos dum teatro onde eu encenara, interpretara e fora a única espectadora.
Eu, que, olhava tudo com o ar de distância, de quem faz uma investida a um mundo passado e irrecuperável.
Agora, para os novos, mesmo os mais novos, a sedução do paladar não se exerce com cores ou perfumes de compotas.

Agora são as garrafas, são os refrigerantes, e as colas, que abrem o apetite para toda a espécie de bebidas, que ocupam definitivamente os espaços onde coexistiam boiões de frutas e latinhas de chá. E o mundo evocador da toalhinha de renda e do bule fumegante, da torradinha estaladiça com compota, e do bolinho caseiro que se fazia contando com os amigos certos – deu lugar à garrafa.

Agora em qualquer sala de qualquer casa, rica ou pobre, se tomam “uns copos” e para “uns copos” se convidam velhos e novos e serão portanto outros e bem diversos os rituais a recordar…
Maria José Rijo

