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Não sei…

Sábado, 28.11.09

Á Lá Minute

Jornal Linhas de Elvas

Nº 1.934 – 1 de Abril de 1988

Não sei…

 

Num dos recentes serviços de noticiários sobre as hediondas guerras em que por ódios e ambições se sacrificam os povos – viram-se imagens impossíveis de esquecer ou classificar – neste Mundo que não mais perderá das consciências as marcas de Auschwitz.

         

Começo a pensar que terão que ser inventadas palavras novas para dar nome às atrocidades requintadas que o homem usa contra o Homem, nesta era em que já nem sequer a ignorância de que a guerra e a violência não podem servir de desculpa como soluça razoável – seja para o que for – porque – prova-o a História, nunca o foram.

              

Ver estendidas nas ruas lado a lado com os corpos de homens e mulheres, meninos indefesos.

          

Ver, emoldurado numa touquinha, um rostozito de criança que tinha o corpinho ainda fechado no abraço de sua mãe, que a carregava ao colo, e que mortas ambas permaneciam ainda unidas frente à fria objectiva que no-las trouxe a casa na hora do almoço … é qualquer coisa de confrangedor e terrorífico como confronto com a violência do direito de viver.

       

Talvez que indagados um por um qualquer individuo se confesse incapaz de cometer violências, quanto mais de matar. No entanto as coisas são como se sabe que são.

São como não se deveria admitir que pudessem ser e são obra humana.

       

As velhas e cruéis imagens de guerra parece que já todos nos acomodamos.

         

Começo a pensar que teremos também que admitir este dado novo para a nossa consciência de gente: - a guerra sem clima de guerra “clássico”, talvez cheirando a flores ou a frutos – cheirando a promessas de vida e dissimulando cinicamente a morte.

        

Quem sabe se tornando comuns e correntes as praticas dos campos de concentração nazis!

         

Decididamente são urgentes as palavras novas e diferentes para classificar as escalada do ódio nestes nossos tempos. As palavras antigas, como os factos antigos, foram ultrapassadas. Para se falar de sexo diz-se – amor – como se uma coisa significasse forçosamente a outra – talvez que para falar de Paz se não fale mais de Amor e sim de Morte.

Não sei.

 

Maria José Rijo

 

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publicado por Maria José Rijo às 21:18





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